sábado, 7 de setembro de 2013

Nesse 7 de Setembro, chega de hipocrisia, meias palavras ou medo de falar a verdade!


Se alguém me perguntar o que penso sobre o “mensalão”, responderei: muito provavelmente houve sim algum tipo de esquema no qual algumas das figuras mais importantes do governo Lula e do PT estiveram envolvidas. 

Porém (ah, sempre há esse bendito, ou maldito, porém) até o momento não surgiram provas realmente cabais sobre a existência de fato de um esquema nos moldes do chamado “mensalão”, e duvido que tenho existido esquema nesse molde. 

Não pretendo entrar a fundo na questão, mas o que vimos, e pra mim está claro, foi um julgamento político típico de estado de exceção (ditadura) presidido pela mais alta corte do País, o Supremo Tribunal Federal. 


Por isso, venho aqui dar minha sincera solidariedade a uma das figuras mais importantes da História recente do Brasil. 


Um homem que lutou contra a Ditadura Militar sendo por essa razão perseguido, preso, torturado e depois deportado do país em troca da libertação do embaixador estadunidense Charles Burke Elbrick. 


Um homem que viveu no exílio e depois na clandestinidade dentro do próprio Brasil.
Um homem que com a Anistia (1979) retornou a vida “normal” e ajudou a fundar o maior partido de esquerda da América Latina. 


Um homem que participou das lutas pela redemocratização, da campanha das Diretas Já, da Constituição de 1988 (ainda que de forma indireta, pois nesse período era deputado estadual por São Paulo), do Fora Collor.


Um homem que foi uma das referências contra o governo FHC e o neoliberalismo dos anos 1990. 


Um homem que foi fundamental para a chegada do PT ao governo federal em 2002. 


Um homem que agora, em pleno 2013, poderá ser condenado a prisão num julgamento cujo o desfecho todos já conheciam.


Um homem que foi condenado num julgamento inegavelmente influenciado pelo oligopólio da mídia conservadora e entreguista. 

Por tudo isso, ratifico, sou solidário ao futuro “preso político” Zé Dirceu!

