Via Carta Maior
O ministro Joaquim Barbosa determinou aos 25 réus condenados no processo do chamado 'mensalão' que entreguem seus passaportes no prazo de 24 horas -- além de inclui-los na lista de 'procurados' da PF. A alegada medida 'cautelar' está prevista em lei para determinados casos, como informou Carta Maior em reportagem de Najla Passos (leia nesta pág.).
Neste, porém, a decisão vem contaminada de um ingrediente que orientou todo o julgamento da Ação Penal 470 e lubrificou a parceria desfrutável entre a toga e a mídia.
Trata-se da afronta ao princípio básico da presunção da inocência, esquartejado em nome de uma panaceia complacente denominada 'domínio do fato'. Ou, 'o que eu acho que aconteceu doravante será a lei'.
A caça aos passaportes sem que se tenha esboçado qualquer disposição de fuga (apenas um dos 25 réus ausentou-se do país antes do seu julgamento e, ao contrário, retornou a ele antes de ser condenado) adiciona a essa espiral um acicate político.
Trata-se de uma aguilhoada nos réus que formam o núcleo dirigente do PT, com o objetivo explícito de joga-los contra a opinião pública, justamente por manifestarem críticas à natureza do processo.
A represália é admitida explicitamente. Segundo o relator Joaquim Barbosa, os réus estariam “afrontando” a corte ao questionar suas decisões.
O revide inusitado vem adicionar mais uma demão à fosforescente tintura política de um processo, desde o seu início ordenado por heterodoxias sublinhadas pelo revisor Ricardo Lewandowski.
O propósito de provocar a execração pública com a caça aos passaportes e a inclusão provocativa na lista de 'procurados' da PF, remete a um método que se notabilizou em um dos mais sombrios episódios da democracia norte-americana: o macartismo.
O movimento da caça aos comunistas no EUA, nos anos 50, embebia-se de um contexto de violência gerado pela guerra fria, mas aperfeiçoaria suas próprias turquesas nessa habilidade manipuladora.
O senador republicano Joseph Raymond McCarthy, seu líder, tornou-se um virtuose na arte letal de condenar suspeitos à revelia das provas, liderando uma habilidosa engrenagem de manipulação da opinião pública, coagida pelo medo a aplaudir linchamentos antes de se informar.
Joseph McCarthy teve uma vida cheia de dificuldades até se tornar a grande vedete da mídia conservadora, cujo endosso foi decisivo para se tornar a estrela mais reluzente da Guerra Fria.
Sem a mídia, seus excessos e ilegalidades não teriam atingido um ponto de convulsão coletiva, forte o suficiente para promover a baldeação do pânico em endosso à epidemia de delatar, perseguir, acuar e condenar -- independente das provas, muitas vezes contra elas.
McCarthy nasceu no estado do Wisconsin, no seio de uma família muito pobre da área rural. Estudou num estábulo improvisado em sala de aula. Sua infância incluiu o trabalho braçal em granjas.
Quando pode, mudou-se para a cidade, fazendo bicos de toda sorte para sobreviver. No ambiente de salve-se quem puder produzido pelo colapso de 29, era um desesperado nadando sozinho para não se afogar no desespero da Nação.
Nadando sem parar recuperou o tempo perdido em um curso de madureza que lhe adiantou quatro anos em um. Tornou-se advogado em 1936. Três anos depois, nadando sempre para não submergir, foi aprovado em um concurso como juiz; ingressou no Partido Republicano que o conduziria ao Senado, em 1946.
À trajetória aplicada e disciplinada veio somar-se então o oportunismo de alguém determinado a não regredir jamais à condição de origem. Aproveitando-se das relações partidárias, Joseph McCarthy aproximou-se de Edgar Hoover, chefe do FBI, pegando carona na causa anti-comunista que identificou como uma oportunidade em ascensão.
O resto é sabido.
Em dueto carnal com a mídia extremista, passou a liderar o Comitê de Atividades Anti-Americanas no Congresso. Desse promontório incontestável no ambiente polarizado dos anos 50, acionou sem parar a guilhotina anti-comunista.
