sexta-feira, 7 de agosto de 2009

Carta Aberta à Senadora Marina Silva

Exma. Sra. Senadora Marina Silva

Tomo a liberdade de escrever-lhe esta carta em caráter pessoal e individual.

Há anos que acompanho vossa luta e caminhada política em prol de um mundo melhor, mais justo, mais solidário e a vossa defesa intransigente da ética, da honestidade e outros valores de cidadania. De minha parte não poderia dizer nada além do que o imenso respeito que nutro por Vossa Excelência.

Tenho plena convicção que a senhora não só está à altura de servir nosso país em qualquer função que lhe for confiada, como tenho a mesma convicção que uma campanha visando à disputa pela presidência da República tendo vosso nome, engrandecerá a disputa e ajudará no fortalecimento da democracia e do debate sobre a construção de novas alternativas além das já aceitas.

No entanto, venho pedir-lhe, não que desista de vossa candidatura, pelo contrário, que a leve as bases do Partido dos Trabalhadores ¬ – ao qual sou filiado. Assim poderemos cacifar vosso nome, mobilizar as bases, elaborar um programa não de campanha, mas sim de governo. Colocaremos na pauta nacional o debate sobre a defesa da Amazônia e o desenvolvimento sustentável. Ademais, conseguiremos trazer de volta para o jogo político à presença de diversos movimentos populares, hoje distantes ou desiludidos.

Obviamente sou conhecedor das dificuldades de tudo isso que lhe proponho caso esse processo venha a transcorrer dentro do Partido dos Trabalhadores. O alto-comando do PT, todos sabemos, já decidiu por outro nome para ser seu presidenciável. Todavia isso não quer dizer que Vossa Excelência, com o apoio de várias correntes internas e inúmeros movimentos populares, não consiga reunir forças para exigir uma consulta às bases. Caso não seja candidata em 2010, a projeção nacional que Vossa Excelência já possui, mais a coragem de ter colocado vosso nome a disposição da base do partido, com certeza garantirão frutos a senhora e principalmente à sociedade.

Agora, perdoe-me, serei o mais honesto o possível. Entenderia caso Vossa Excelência saísse candidata por outro partido do espectro de esquerda da política nacional que não o PT. Entenderia se a senhora se dispusesse a adentrar no pleito pelo PSOL, pelo PSTU ou pelo PCB. Mas sair candidata pelo Partido Verde, tenha certeza disso Senadora, não honrará em nada vossa biografia. Pois qualquer um desses partidos, com todas as contradições que lhe são pertinentes ou inerentes, representam muito mais que o PV.

O Partido Verde sempre teve como aliados preferenciais o PSDB e o DEM (antigo PFL). Faz parte tanto da administração Kassab na capital paulista quanto da administração Serra no estado de São Paulo. Aliás, o PV paulista nunca foi mais que um apêndice do covismo naquele estado. Em Minas Gerais o PV é aliado incondicional de Aécio Neves e dentre os cargos que ocupa está à presidência da COHAB-MG na figura de Sebastião Navarro Vieira Filho.

Essa figura da política mineira é de minha cidade Poços de Caldas. Firmou-se na política local e estadual – já foi prefeito municipal em duas oportunidades, além de deputado estadual e federal por diversas vezes – como fiel aliado da Ditadura Militar. Posso garantir-lhe, com todas as letras, o quanto o PV poços-caldense é escancaradamente uma legenda de aluguel cujo maior feito foi abrigar Sebastião Navarro quando este se desentendeu com a executiva nacional do DEM. Tanto é verdade que a presidente do diretório municipal do DEM é Tereza Navarro, filha e braço direito de Sebastião Navarro. Este senhor, quando da última passagem pela prefeitura de Poços de Caldas (2005-2008), tentou privatizar parte das águas minerais do município e comprou, numa transação no mínimo obscura, uma área de reserva ambiental para alojar o futuro Paço Municipal.

Não irei alongar ainda mais essa carta. Peço-lhe somente que reflita sobre essas palavras a fim de compreender o que a Senadora significa para a sociedade brasileira e o que o Partido Verde de fato significa.

Agradeço vossa atenção.