quarta-feira, 28 de agosto de 2013

segunda-feira, 12 de agosto de 2013

o petê e O PT

Por Paulo Cássio Pereira
Constantemente a mídia direitista/golpista e alguns partidos tentam culpar e imprimir de petê a tudo aquilo que não presta, ou seja, às mazelas das heranças culturais e politiqueiras que existem no Brasil, entre elas a falta de ética, a corrupção, a desigualdade social, etc. A pecha petê só existe na mentalidade de alguns gatos pingados que desconhecem a história coletiva das pessoas que incansavelmente e de forma aguerrida lutaram para a mudança da realidade brasileira. A mídia tendenciosa e alguns partidos de cultura conservadora de direita deveriam saber que alcunha ou apelidos não carinhosos geralmente são dados a bandidos e, por isso, precisam rever conceitos éticos das suas ações.
Por outro lado o PT (Partido dos Trabalhadores) possui identidade/DNA, tem o nome respeitado porque é o Partido Político que na década de 80 teve seu nascedouro junto ao clamor popular direto das ruas com a participação efetiva dos movimentos sociais comprometidos com a esquerda, entre eles os sindicatos, as comunidades eclesiais de base da igreja ligada a teologia da libertação e ao movimento estudantil. Promoveu no país uma revolução no jeito de fazer política, dando oportunidade aos companheiros/militantes de resgatarem a esperança e debaterem a conjuntura política, num momento em que pensar de forma antagônica e ser crítico era crime contra o status quo do governo militar.
Os verdadeiros companheiros não eram militantes só nos finais de semana. Eles não usavam o termo “vestir a camisa” porque isso é marketing empresarial capitalista, pois consideravam que nossa própria pele já é a nossa vestidura, muitos transpiraram e transcenderam os valores da vida e deram o sangue pela utopia de uma nova sociedade e política em suas comunidades.
No Partido dos Trabalhadores os debates sempre foram acalorados, mas com riqueza ideológica devido a pluralidade de idéias. O PT era o grande arcabouço dos movimentos sociais de esquerda que funcionava como um grande plenário, porque a formação política e ideológica acontecia no enfrentamento vivido no cotidiano dos seus militantes nos lugares onde trabalhavam, estudavam e moravam.
O PT no campo das idéias é carregado de valores e significados, além de representar uma transformação nos meios políticos do país. Primeiro porque ele nasceu nas bases e tem riqueza nos debates das causas populares. Só para lembrar de algumas das várias tendências dentro do próprio Partido: Articulação, Convergência Socialista, Trotskista e Lenilista, PT mais a Esquerda etc., sem aprofundar ainda que dele se originou várias lideranças que criaram outros partidos ou atuaram nas organizações não-governamentais que contribuíram para o fortalecimento da democracia.
Os ventos das mudanças no mundo estão aí. Conotações religiosas à parte, percebam os sinais vindos desde a renúncia do papa conservador Bento XVI e a eleição do novo Francisco, latino-americano que celebrou uma missa para as comunidades eclesiais de base em Aparecida quando veio no concílio antes de ser papa, as denúncias e o destaque das legítimas manifestações populares e os anseios pela reforma política.
Para concluir e fazer uma reflexão junto às críticas e as questões éticas na política, aos problemas internos do Partido e pensarmos qual PT queremos, gostaria de lembrar da seguinte história do avô em relação a seu neto adolescente que estava em crise existencial, brigava muito com seus colegas e deixava de frequentar a escola, que é a seguinte:
- O avô convidou o neto para tomar um chá, pegou o bule e foi tornando o chá na caneca, que foi enchendo, enchendo até transbordar. O neto assustado gritou que a caneca estava cheia e que o chá derramado queimava a sua mão. Calmamente, o avô respondeu que aquela caneca significava a vida do neto que estava cheia de tudo e por isso transbordava arrogância, prepotência, sabe-tudo etc. O avô disse ainda que em determinados momentos da vida é preciso esvaziar-se para aprender, se abrir ao novo e ter mais sabedoria, e ensinou uma parábola de que dentro do ser humano teria dois cães na sua estrutura psicológica/emocional. Contou que dentro de nós existe um cão dócil, fiel, seguro, que sabe o que quer, que possui ternura com as pessoas, que é festivo, que trabalha, que tem segurança e que ajuda olhar a casa; mas também existe o outro cão inseguro, violento, que suja o ambiente, que é agressivo, que mete medo e que ataca as pessoas. O neto curioso perguntou: _ E afinal, qual dos dois vence vovô? E o velho sábio respondeu: Vence aquele que a gente cuida e alimenta melhor...

Paulo Cássio Pereira  é  Professor de História e companheiro de Lutas aqui em Poços.

terça-feira, 2 de julho de 2013

Oportunidade Histórica

De todas as propostas apresentadas pelas instâncias de poder até o momento a fim de responderem as manifestações de julho, a mais ousada e que de fato daria uma resposta a altura das manifestações foi exatamente a de uma Assembleia Constituinte.

Ainda que essa Assembleia viesse a tratar exclusivamente da reforma política – o que parece pouco, mas indubitavelmente já representaria um avanço sem precedentes desde 1988 – seria a oportunidade há muito aguardada para colocarmos o dedo na ferida: como são financiadas as campanhas? como são formadas as alianças com vistas ao horário eleitoral? qual o objetivo de partidos ideologicamente, ou ao menos historicamente, tão discrepantes se unirem numa coligação proporcional? Tudo isso estaria em debate numa Assembleia Constituinte.

Todavia a grita da direita encastelada desde o oligopólio midiático até as mais altas cortes de Justiça, passando por associações patronais, pelo Congresso Nacional, por governos estaduais e chegando aos partidos da chamada “base aliada”, retirou tal proposta da agenda.