Tornou-se um simulacro de Robespierre da ordem capitalista ameaçada pelo urso vermelho. Pelo menos era assim que vendia seu peixe exclamativo listando suspeitos --e 'atitudes suspeitas'-- em todas as esferas do governo e do próprio estamento militar.
O arsenal do terror vasculhava cada centímetro da sociedade. Mas foi sobretudo no meio artístico e intelectual que o garrote vil implantou a asfixia das suspeição generalizada, em cujo caldeirão fervia o ácido corrosivo das perseguições e da coação insuportável, não raro motivadora de episódios deprimentes de delação.
Chaplin, Brecht, Humphrey Bogart foram algumas das vítimas da voragem macartista.
As provas eram um adereço secundário no espetáculo em que se locupletavam jornais e oportunistas de toda sorte.
Nem era necessário levar os suspeitos aos tribunais. O método da saturação combinava denúncias com a execração pública automática. Num ambiente de suspeição generalizada o efeito era eficaz e destrutivo.
Raras vozes erguiam-se em defesa dos perseguidos. O risco era se tornar a próxima vítima no redil da suspeição.
A condenação antecipada encarcerava os denunciados numa lista negra que conduzia à prisão moral feita de alijamento social, político e profissional. Frequentemente levava a um isolamento pior que o das penitenciárias.
A destruição da identidade equivale a morte em vida. Alguns preferiram o suicídio ao destino zumbi.
MacCarthy morreria em maio de 1958, desmoralizado por um jornalista conservador, mas sofisticado e corajoso, que resolveu afrontar seus métodos e arguir casos concretos de arbitrariedade.
Edward Murrow, cujo embate com McCarthy inspirou o filme 'Boa Noite e Boa Sorte', tinha um programa na internet de então, a TV em fraldas.
No seu See it now, ele colhia provas de casos concretos de injustiça e esgrimia argumentos sólidos contra o denuncismo leviano. Não recuou ao ser colocado na lista negra e trincou a reputação do caçador de comunistas a ponto de levá-lo a ser admoestado pelo Senado.
Em um confronto decisivo, Murrow emparedou o consenso circular em torno de McCarthy com uma frase: 'Se todos aqueles que se opõem ao senhor ou criticam seus métodos são comunistas (como McCarthy acusava) - e se isso for verdade - então, senador MacCarthy, este país está coalhado de comunistas!'
O Brasil não é os EUA da guerra fria, nem está submetido a comandos de caça aos comunistas, como já esteve, sob a ditadura militar, contra a qual alguns dos principais réus da Ação Penal 470 lutaram com risco de vida.
Certa sofreguidão condenatória, porém, ecoada de instâncias e autoridades que deveriam primar pela isenção e o apego às provas e, sobretudo, as sinergias entre a lógica da execração pública e o dispositivo midiático conservador --que populariza o excesso como virtude na busca de um terceiro turno redentor para derrotas eleitorais sucessivas-- bafejam ares de um macartismo à brasileira nos dias que correm.
Foi o que advertiu, com argúcia, o jornalista, professor e escritor Bernardo Kucinski, autor do premiado 'K', obra em que narra a angustiante romaria de um pai em busca da filha nos labirintos da ditadura militar brasileira.
Nas palavras de Bernardo Kucinski:
"Estamos assistindo ao surgimento de um macartismo à brasileira. A Ação Penal 470 transformou-se em um julgamento político contra o PT. O que se acusa como crime são as mesmas práticas reputadas apenas como ilícito eleitoral quando se trata do PSDB, que desfruta de todos os atenuantes daí decorrentes. É indecoroso. São absolutamente idênticas. Só as distingue o tratamento político diferenciado do STF, que alimenta assim a espiral macartista.
O mesmo viés se insinua com relação à mídia progressista. A publicidade federal quando dirigida a ela é catalogada pelo macartismo brasileiro como suspeita e ilegítima. Dá-se a isso ares de grave denúncia. Quando é destinada à mídia conservadora , trata-se como norma.