Hudson Luiz Vilas Boas, Cientista Social
Poços de Caldas, MG

quinta-feira, 6 de agosto de 2009

Não Tem Preço

Salário do namorado da Neta de Sarney... R$2,7 mil

Tratamento da mãe de Arthur Virgílio... R$700 mil

Fretamento de jatinhos por Tasso Jereissati... R$469 mil

Patrimônio “oficial” de Renan Calheiros... R$10 milhões

Fortuna “estimada” da família Sarney... R$250 milhões

Ver a direita chafurdar mais e mais na lama dando barraco no Senado, ver Tasso Jereissati chamar Renan Calheiros de “cangaceiro de terceira categoria” e Calheiros retrucar chamando o nobre companheiro de “coronel de merda”...NÂO TEM PREÇO!!!

http://ultimosegundo.ig.com.br/brasil/2009/08/06/renan+aumenta+o+ataque+contra+virgilio+em+plenario+7723995.html

terça-feira, 4 de agosto de 2009

Campo: Dominação, Luta e Violência

Por Marcelo Fernandes Fonseca de Oliveira

Entre os diversos temas que permeiam o debate político, econômico e social do Brasil contemporâneo, e se torna discurso corrente principalmente em anos eleitorais, diz respeito à estrutura fundiária nacional, a reforma agrária e os conflitos sociais no campo. Muito já se disse e fora prometido, no entanto, nada se fez e nada se faz.

Apesar de possuir dimensões continentais, o Brasil está entre os países com pior distribuição de terras do mundo. E a distribuição existente é uma das mais desiguais. Para o Geógrafo Ariovaldo Umbelino de Oliveira, o latifúndio e as lutas sociais no campo, não são exclusividades do nosso tempo. Tem suas raízes no modelo de colonização empregado no Brasil pelo rei de Portugal, e durante o processo histórico, tal modelo justificou a posse das grandes propriedades rurais.

Com o sistema de Capitanias Hereditárias, os capitães donatários recebiam uma doação da Coroa portuguesa pela qual se tornavam possuidores e não proprietários de vastas extensões de terras. No entanto, a posse dava aos donatários poderes e direitos sobre o território, dentre eles a doação de sesmarias. Para o Historiador Boris Fausto, reside aí a origem do latifúndio e da concentração de terras no Brasil.

A posse da terra era sinônimo de prestígio, uma afirmação aristocrática. Os primeiros prejudicados e os primeiros a lutarem, foram os indígenas, que viram suas terras serem tomadas e seus costumes dilacerados. Lutaram, mas a luta foi desigual. Nos tempos da escravidão, os negros lutaram contra os grandes fazendeiros pela sua liberdade; luta desigual. Canudos e Contestado, camponeses se revoltaram. Para manter a “ordem” o Estado, coercitivo, reagiu com violência.

As lutas no campo ganham dimensão nacional nas décadas de 1950 – 60, com a formação das Ligas Camponesas e a criação da ULTAB (União dos Lavradores e Trabalhadores Agrícolas do Brasil). No entanto, com a tomada do poder pelos militares em 1964, os líderes foram perseguidos e assassinados.

Política e interesses agrários se misturam. Leis e acordos justificam atitudes. Entre outras, a Lei de Terras (1850): consolidou o latifúndio, o Convênio de Taubaté (1906): privilegiou os cafeicultores, o Estatuto da Terra (1964): jamais aplicado. E a violência? Não só física, mas simbólica: Corumbiara, Eldorado dos Carajás, Pontal do Paranapanema, Chico Mendes, irmã Dorothy Stang e tantos outros...

O que mudou? Nada. Encontramos facilmente pelos rincões deste país inúmeros latifúndios monocultores controlados por grandes grupos capitalistas e por aqueles que controlam. A “bancada ruralista” congrega mais de cem representantes entre deputados e senadores, e constitui o maior grupo de interesses do Congresso Nacional, frutos da UDR.

E ficam as famosas perguntas que nunca se calam: Será que estes nobres deputados e senadores estão dispostos a fazerem a reforma agrária, tão essencial para o desenvolvimento de nosso país? Repartiriam eles as suas terras e as de seus capachos? Votariam leis contra seus interesses? Eu, modestamente, duvido muito. Reformas sociais, tanto no campo como na cidade, estão atreladas a reforma política e na política.

Marcelo Fernandes Fonseca de Oliveira é Professor de História e Geografia da rede pública estadual de Poços de Caldas – MG. marceloffoliveira@hotmail.com

sábado, 1 de agosto de 2009

Com Hillary não dá

Por Luiz Eça, no Correio da Cidadania

http://www.correiocidadania.com.br/content/view/3583/9/


Obama foi aplaudido universalmente quando afirmou desejar os Estados Unidos respeitados pela justiça de suas ações, não temidos pela sua força.