De imediato as forças progressistas – ah, quanta saudade de quando o Partido dos Trabalhadores usava em seu vocabulário o termo Campo Democrático Popular! – encamparam a ideia de um plebiscito. Algo sem a abrangência da Assembleia Constituinte, mesmo assim uma ideia altamente democrática e com ares de inovação em nossa democracia formal, cujo teor trará questões objetivas sobre uma reforma política, senão tão ampla, ao menos com potencial de mudar substancialmente o quadro caso algumas de suas propostas sejam acatadas pela população.

Não obstante, demorou menos ainda para que a direita novamente se mostrasse contrária e em ato contínuo iniciasse uma campanha bradando a bolivarização do Brasil e que o mais certo em casos assim seria o Congresso votar em regime de urgência uma reforma política e colocá-la em termos de consulta à população na forma de referendo.

A estratégia da direita é clara, inibir a todo o custo o debate aprofundado sobre a Reforma Política que se arrasta há quase duas décadas num Congresso dominado por interesses privados, enquanto o Judiciário afirma não haver possibilidade constitucional para se convocar uma Assembleia Constituinte exclusiva ou mesmo um plebiscito popular.

O que a direita  não compreendeu é que o que está posto em xeque pela população que saiu às ruas é exatamente o staus quo, o estabilishment,o  sistema putrefato ao qual a própria direita está umbilicalmente amarrada e não conseguirá se dissociar por mais que tente ou consiga surfar na onda das manifestações legítimas em seu todo e justas no geral. É como se dissessem aos manifestantes: “Fiquem calmos, nós entendemos que vocês estão contra o sistema e cansados dele. Então vamos chamá-lo pra resolver essa questão”.

Por outro lado, a Presidenta Dilma e os partidos de esquerdas parecem ter compreendido que contra o sistema não se coloca mais sistema, mas sim dá ouvidos a sociedade estabelecendo canais de diálogo e de participação mais ativa. Isso me faz lembrar do filósofo grego Cornelius Castoriadis: "As instituições dos dias de hoje enxotam, afastam, dissuadem as pessoas de participar. E, no entanto, em matéria de política, a melhor educação é a participação ativa – o que exige uma transformação das instituições de modo que essa participação passe a ser permitida e incentivada."

Ademais, o PT está sendo obrigado a reconhecer muito antes do que imaginara, que os avanços obtidos ao longo dos últimos dez anos através de uma reforma gradual e de um pacto conservador, como analisou André Singer, relegou a segundo plano as tradicionais bandeiras do próprio Partido dos Trabalhadores. Reformas estruturais sempre defendidas foram esquecidas ou relegadas a terceiro, quarto, quinto plano em nome da tal governabilidade. Foi assim com a própria reforma política, como também a reforma federativa, a reforma agrária, a reforma urbana, a reforma fiscal/tributária (alterando a perversa fórmula brasileira aonde o mais pobre paga proporcionalmente mais impostos que o mais rico), além das reformas sindical e trabalhista (que de fato atendam aos interesses do trabalhador) e das prementes democratização da mídia, taxação sobre grandes fortunas, redução da jornada de trabalho.

Entretanto, a mesma crise do tamanho de um tsunami que perturba Brasília na comemoração do décimo ano em que forças mais próximas à esquerda estão no poder, trouxe consigo uma oportunidade histórica de a esquerda se reencontrar consigo. A oportunidade da esquerda impor-se sobre os interesses conservadores e propor o aprofundamento dos ganhos sociais e a radicalização da retórica e da práxis democrática.

Em suma, para a esquerda, para o Campo Democrático Popular, não há meio termo possível; ou encabeça o processo de mudanças desempenhando o papel que a História sempre lhe reservou de ser vanguarda, ou será engolida pelo tsunami que vem das ruas.


Afinal, embora a direita não compreenda o valor desse tsunami cheio de demandas e reivindicações típicas da esquerda, a pulverização e a difusão de tantas outras demandas somadas a frustração de não serem atendidas pode facilmente torná-lo caldo fascista para uma reação contra a Democracia.