O governo erra ao se render a esse ardil. Deveria, ao contrário, definir políticas explícitas de apoio e incentivo aos veículos que ampliam a pluralidade de visões da sociedade brasileira sobre ela mesma. Sufocar economicamente e segregar politicamente a imprensa alternativa é abrir espaço ao macartismo à brasileira".
sábado, 10 de novembro de 2012
domingo, 4 de novembro de 2012
sábado, 3 de novembro de 2012
Poços de Caldas - E o desejo de mudança venceu!!!
O triunfo do PT em Poços soma-se a outras vitórias
importantes em Minas que deram ao partido a responsabilidade de governar o
maior número de habitantes no estado de Aécio Neves. Serão mais de 3,4 milhão de
habitantes ou 17% do total do estado governados pelo PT a partir de janeiro
próximo. Um feito importante para um partido que pretende em 2014 derrubar a
hegemonia tucana em Minas e no plano federal dar outro mandato a Dilma Rousseff.
Isso se torna ainda mais relevante se levarmos em conta o clima de terrorismo
dessas eleições municipais que transcorreram, numa “suprema” coincidência, de
forma paralela ao julgamento do chamado “mensalão”.
Outro dado relevante é que 2012 marcou o triunfo do novo
sobre o velho em boa parte do país: Eloísio Lourenço sobre Geraldo Thadeu (e
Paulinho Courominas) em Poços; Fernando Haddad sobre José Serra em São Paulo;
Geraldo Júlio sobre Humberto Costa no Recife; são alguns exemplos dum processo
de renovação da politica nacional. Os velhos nomes que marcaram a transição do
período militar para a consolidação da democracia estão dando lugar a novos
nomes e a uma salutar oxigenação da vida política.
Voltando a Poços, após oito longos anos o PT voltará a
governar a maior cidade do Sul de Minas Gerais (segunda maior mesorregião
mineira) e o 14º maior PIB do estado. O partido ganhou esse direito após uma
das eleições mais espetaculares de toda a história política da cidade. Com um
candidato, a princípio, pouco conhecido do eleitorado e disputando a Prefeitura
contra o atual prefeito e um ex-prefeito atualmente no terceiro mandato de
deputado federal, o PT surpreendeu a muitos e trouxe uma enorme alegria, além,
claro, de um desabafo aos seus filiados, simpatizantes, militantes e a todos
aqueles que sonham com uma Poços diferente da que nos acostumamos a ver e morar
nos últimos anos.
O Diretório Municipal do Partido dos Trabalhadores seguiu
a risca aquilo que o PT nacional já vinha elaborando e optou pela renovação de
seus quadros – tomemos o slogan de Haddad em São Paulo: "o
homem novo para um tempo novo". Pois tanto Eloísio Lourenço
quanto Nizar El Khatib surgiram nessas eleições como neófitos no jogo
político-eleitoral e pela primeira vez, após várias eleições, o PT lançou chapa
pura.
A estratégia petista no caso de Poços era a do “novo”
representando uma mudança, um novo modo de se fazer política em oposição a um
modo arcaico, obsoleto e ultrapassado no qual a máquina pública é vista apenas
como meio para atingir objetivos que não possuem qualquer valor republicano.
Passadas as eleições e com a estratégia petista triunfando, vejo que essa
mudança e esse novo, personificados na figura do prefeito eleito Eloísio
Lourenço, trarão vida nova a política local, que há muito já dava sinais claros
da necessidade de renovação de seus quadros, tanto à esquerda quanto à direita.
E foi justamente nisso que se assentou a vitória de
Eloísio e do PT: na percepção que o momento histórico pedia por renovação, por
um novo discurso, por novas ideias, novas caras, novos compromissos. A fenomenal
arrancada de Eloísio, saindo de meros 4% na primeira pesquisa Ibope divulgada em
29 de agosto, na qual aparecia numa ingrata 4ª posição, até chegar em 7 de
outubro angariando 44,05% dos votos – por pouco não obteve a soma dos votos de
seus dois principais adversários – confirmou essa percepção. No mais, a
campanha de seus adversários se mostrou desde cedo repleta do mais do mesmo.