Hillary Clinton, sua Secretária de Estado, não está ligando, muito para esse "statement". Confira.

No Irã, ela está pondo em cheque a proposta presidencial de negociar com bons modos o programa nuclear do país asiático. De cara, disse que isso não iria dar certo. Mas valia a tentativa para convencer os demais países que com os iranianos falar macio não resolvia.

Indo além, ela esclareceu que caso Teerã fosse em frente seria inútil, pois seu governo respaldaria os países das vizinhanças, fornecendo-lhes um "escudo protetor" com os mais poderosos engenhos bélicos. Uma "ameaça" bastante discutível.

É certo que alguns países árabes do Golfo Pérsico, particularmente a Arábia Saudita, não se dão muito bem com o Irã. Mas, nem todos. O Catar, por exemplo, é um firme aliado, até mesmo condenou as sanções impostas pela ONU.

De resto, os países da região alinhados com os Estados Unidos já estão supridos de armamentos no nível dos iranianos. Só não tem um sistema de defesa anti-míssil tão eficiente quanto a Rússia acaba de vender a Teerã.

Haveria ainda um terceiro vizinho a considerar: Israel. Aí o "non sense" seria exagerado, pois esse país, com os 4 bilhões em armas e equipamentos anualmente fornecidos pelos Estados Unidos desde a gestão Bush, mais as 200 bombas atômicas do seu estoque, tem mais condições de ameaçar o Irã do que o contrário.

Completando seus pronunciamentos dirigidos aos aiatolás, Hillary afirmou: "Vocês não têm o direito de possuir o ciclo de enriquecimento e reprocessamento de urânio sob seu controle." Afirmação arrogante e imperial, bem no estilo George Bush.

E acrescentou, ainda, que os Estados Unidos não permitiriam esta audácia nem sob "intensa fiscalização da ONU", embora El Baradei (Premio Nobel da Paz), anterior diretor na área de controle da energia nuclear da ONU, a considere exatamente a melhor solução para a questão.

Ora, o Irã é um país de povo orgulhoso, com uma grande história, tendo sido inclusive o maior império do mundo. Com seu povo, intimidações não pegam bem. Particularmente por parte dos Estados Unidos, de quem tem pesadas queixas. Foi um golpe da CIA que derrubou o governo nacionalista e democrático do "premier" Mossadegh, por ter nacionalizado o petróleo. Mais recentemente, o governo Reagan ajudou militarmente Saddam Hussein na guerra que fez 1 milhão de vítimas, a maioria iranianos. Na ocasião, embora por engano, uma belonave americana abateu um jato comercial do Irã, com quase 300 passageiros.

Natural que as ameaças e imposições da Secretária do Estado deixem os iranianos furiosos, nada propensos a negociar com boa vontade e equilíbrio no prazo-limite de setembro, determinado por Barack Obama (outra imposição, aliás).

Em Honduras, Hillary também está fazendo das suas. O presidente Obama condenou veementemente o golpe e exige a volta do presidente Zelaya.

Mas ele passou a condução do "affair" para Hillary, que, rapidamente, baixou a bola. Enquanto o resto do Continente, inclusive os países da América Central dependentes dos Estados Unidos, chamavam diplomatas de volta, cortavam comunicações, suspendiam relações comerciais e acordos com Honduras, os americanos limitaram-se a suspender uma ajuda militar de 16 milhões de dólares. E como o secretário da OEA, o chileno Insulza, insistia em medidas severas contra o governo golpista, Hillary fez saber à presidenta Bachelet que seu país não apoiaria a reeleição dele.

E continuou em cima do muro, trocando a condenação por "mediação". Sob seu patrocínio, Arias, da Costa Rica, apresentou um plano de paz que, que na verdade entrega a rapadura. Zelaya voltaria ao poder, mas num governo dividido com aqueles que o derrubaram; as eleições seriam um mês antes para não dar tempo à consolidação de um candidato ligado ao presidente. E quanto à nova Constituição? Forget it !

Justamente é nela onde a porca torce o rabo: as forças políticas, econômicas e militares do "establishment"a rejeitam totalmente, não por ensejar a reeleição de Zelaya (não era proposto), mas porque traria novas leis, dando mais poder ao povo, um dos mais pobres das Américas. Claro, o preço a ser pago pelos bons ofícios da Secretária de Estado será a saída de Honduras da ALBA. Melhor dizendo, da zona de influência de Chávez.