O hino pela mudança

Por Ana Paula Ferreira

Há alguns anos atrás Rita Lee escrevera que “Mais vale um craque de gol do que dois de araque no ministério” e hoje, o Brasil sendo o país acolhedor da Copa de 2014 tem motivos de sobra para mostrar o contrário.
Embora ainda muitos brasileiros acompanhem os jogos da seleção, pode-se dizer que o sucesso atualmente não está nos campos, está nas ruas.
São milhares de brasileiros que foram às ruas de suas cidades com cartazes e multiplicidade de vozes para erguerem suas bandeiras de educação, saúde, respeito às diferenças e transporte público. Foram tantas as demandas que um imenso grupo se erguia, fugia-se do controle e ora se via cartazes vagos e burgueses como “Fora Corrupção!” (De quem? Contra quem? Qual proposta se faz?), ora com faixas conservadoras “A favor da pena de morte!”. Entretanto, isso é a ilustração de uma adormecida mobilização popular brasileira em massa, pós-ditadura.
O mais interessante é que esse movimento foi ganhando corpo e objetivo específico: lutar a favor de um transporte público que caminhe na mesma direção das necessidades do povo.
Sem querer se fazia política!
No meio da multidão se ouvia “Não queremos política”, mas se ignorava que a própria pressão popular é também um ato político. Política não está relacionada a apenas o período eleitoral. É um processo em que grupos disputam o poder e decisões são tomadas para resolução de conflitos no que concerne a bens públicos. O movimento faz política quando se mostra enquanto grupo que usufrui de um transporte público caro e ineficiente e que, portanto, disputa o poder contra os empresários desse ramo. O governo faz a política oferecendo a resposta, seja ela truculenta, figurada na tropa de choque de Alckmin, ou ainda na ridícula liminar de Anastasia, proibindo manifestações em época de Copa das Confederações. Mas, política pode também ser uma tomada de posicionamento dialógico, que busca atender as demandas da população. E quando a presidenta Dilma retira impostos sobre as empresas de transporte público, ela cumpre esse papel de diminuição da tarifa.
Se estivéssemos no mundo Antigo poderíamos dizer que estamos armados junto com Ares, o deus grego da guerra. Não que estejamos depredando patrimônio, ou agindo com violência. Contudo, muitos estão inflamados pela ação de participar, sob a agitação da pressão popular e o anseio da antítese. Vivenciamos um momento histórico em que cantamos o hino nacional nas ruas, que longe de dar início a um jogo futebolístico, está na verdade abrindo as portas para a voz do povo, que ama seu Brasil e clama por mudanças.
Essas mudanças não vêm apenas com milhares de pessoas indo às ruas. É ingenuidade pensar assim. Talvez por isso os gregos tenham inventado Atena, contraponto de Ares. Essa deusa, embora seja pertencente ao sentimento de guerra, age com inteligência, sabedoria e negociação.
Enquanto povo, vimos nossa força nas ruas. Vimos que somos sujeitos de nossa história e dos que virão. Vimos que somos atores desse grande palco, mas que sem a sabedoria de Atena não conseguiremos dar ênfase a pontos chave. Será apenas uma grande massa desorganizada e desarticulada. Por isso, não tem como fugir da política: precisamos de representantes que respondam por nós em políticas públicas de qualidade.
Façamos, portanto, que Ares e Atena estejam com o povo nessa empreitada!
Ana Paula Ferreira é Pedagoga, Coordenadora Pedagógica do Pré Vestibular Comunitário Educafro e professora da rede municipal de ensino de Poços de Caldas. 

sábado, 29 de junho de 2013

Nossa luta é a de classe

Por Tiago Barbosa Mafra

Nesse momento crucial da história, marcado pelo fundamentalismo do pensamento único e pelo endeusamento das verdades individuais, é perceptível a difusão de questionamentos e diversidade de reivindicações colocadas para o debate pela população.