Não fosse a forma propositiva, ponderada e serena como Eloísio conduziu a campanha,
estaríamos fadados a uma campanha sem nenhuma novidade para a população
poços-caldense ou sequer algum discurso que tratasse dos problemas cotidianos,
mesmo com a cidade passando por uma grave crise administrativa e vendo seus indicadores
socioeconômicos e sua importância política no âmbito estadual caindo cada vez
mais.
Chega a espantar ouvir tanta gente se perguntando qual
foi o segredo do PT nessa campanha, quando na realidade não houve segredo
algum. Costumo dizer que cada eleição tem a sua própria história. Os fatores
que levaram a vitória petista em Poços nesse 2012 dificilmente se repetirão.
Todavia o PT se mostrou sábio ao manter candidatura própria, mesmo diante de
muitas tribulações. Ao insistir na
candidatura própria, o partido se viu obrigado a fazer uma campanha com poucos
recursos financeiros, mas ao mesmo tempo chamando a responsabilidade para a
militância. Indubitavelmente aí reside boa parte do seu “segredo”, na força da
sua militância e naquilo que o partido representa.
Outros fatores vieram a colaborar para o excelente
desempenho petista na maior cidade do Sul de Minas – afinal, além da
espetacular virada de Eloísio, o PT ainda fez os dois vereadores mais votados
de toda a mesorregião, respectivamente Paulo Tadeu e Professor Flávio –, entre
eles podemos citar que enquanto se assistia as mais variadas baixarias em pleno
horário eleitoral – baixarias que exploravam desde a dor de mães que haviam
perdido os filhos até ataques a vida pessoal dos candidatos, passando por denúncias
de mau uso de recursos e equipamentos públicos – a campanha petista soube
canalizar o sentimento de frustração da sociedade poços-caldense ante o
abandono da cidade e a consequente rejeição ao atual prefeito, além de fazer o
clima presunçoso de “já ganhou” que tomou conta da candidatura de Geraldo
Thadeu jogar contra o próprio candidato.
Eloísio também soube explorar o vazio de projetos dos
candidatos mais experientes e a falta de explicação para a ruptura do “grupo
dos caciques” (Geraldo, Navarro, Mosconi) com Paulinho Courominas. Num terreno
como este Eloísio soube com raro faro político capitalizar o desejo de mudança
e o desconforto causado pelo deserto de ideias apresentado pelos dois
principais oponentes.
Com certeza Poços viverá outros tempos com Eloísio e o PT
sepultando o coronelismo conforme implantem politicas sociais que atendam de
fato a população e que tragam consigo a responsabilidade no trato da coisa
pública, além do estreitamento do diálogo com a sociedade, tornando a cidade
mais justa, mais democrática e mais transparente.
terça-feira, 30 de outubro de 2012
O começo de 2014
As eleições de 2012 evidenciam uma disputa que, acredito, ficará bem clara em 2014: a de PT x PSB. Sim, o PSB está, aos poucos, se nacionalizando, muito por trabalho de seu presidente nacional, Eduardo Campos, que é também o governador de Pernambuco. Campos conseguiu eleger em seu quintal, Recife, um quase desconhecido – Geraldo Júlio (PSB) – já no primeiro turno. Fez vitórias importantes também em Fortaleza, onde seu candidato bateu justamente o PT, e em Belo Horizonte, com a reeleição de Márcio Lacerda (PSB), que é fruto do acordo entre Campos e o (agora mais do que nunca) presidenciável Aécio Neves. Uma vitória simbólica ocorreu em Campinas, onde Jonas Donizete (PSB) bateu Marcio Pochmann (PT) mesmo depois de ostensivo apoio de Lula e Dilma. Vale lembrar que Donizete foi muito apoiado pelo governador paulista, Geraldo Alckmin, que sairá à reeleição em 2014.