O governo interino está negaceando, mas vai concordar com esse acordo. Zelaya voltará emasculado.E os Estados Unidos perderão mais uma chance de serem "respeitados pela justiça de suas ações".

Na fraternal Inglaterra, graças à ação de Hillary, vai acontecer o contrário. Mais uma vez os Estados Unidos farão valer sua posição por serem "temidos pela força."

Depois de passar sete anos preso em Guantánamo e outras instalações americanas, o residente inglês Binyam Mohamed foi finalmente solto. Entrou, então, na justiça inglesa pedindo a publicação de um sumário da CIA ,de posse do governo inglês, provando como ele foi torturado.

Embora os juízes ingleses declarassem que nesse sumário nada havia que pudesse comprometer o trabalho da agência americana, Hillary entrou no circuito, proibindo que fosse revelado. Caso contrário, ameaçou, os Estados Unidos interromperiam totalmente a partilha de informações de inteligência com os ingleses. Portanto, seria muito importante esconder as violências cometidas em Guantánamo, mesmo ao preço de reduzir a eficiência dos serviços de inteligência ingleses.

Na formação do seu secretariado, o objetivo do presidente Obama era conseguir uma união nacional. Ao lado de personalidades de sua escolha pessoal, foram contemplados setores do Partido Democrata menos afinados com ele, lideranças do Partido Republicano e até de Wall Street. No afã de tranqüilizar os conservadores, Obama não nomeou um único membro da ala esquerda para cargos de peso.

Esse partido foi adotado numa área particularmente sensível – a política externa –, onde ele colocou Hillary Clinton na Secretaria de Estado e Robert Gates na Secretaria do Exército, cargo que vinha ocupando no governo Bush.

Estranho, porque a idéia dessas pessoas divergia da proposta geral de conciliação de Obama. Questionado, ele replicou que os dois aceitariam suas orientações, acrescentando: "Eles concordam com o meu pragmatismo sobre o uso do poder".

Gates até que tem sido discreto. Mas Hillary... Continuando assim, deixando a sra.Clinton correr com rédeas soltas, a mudança preconizada por Obama tende a ficar mais na retórica.

Luis Eça é jornalista.

sexta-feira, 31 de julho de 2009

O PT e o Poder, ou, O Poder e o PT

Por Francisco Hugo Vieira de Freitas

O PT já nasceu dividido contra si mesmo. Como, aliás, toda a Esquerda.

A Direita não é um monólito. A Direita é o Poder. No Poder, facções se acomodam e tornam-se monolíticas. A Direita sobrevive fora do Governo, embora prefira estar Governo. Governo pode, vez ou outra, ser o anel que se perde para não se perderem os dedos.

As mais lúcidas mentes anarquistas do século XIX admitiam participação nos governos — nos legislativos —. De onde se pode incomodar, denunciar e minar o Poder.
Capitalista ou comunista, quem está no Poder tem como prioridade única permanecer no Poder. Às vezes, abrem-se, em razão dessa lógica, espaços para novos grupos, facções e interesses. Grupos, facções … por vezes oriundos da Esquerda. O processo é o de cooptação. O Poder corrompe!

O PT já nasceu dividido. No Governo, partes dele se deixaram seduzir pelo Poder. Outras não foram chamadas ou não se conformaram com a divisão das capitanias hereditárias. Admita-se até que houvesse quem, no Governo, pretendesse demolir as seculares — no Brasil — e milenares estruturas do Poder.
Permanecer no Poder não é difícil: bem dosadas, a mentira e a corrupção são suficientes.

Quando grupos, facções forçam adentrarem-se à festa do Poder com amigos e parentes sem convite, um impasse: não há lugar para todos. É a hora do “ranger de dentes”.
A Direita é capaz de um gambito — tipo entregar a peça Sarney — para proteger o Rei.
Quando o menino de Garanhuns foi alçado à Presidência, apresentaram-se à sua tutela nada menos que o Dirceu, o Mercadante, a Marta, o Eduardo…, um ou outro já com um pé na cozinha do Poder.

A Ética sempre foi estranha (alheia) ao Poder e isso se torna flagrante quando grupos que chegam ao governo com discurso ético de imediato se oferecem ao Poder.

Povo é sábio: cuida de sua vida sem aspirações de Poder. Sabe que Polícia e Justiça são instituições criadas para proteger os poderosos. E nem leram a troca de cartas entre o Freud e o Einstein sobre o assunto.

Lula aprendeu que falar em um estádio lotado de metalúrgicos não é a mesma coisa que falar em recinto fechado para executivos de montadoras: são discursos diferentes em tom e em palavras. Tornou-se competente nesse métier.