Há uma gama de especificidades, de grandes grupos que buscam espaço, reconhecimento, respeito, ao mesmo tempo em que muitos que vão às ruas sem saber ao menos o porquê, apenas por modismo.


Há também temas gerais, que aparentemente unem em torno de si a pauta de reivindicações, como a mobilidade urbana; a reforma agrária; a educação e a saúde. Nessa miríade surgem os mais diversos seguimentos organizados: jovens; mulheres; negros, indígenas; portadores de necessidades especiais; aposentados; todos levantando suas bandeiras e cobrando a melhoria nos serviços essenciais oferecidos pelo Estado. Aí surge um paradoxo, querem um Estado provedor, mas no mesmo passo cobram menos impostos.


É inegável a importância da organização social desses grupos para o fortalecimento da ação popular, da conquista de novos direitos e aprofundamento dos já conquistados, além, claro, da busca de ocupação de espaços de poder, o que, por sua vez, esperamos, possa gradativamente desconstruir o discurso dominante vigente.


Apesar de toda essa movimentação salutar, um fator cabe ser ressaltado. O aprofundamento e ênfase nas reivindicações particulares de cada grupo – o chamado movimento altermundista – apesar de serem frutos da mesma estrutura social, têm contribuído para a pulverização ou mesmo fragmentação das demandas de forma que acabam não se articulando num todo. Na busca de ocupação de espaço político, não há articulação entre os diversos grupos envolvidos.


E aí, vem a indagação: há algum fator realmente unificador?


A discriminação racial, a exclusão, a exploração, a fome, a miséria, a violência de gênero, a destruição ambiental, a falta de acessibilidade, a mobilidade urbana tratada como mercadoria e não como direito, fermentados por história oficial que exclui o povo de seu enredo são frutos do mesmo gerador: o sistema sob o qual vivemos.


A raiz de toda a violência estrutural está no modelo socioeconômico que a cada dia fomenta imperceptivelmente o ódio contra qualquer discurso que destoe do que está posto pela estrutura buscando criminalizar movimentos sociais, submetendo tudo e todos à lógica da exploração do mais fraco pelo mais forte, banalizando a desigualdade e a violência, mercantilizando a vida e a política, expropriando as pessoas de sua própria existência.


Frente a tantas manifestações emergindo de uma sociedade até o momento apática (?), é de suma importância que as conquistas realizadas ao longo dos últimos anos sejam compreendidas pelos movimentos sociais. É urgente identificar quem serve a quem e como cada membro político se posiciona no jogo atual.


Há um contexto social diferenciado do de 30 anos atrás, uma classe trabalhadora multifacetada, com demandas diversas, mas que cada qual a seu modo sofre com a exploração. Retomar a luta de classes como fator unificador é questão prioritária, afinal, a esquerda não pode deixar que a disposição de tomar as ruas seja capturada definitivamente pelo discurso de retroação que a direita quer impor à população através de seus dispositivos midiáticos. É urgente uma resposta autêntica da esquerda, que politize o debate.


Com a queda do Muro de Berlim a luta de classes como ponto de partida para reflexão e ação acabou sendo relegada a segundo plano, todavia a única coisa que agrega todos, seja mulher, homem, homossexual, indígena, negro, portador de necessidades especiais, é o fato de que alguém sempre se apropria do fruto do trabalho destes atores. As violências as quais estão submetidos são o fator unificador.

O vicio da fragmentação das demandas sociais é resultado do momento de individualização extrema pelo qual passa o mundo.


A elite confrontará as manifestações, buscando trazê-las para si com discursos travestidos de democráticos e que guardam em seu interior ranços de patrimonialismo e dominação.


Ou enfrentamos o desafio de sair do escamoteamento da luta de classes pelas demandas particulares, ou corremos o risco de ser carregados por um processo de restauração conservadora. É impossível esquecer que a luta maior, continua a ser a luta de classes.