Se o PSB, a linha de Eduardo Campos, começa a namorar com a ideia de ter candidato próprio – ele, Eduardo Campos – nas eleições presidenciais de 2014, este movimento mais do que nunca estreita as relações de PT e PMDB. Acho que o caso de São Paulo deixa isso ainda mais forte: Fernando Haddad caracterizou a grande vitória do PT e do ex-presidente Lula em 2012, e ela ocorreu com forte e importante apoio de Gabriel Chalita (PMDB), que saiu maior do que entrou na campanha paulistana.
Ou seja, veremos a repetição em 2014 da chapa Dilma Rousseff e Michel Temer, consolidando o processo, portanto, de portas fechadas ao PSB (ou a qualquer outro) na vice de Dilma para reeleição. Eduardo Campos sabe disso e, entendo, moveu o PSB de forma mais ou menos coordenada a fim de montar uma boa estrutura com condições de nacionalizar o seu nome em 2014. A depender da economia, pode fazer barulho… ou não.
O PSDB não saiu fraco de 2012, quem saiu fraco foi José Serra. Em seu discurso de derrota (mais uma) estavam os poucos aliados que lhe restam: o deputado Vaz de Lima, o senador Aloysio Nunes Ferreira, o vereador Andrea Matarazzo e, claro, o prefeito Gilberto Kassab e o governador Geraldo Alckmin. As derrotas de 2006 (para presidente) e 2008 (para prefeito) fizeram Alckmin entender que as portas de seu partido só estão abertas para ele em SP. Para Serra, nem essas, agora. O PSDB nacional não deve voltar a trabalhar por Serra em 2014, até porque não pode: todo partido (falamos aqui de PT, PMDB e PSB) tem um projeto de poder, e o PSDB, se quiser continuar razoavelmente hegemônico, precisa voltar a ganhar. Quem no PSDB está ganhando? Aécio Neves. Não, não é esse furacão todo, mas Aécio teve vitórias políticas em 2012, como teve Alckmin (em Campinas); mas Serra e, no Paraná, Beto Richa, não tiveram. Então, o jogo se move para Aécio.
O DEM, quem diria, conseguiu uma sobrevida: ACM Neto ganhou em Salvador, a primeira capital do Brasil, e justamente do PT do governador baiano Jacques Wagner. O DEM conseguiu importante vitória no mesmo ano em que seu único quadro com algum respeito nacional – o então senador Demóstenes Torres – foi cassado e humilhado publicamente por uma investigação da Polícia Federal e inquérito parlamentar no Congresso Nacional.
O PT perdeu o Nordeste, especialmente para Eduardo Campos, mas fez vitórias cruciais: o que Haddad conseguiu em São Paulo foi histórico, algo que outros petistas graúdos já não conseguem mais, como Marta Suplicy, e outros jamais conseguiram, como Aloizio Mercadante. A vitória em Goiânia também foi importante. Mas, mais que suas vitórias próprias, o PT conseguiu em 2012 um movimento importante: as conquistas arrasadoras de Eduardo Paes (PMDB), no Rio de Janeiro, e de Gustavo Fruet (PDT), em Curitiba, lançam luzes importantes para o jogo de 2014, tanto no terreno regional (o PT quer fazer da ministra Gleisi Hoffmann a ministra do Paraná) quanto no nacional.
O PDT sai com uma cara nova das eleições. Se isso é bom ou ruim, eu não sei. A vitória de um quadro histórico em Porto Alegre, Fortunati, e de Fruet, em Curitiba, servem para derrubar a disputa de poder recente dentro do partido, entre dois quadros não necessariamente condizentes com a história do partido: Carlos Lupi e Paulinho da Força. Se esse movimento vai se estender para além de Rio Grande do Sul e Paraná, é o que veremos.