Afirmar que a Ética não é afim aos sindicatos seria uma tremenda injustiça aos mártires anarcossindicalistas, mas…

Lula não fez uma opção pela Ética. Descartar Marina Silva, Paulo Lacerda, Waldir Pires … não é bom sinal.

Só os neoliberais colhem o que não plantam.

Aos que sonham com um País mais ético — educado, seguro e justo —, é sentir muito: não foi desta vez.

Em tempo: Do Gilmar ao Jô e suas meninas, a Direita está saindo do armário, não está? Há um clima de xeque-mate. Brancas(de olhos azuis) ou pretas?

Francisco Hugo Vieira de Freitas é educador e colaborador constante do Dissolvendo No Ar.
chicohugo@superig.com.br

quinta-feira, 30 de julho de 2009

A Pseudo-Federação Brasileira

Há anos venho pesquisando sobre o significado da federação no Brasil. Acompanhei pela mídia no início do governo Lula as conversas de Zé Dirceu com alguns cientistas políticos a fim de se elaborar novas formas de divisão, ou subdivisão, federativa, a exemplo do que ocorre na maioria dos países. No entanto o projeto não andou.

Já não bastasse a divisão entre os Três Poderes levada ao pé da letra, o presidencialismo capenga adotado pela Constituição de 1988, os mecanismos que impedem projetos de iniciativa popular e a nossa falta de tradição em consultas populares fora do pleito eleitoral, ainda somos obrigados a conviver com essa aberração que é a pseudo-federação brasileira.

É impossível continuarmos insistindo com unidades federativas tão dispares entre si, com direitos e deveres praticamente idênticos. Essa é inclusive uma das causas de nossa baixa participação popular e empecilho a uma democracia mais avançada. Tratar como iguais o estado de São Paulo e o Piauí, ou então, e pior, o município de São Paulo e Anhangüera-GO com apenas 5 mil habitantes se configura em verdadeiro acinte a democracia.

Uma das propostas que venho formulando é a de abolir as atuais divisões administrativas (estados e municípios) e criar novas com atribuições especificas de acordo com a população e recursos de cada localidade. Assim teríamos, num exemplo aleatório, subdivisões: cidade, freguesia, região metropolitana, sede. E divisões: distritos, que seriam na verdade a federação entre as subdivisões.

Os estados no Brasil foram criados com o intuito de aplacar a sede de poder das oligarquias regionais, não levando em conta as reais necessidades da República. Ao contrário, acabou afastando da população valores republicanos. O sistema de pesos e contrapesos defendido pelos federalistas estadunidenses nunca foi aplicado no Brasil de forma a combater disputas entre facções dentro da União. Estados e Senado sempre usaram pesos e contrapesos contra as reivindicações populares, uma vez que a oligarquia nacional se manteve razoavelmente homogênea ao longo de nossa história. A federação, no caso do Brasil, é algo artificial e sintoma apenas do medo de desintegração do país após a queda do Império, uma vez que não houve participação popular na derrubada do antigo regime e os interesses oligárquicos passaram a ser o interesse do novo regime.

Estados, municípios e Senado Federal formam o mesmo lado da mesma moeda, ou seja, a dos interesses oligárquicos. O pseudo-federalismo brasileiro além de tratar como iguais os diferentes, como já citei acima, também não passa de pseudo por concentrar, de fato, poder e decisões no âmbito da União, castrando os demais entes.

Por tudo isso, acredito que o debate sobre uma reforma política necessariamente tem de ir para muito além de mera reforma eleitoral, mas sim buscar uma reforma na estrutura do Estado brasileiro, realizando concomitante a reforma eleitoral, as reformas administrativa e federativa.

quarta-feira, 29 de julho de 2009

No Portal Luis Nassif

Questão postada no Portal Luis Nassif [http://blogln.ning.com/] pelo associado João Sidney Pontes:

"Eu sou a favor de mudar o sistema bicameral para unicameral,extinguindo o senado federal, já imaginou a economia por ano para o país? Que poderia ser revertido para a educação, saúde, infraestrutura e outras áreas."