Tiago Barbosa Mafra, é Professor na rede pública e grande companheiro de lutas.



O CLAMOR DAS RUAS E A REVOLUÇÃO PELA ÉTICA

Por Paulo Cássia Pereira

No mês de abril deste ano escrevi sobre os fragmentos da história, os quatro poderes, os acontecimentos políticos, a crise ética e a importância das mídias sociais para dar voz ao povo e formar opinião. Em uma parte do texto dizia o seguinte:
Hoje com os problemas dos partidos e seus aventureiros politiqueiros de última hora, os apadrinhados, os estrategistas políticos com suas ideias mirabolantes de conquistar o mundo (lembra o desenho animado do Pink e Cérebro) escondidos em cargos e ainda o nepotismo nojento, percebemos o inicio do descrédito e o vazio da participação popular...”
É lógico que estamos dentro de um sistema democrático que define suas leis para o funcionamento dos partidos políticos e outras instituições que devem ser respeitadas cada vez mais para o fortalecimento da própria democracia, pois afinal ainda é essa a regra do jogo a ser seguido pela sociedade.
Porém, não é de hoje que percebemos claramente o descontentamento com a classe política, principalmente com os politiqueiros profissionais que abusam nos bastidores dos partidos como se fossem “pequenas empresas e grande negócios”. Agem bem longe da participação popular, por telefone manipulam , tramam, usam pessoas para serem eleitos e ascenderem na política (ninguém é eleito sozinho) e depois viram as costas para o povo e para os próprios companheiros(as) de partidos que também são formadores de opinião. Preferem confiar e se aliar a bajuladores, inimigos ou adversários históricos (forças ocultas). Perdem o rumo pelo qual foi eleito, acham que são vitalícios e fazem conchavos que sejam bons para si mesmos para perpetuarem no poder. Não pensam que suas decisões insanas atrás da mesa repercutirá na vida da dona de casa com seus filhos que aguardam com esperança um mundo melhor. Neste momento eu lembro de uma música cantada no grupo de reflexão das comunidades eclesiais de base “o poder tem raízes na areia...”
Penso que o clamor popular não é ainda para acabar com os partidos ou derrubar governos e que a nossa democracia está em construção, pois a grande maioria sabe que o povo de forma pacífica está dando o seu recado nas ruas que é o parlamento natural no campo das ideias e ações propositivas uma vez que não temos encontrado eco nas instituições. É importante separar o joio do trigo e destacar os movimentos sociais através das organizações não-governamentais que mesmo endurecendo sem perder a ternura são comprometidos com a transformação para “outro mundo possível” e que há muito tempo tem funcionado como um despertador para acordar muitos que estavam no berço esplêndido e hoje estão nas manifestações.
O povo na rua com a juventude na vanguarda é uma advertência aos partidos e seus agentes políticos que precisam fazer uma reflexão e exercitarem a humildade de reconhecer a legitimidade da atitude popular e rever conceitos de que a tendência será a revolução pela ética. Não é hora de retórica ou de discursos inflamados para agradar a plateia e sair lucrando politicamente com a situação. O momento pede para escutar, refletir e ter a sensibilidade de interpretar os acontecimentos.
É importante considerar que a mudança nas áreas de transporte, educação, saúde, segurança e habitação (cinco principais pontos de todos os planos de governos), o problema da corrupção e ainda a reforma política, devem ser urgentes e que a paciência dos cidadãos trabalhadores construtores desta nação está no limite e todos querem o resultado para ontem, demorou! Por isso é preciso arregaçar as mangas e articular com serenidade junto com os anseios populares as verdadeiras mudanças com ações concretas nas políticas públicas.
Paulo Cássio Pereira, é Professor de História na rede pública e grande companheiro de lutas.


quinta-feira, 27 de junho de 2013

A Voz das Ruas e Os Impasses do Lulismo

Como meus parcos leitores já perceberam, ando sem muito tempo para me dedicar ao Dissolvendo No Ar. 