O PSOL saiu forte de 2012, porque aproveitou a projeção de seu único senador – Randolfe Rodrigues – para eleger seu primeiro prefeito em capitais (no caso, Macapá) e para realizar bom debate no Rio de Janeiro, com Marcelo Freixo. Mas o PSOL ainda está longe de ser nacional. O que faz é ocupar um espaço mais à esquerda, depois do PT ter se consolidado como a centro-esquerda brasileira: Haddad foi eleito com muitos votos de conservadores, e muita gente votou no PT pela primeira vez (também por erros do PSDB, que voltou a apostar em Serra).
Mensalão teve algum efeito? Olha, se teve, não foi no Brasil. Os dois principais responsáveis pelas investigações do esquema na CPI entre 2005 e 2006, Eduardo Paes e Gustavo Fruet, fizeram verdadeiros massacres no Rio de Janeiro e em Curitiba, respectivamente, e fizeram isso com importante apoio do… PT. Além disso, na capital de onde partiram os principais nomes do PT condenados pelo STF (José Genoino e José Dirceu), foi eleito justamente um petista (Fernando Haddad), com larga vantagem de votos.
Fraco, fraco mesmo, sai o PV. Há dois anos, o PV lançara Marina Silva para a presidência da República, candidatura fortíssima, que obteve quase 20 milhões de votos. Onde está o PV hoje?
A política brasileira precisa passar por reformas. Temos 30 partidos, mas poucos, bem poucos, com alguma relevância para o debate. Ao invés de depurar, 2012 estendeu esse processo de distanciamento da política: as abstenções e votos nulos foram gigantes. Como ficará para 2014?
Essa é a pergunta que todos vamos fazer a partir de agora.
domingo, 28 de outubro de 2012
Música de Domingo - Samba do Arnesto (Adoniran Barbosa)
Já que hoje é um dia especial na capital paulista, nada melhor que samba genuinamente paulistano.
domingo, 21 de outubro de 2012
Nizar El Khatib: o nosso vice-prefeito
Por João Alexandre Moura
O vice-prefeito é o substituto direto do prefeito municipal
em caso de ausência por licença ou outro impedimento. Pode e deve exercer
função dentro da administração municipal.Ter um amigo vice-prefeito não é para
qualquer um, ainda mais de Poços de Caldas. Orgulho-me em dizer que sou amigo
do vice-prefeito eleito Nizar El Khatib, orgulho este que não vem de agora pelo
êxito conquistado nas urnas juntamente com o Dr. Eloísio, pós-eleição aparecem
vários “amigos”. Admiro e prezo pela amizade do Nizar antes de se tornar nosso
vice-prefeito, pessoa íntegra de conduta ética, moral, disciplinar, alegre,
equilibrada, educada e sábia.
Conheci este muçulmano prestigiando suas inúmeras palestras
sobre a questão da Palestina e sua militância a favor dos direitos humanos.
Como professor de geografia e estudioso da sociedade observei atentamente a
fala daquele senhor e o brilho em seus olhos quando se remetia a falar das
origens árabes e do sofrimento daquele povo. Quando leciono a questão palestina
em sala de aula utilizo o discurso e os conhecimentos do amigo Nizar para
tentar transmitir aos meus alunos toda a emoção da fala de um cidadão
muçulmano, realidade esta desconhecida por muitos do mundo ocidental.
Nizar era um dos candidatos a vice-prefeito menos conhecido
da população. Entretanto sua militância política de 30 anos, disposição física,
carisma, respeito ao eleitor e paixão pelo que faz, despertou na população de
Poços o desejo de mudança. Um prefeito negro, um vice-prefeito muçulmano
representa a vitória de muitos que a sociedade trata com inferioridade,
discriminação e preconceito.
Desejo que Nizar seja o braço direito do Dr. Eloísio, um
vice-atuante, pelo esporte, cultura, diversidade e meio-ambiente. Que as
histórias de João Bá e a música de Fernando Guimarães te inspire nesta
caminhada e te leve tranquilidade. Torço pelo seu êxito Nizar El-Khatib Arafat.