Curta resposta deixada por mim:

O problema não são apenas os bilhões que custam à manutenção do Senado Federal. Um regime democrático não é barato, no entanto é mais transparente que qualquer ditadura. O problema está sim no que representa o Senado. Numa federação como os EEUU com forte tradição de autonomia entre os entes federativos e onde a própria União foi resultado, a princípio, dos interesses políticos das Treze ex-Colônias recém independentes da Inglaterra (vale lembrar que as Treze Colônias não possuíam vínculo político entre si) o sistema bicameral, com a Câmara dos Representantes representando o povo e o Senado Federal representando os estados, faz todo o sentido. Mas no Brasil onde primeiro foi estabelecido o Estado e esse se incumbiu de criar os entes federativos, não faz qualquer sentido. Os estados brasileiros foram criados com o intuito de arrefecer as disputas pelo poder central ao mesmo tempo em que garantiam força às oligarquias regionais. Desde o Império não temos nenhuma tradição federativa, basta ver nas seguidas Constituições o que de fato cabe aos estados (à época do Império províncias) e o que cabe à União. Sempre fomos um Estado com o poder fortemente centralizado. Os poucos aspectos que poderiam nos dar um caráter federativo são insuficientes e raquíticos. Portanto qual a verdadeira finalidade de se manter um sistema bicameral? Poderia se afirmar que nossa Câmara Alta trata-se na verdade duma casa revisora com poderes alheios aos da Câmara Baixa. O que é mentira, pois na verdade há uma sobreposição de funções entre ambas. No mais, por sua gênese, o Senado brasileiro se configura cada vez mais em trava às demandas populares e mais progressistas, o ranço das oligarquias continua vivo. Vemos no Brasil duas casas distintas. Uma, Câmara dos Deputados com todos os problemas que lhe são pertinentes, mais propensa ao debate e aos anseios populares ou de grupos da sociedade civil organizada. Outra, Senado Federal, conservadora e fiel mantedora dos vícios oligárquicos e corporativistas.

terça-feira, 28 de julho de 2009

A Mídia e a Banalização da Educação

Por Marcelo Fernandes Fonseca de Oliveira

“Ninguém escapa da educação”, nos recorda e alerta Carlos Rodrigues Brandão (1). Acompanhamos diariamente um discurso, que se torna cada vez mais discurso, tanto na mídia como na política, a temática: Educação. Educação como aporte para um futuro melhor. E sabemos disso. Sabemos o quanto uma educação progressista, humanista, libertadora e de qualidade é capaz de tirar as amarras e as vendas da juventude brasileira.

No entanto, a mídia que se diz apoiadora de uma educação qualitativa, em contrapartida, a apresenta em horário nobre da TV aberta brasileira com o estereótipo de uma “escola muito louca”.

Levei este debate para a sala de aula. Meus alunos, do primeiro ano do Ensino Médio, não gostaram das comparações. Afinal, o que esta escola muito louca quer mostrar? Será que nossa educação é assim? É essa a imagem da Educação brasileira? Se for, estamos fadados ao fracasso...

Ao apresentar uma escola desta forma, a mídia brasileira mais uma vez (Escolinha do Professor Raimundo, Escolinha do Golias), não está contribuindo em nada para a melhoria da educação. Aliás, penso eu, banaliza.

Um bando de alunos idiotas (opinião minha e de meus alunos), respondem a questionários pedagogicamente sem sentido. Os tipos são mal representados. O atleta, o funkeiro e o marginal. Banalizam as mulheres: muito corpo, pouca roupa e pouco cérebro. O chinês é o contrabandista, além do CDF, é claro.

O barato é fazer rir. Rir do professor, classe profissional que luta diariamente para recuperar seu prestígio na sociedade. Sidney Magal nos representa, e encerra sua aula dizendo: “eu poderia só cantar...”, como se educar fosse um passatempo, uma tarefa aparte. O que pensaria nosso grande mestre Paulo Freire...

Não possuímos uma educação perfeita, temos muito que melhorar. E muitos professores comprometidos lutam diariamente para isso. Para tanto, a grande mídia, que se diz tão incentivadora de uma educação de qualidade, poderia abrir espaços para debates consistentes e produções criativas sobre os mais diversos temas, e não nos apresentar como um bando de tolos.

Não somos assim; e o perigo se encontra na formação de opinião. Eles têm esse poder manipulador. E se querem nos apresentar desta forma, lutaremos contra; sempre.

Professores e alunos comprometidos com uma EDUCAÇÃO de qualidade, uni-vos!

Marcelo Fernandes Fonseca de Oliveira
é Professor de História e Geografia da rede pública estadual de Poços de Caldas – MG
marceloffoliveira@hotmail.com


(1) Brandão, Carlos Rodrigues. O que é educação – SP: Brasiliense; 2005