No entanto, ao ler tantas e tantas análises sobre as manifestações que tomaram conta do País (e, aqui em Poços, tenho orgulho de ter participado de uma manifestação com mais de dez mil pessoas e que culminou com a redução da tarifa local do transporte público), decidi replicar essa que vai abaixo e retirei do Viomundo

Sintetizando a leitura dos professores Lincoln Secco  e Antonio David, autores da análise e fazendo justiça a Vladmimr Safatle, que  há algum tempo já vem dizendo a mesma coisa: ou a esquerda radicaliza o discurso  e a práxis ou veremos a direita sair triunfante das ruas jogando no lixo as conquistas dos últimos dez anos.

A Voz das Ruas e Os Impasses do Lulismo

por Antônio David e Lincoln Secco, especial para o Viomundo

Em Botucatu, próspera cidade do oeste paulista, a elite local foi às ruas para protestar no mesmo dia 20 de junho em que a esquerda foi expulsa da Avenida Paulista por militantes de direita. Um metalúrgico de 45 anos vestia uma camisa do Partido Comunista Revolucionário com a foice e o martelo. Dois jovens declarando-se do MPL e sem dizer os nomes mandaram aquele homem retirar sua camisa, pois aquela não era uma manifestação de partidos.

Por que dois jovens que nunca trabalharam e talvez nunca lutaram por nenhuma causa coletiva, podiam se dirigir naquela forma a um operário comunista? Em tempo: não existia até aquele momento MPL em Botucatu.
Os ataques físicos à esquerda partidária e ao próprio Movimento Passe Livre deixaram as esquerdas perplexas. É que há muito ela se sentia dona das ruas. Por mais que repudiemos tais ataques, é preciso dizer que não são manifestos de intelectuais (embora importantes) e defesa do direito democrático de erguer qualquer bandeira que calarão os direitistas nas ruas.

Os militantes mais maduros lembram que em 1988, quando um grupo de carecas de direita tentou invadir um comício de primeiro de maio na Praça da Sé em São Paulo, eles foram violentamente reprimidos pela esquerda. Mesmo nas manifestações maiores era impensável a presença de alguém com símbolos de direita nas ruas. A Direita não se manifestava assim ou o fazia em locais isolados.

Que a esquerda seja reduzida a isto seria lamentável. O primeiro passo para sair do impasse é compreender que há nas ruas uma classe média híbrida, mas claramente influenciada pela mídia conservadora. Suas opiniões são irracionais, embora manipuladas racionalmente pela imprensa.
A composição social da maioria dos manifestantes pelo menos até o fim de junho revelou uma rebelião da classe média com a participação um pouco maior de pobres em algumas regiões do país. Segundo a Folha de S. Paulo, 84% dos manifestantes paulistas do dia 17 de junho não tinham preferência partidária, 71% participaram pela primeira vez num protesto e 53% têm menos de 25 anos. Os estudantes eram 22% entre os manifestantes e pessoas com ensino superior 77%.

A composição social determina a agenda do movimento? A classe média é uma classe em trânsito. Como num ônibus, alguns querem entrar. Mas diferentemente de um ônibus lotado, muitos têm medo de descer. Só uma pequena parcela acredita mesmo que vai ascender rapidamente à classe superior. Ora, uma classe em trânsito é uma classe em transe. Ela é capaz de unir programas opostos num mesmo movimento. Ela pode oscilar para a esquerda e a direita.

Nas manifestações de 2013 é possível que estivessem jovens da classe média tradicional com medo de descer e jovens beneficiários das melhorias sociais induzidas pelo Governo Lula. Estes querem “entrar no ônibus” porque suas expectativas subiram mais do que sua condição social.

O que as manifestações nas últimas duas semanas mostraram? Que havia uma demanda represada latente por radicalização na sociedade. Ou seja, por mais que se esforce e seja parcialmente bem-sucedido na estratégia de arbitragem de interesses, o governo cada vez menos conseguirá evitar a polarização de classe, que agora chegou às ruas.