Salam Aleikum.
João Alexandre Moura é Professor, militante cultural e ambiental, além de mestrando em
Sustentabilidade.
A última semana das eleições, por Marcos Coimbra
Termina no próximo domingo a eleição municipal de 2012. Em
50 cidades, os eleitores voltam às urnas para votar em um dos candidatos a
prefeito que disputam o segundo turno.
Entre essas, na maior cidade brasileira e outras 16 capitais
estaduais.
Foram as eleições mais conturbadas desde a redemocratização.
Por decisão sem fundamento técnico, o Supremo Tribunal Federal (STF) resolveu
fazer o julgamento do “mensalão” exatamente no meio do período eleitoral.
O ápice dessa “coincidência” ocorre ao longo desta semana,
que os ministros consideram adequada para terminá-lo.
Para não atrapalhar a viagem ao exterior do Relator -
certamente de importância fundamental para o País -, vão deliberar a respeito
das penas aos condenados nas vésperas da eleição. Em tempo de preparar as
manchetes dos últimos dias.
E ainda há quem se preocupe em silenciar os carros de som
nessa hora, para que não perturbem os eleitores enquanto refletem sobre sua
decisão final!
Parece que o Judiciário não se incomoda que o julgamento
interfira na eleição. Como disse o Procurador-Geral da República em
inacreditável pronunciamento, acha até “salutar”.
Os principais veículos da indústria de comunicação dedicaram
ao julgamento uma cobertura privilegiada. Na televisão, no rádio, na internet,
nos jornais e revistas, foi, seguramente, maior que aquela que a eleição
recebeu.
Só os muito ingênuos acreditariam que a grande imprensa foi
movida por objetivos morais, que estava genuinamente preocupada com as questões
éticas suscitadas pelo “mensalão”. Basta conhecê-la minimamente, saber quem são
seus proprietários, articulistas e comentaristas, para não ter essa ilusão.
E lembrar seu comportamento no passado, quando fatos tão
graves quanto os de agora - ou mais - aconteceram sob seu olhar complacente.
Como mostra nossa história moderna - desde o ciclo Vargas
aos dias de hoje, passando pelo golpe militar de 1964 e a ditadura -, a grande
imprensa brasileira escolhe lado e não hesita em defendê-lo. Tem amigos e
adversários.
A uns agrada, aos outros ataca.
No julgamento do “mensalão”, a discussão ética sempre foi,
para ela, secundária. O que interessava
era seu potencial de utilização política.
Seria engraçado imaginar uma situação inversa, na qual os
denunciados não fossem “lulopetistas” e sim representantes dos partidos que
hoje estão na oposição. Se o STF fizesse como faz agora, não mereceria o coro
de elogios que ouve, não seria tratado como bastião da moralidade.
Seus ministros, ao invés de receber tratamento de heróis,
estariam sendo achincalhados.
Especialmente os indicados por Lula e Dilma. Pobres deles!
Cada voto que emitissem contra um oposicionista seria suspeito (o que ajuda a
entender porque, no caso concreto, exatamente esses se sintam no dever de ser
punitivos ao máximo).
Nunca foi tão apropriada a teoria de que a eleição municipal
é a ante-sala da presidencial. Não para a maioria do eleitorado, que não pensa
assim. Mas para a oposição - nos partidos políticos, na mídia, no Judiciário,
na sociedade.
Fizeram tudo que podiam para transformar as eleições em uma
derrota para Lula e o PT. Imaginaram que os dois sairiam delas menores,
derrotados nos principais embates. E que, assim, chegariam à eleição que
interessa, a presidencial de 2014, enfraquecidos.
Não foi isso que ocorreu nos confrontos que terminaram no
dia 7 de outubro. Pelo contrário. Se as pesquisas de agora forem confirmadas,
não é isso que ocorrerá no próximo domingo.
Goste-se ou não do ex-presidente e de seu partido, é um
fato. E contra fatos, não há argumentos.
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