Aqui é necessário fazer uma digressão. A classe trabalhadora brasileira não é um todo homogêneo. Possui frações. Além do proletariado fabril, cujo paradigma é o metalúrgico, há uma nova classe trabalhadora, predominantemente jovem, que ascendeu via ensino superior privado, que consome mais, tem maiores expectativas, mas não enxerga perspectivas de futuro no mercado de trabalho. Por isso, vive sob tensão. E as ruas mostraram que essa tensão pode ser canalizada tanto pela esquerda como pela direita.

Por outro lado, há uma outra fração da classe trabalhadora, muito superior em tamanho, que ainda vive em condições de pobreza e miséria, e que constitui a principal base social e eleitoral do lulismo. Segundo André Singer, essa fração quer mudanças, mas possui um traço conservador: rejeita a radicalização política, pois associa o tumulto social ao desemprego e à carestia. Para mantê-los a seu lado e favorecê-los, a estratégia dos governos Lula e Dilma consiste em evitar a radicalização. De fato, este setor tem sido beneficiado: a pobreza e a desigualdade estão caindo – o traço conservador está na lentidão do processo.

Mas há aqui um paradoxo. O governo tem razões para evitar a radicalização política: a radicalização suscitaria crises, instabilidade, fuga de capitais etc., o que tenderia a elevar o nível de desemprego e a afetar diretamente o subproletariado. Nessa situação, além do risco de ver bloqueado o processo (lento) de redução da pobreza, essa fração de classe provavelmente enxergaria na direita uma alternativa política; some-se a isso o fato de que hoje a classe média tradicional é, dentre todas as classes, aquela que está se sentido mais prejudicada e tem maior força de ânimo para ir às ruas manifestar seu descontentamento com pitadas de protofascismo, como já ocorreu outrora na história do Brasil.

Porém, na medida em que viabiliza a ascensão social dos de baixo, a estratégia precisa viabilizar a organização e a mobilização da nova classe trabalhadora, caso contrário essa fração de classe poderá optar por alternativas conservadoras – e a explosão que houve agora o comprova. Se a nova classe trabalhadora pender para a direita, não se trata de perder apenas o governo nas urnas. É o processo em curso de combate à pobreza e à desigualdade que será bloqueado.

Dito isso, o impasse da estratégia do lulismo pode ser colocado nestes termos: de um lado, é necessário evitar a radicalização, pois sua base social rejeita a radicalização; de outro, é necessário preparar-se para a radicalização, pois, na medida em que essa base social ascende, a radicalização torna-se inevitável. Mas como preparar-se para a radicalização, senão através da organização, mobilização e luta? A estratégia do lulismo só poderá viabilizar-se se tiver força para superar-se, ultrapassar o paradoxo inscrito nela mesma.

A radicalização ensaiada em 2005 não teve eco nas ruas, só nas redes virtuais. Hoje, tem apoio de massas e aprovação de uma parte imensa dos expectadores. A presidenta Dilma Rousseff parece ter feito dois movimentos ousados. O primeiro é legitimar nas manifestações os interlocutores de esquerda: o MPL, o qual de fato já foi ultrapassado pelas ruas, e o MTST. O segundo movimento da presidenta foi jogar as manifestações contra o Congresso e este já acusou o golpe e chamou a proposta de Constituinte exclusiva de autoritária.

Mais do que bom ou ruim, estamos diante de uma janela histórica. Cabe a esquerda aproveitá-la. Sobretudo ao PT. O problema é que há muito tempo não faz parte da sua estratégia mobilizar a sociedade, pois o lulismo se baseia na acomodação e não no conflito. Voltamos, assim, ao paradoxo. Saberá o PT identificar e assumir a inevitável necessidade de radicalização inscrita em sua própria estratégia de não radicalização?

Lincoln Secco é Professor de História Contemporânea na USP; Antonio David é Pós Graduando em Filosofia na USP