quinta-feira, 14 de janeiro de 2016

TRANSPORTE PÚBLICO EM POÇOS - NÚMEROS, APENAS NÚMEROS


Os maiores prejudicados com o aumento da tarifa do transporte público de R$3,00 para R$3,30 (10%) são seus usuários, na imensa maioria trabalhadores assalariados. 

Num exemplo simples: se o trabalhador “A” recebe um salário mínimo e lhe é descontado 6%  referente ao Vale Transporte, em 2015 esse percentual representava R$47,28, já ao longo de 2016 com o aumento da tarifa do transporte público lhe será descontado R$52,80 por mês. A diferença anual chegará a R$66,24 o suficiente para comprar aproximadamente 13 kg de feijão ou 30 kg de arroz.

Agora vejamos outro exemplo. Imaginando que o trabalhador “A” tenha uma família, esposa e dois filhos maiores de cinco anos. Se ele quiser num  domingo aproveitar com sua família de algum dos poucos espaços públicos destinados ao lazer e para isso precisar se deslocar utilizando duas linhas do transporte público, ele desembolsará  R$26,30. Somadas os valores desse “passeio” mais o que é descontado em folha chega-se a bagatela de R$79,10 ou 8,98% do seu salário. Isso se o trabalhador “A” permitir a si e a sua família apenas um final de semana com lazer fora de casa. Isso também se durante todo o mês nem ele e nem sua família precisarem utilizar o transporte público para qualquer outra eventualidade como consultas médicas ou mesmo pagamento de outras tarifas públicas como água, luz, IPTU – lembrando que a maioria dos bairros da periferia de Poços não contam com postos aptos a receber essas tarifas. 

Pensemos noutro exemplo, mais drástico. O trabalhador “B” recebe dois salários mínimos (R$1760,00, valor considerado razoável para os padrões poços-caldenses). 

No entanto o trabalhador “B” também possui dois filhos, ambos cursam o Ensino Médio e no bairro onde moram só possuí escolas voltadas para o Ensino Fundamental. Nosso herói – nesse caso não se trata de eufemismo – gastará por dia com transporte público para seus filhos R$6,60. Por semana R$33,00. Por mês considerando vinte dias letivos R$132,00. Mas os gastos da família com o transporte público não param por aí. Uma vez por semana a esposa de nosso herói precisa se deslocar até a região central da cidade para diversos afazeres – buscar medicamentos que só são distribuídos na farmácia central; fazer o supermercado ou feira; pagar contas de água, luz IPTU; participar de reuniões na escola dos filhos; etc. O trabalhador “B” também gosta de passear com sua família e o faz uma vez por mês. Além disso, participam num domingo por mês do almoço de família promovido na casa dos pais de nosso herói. Os jovens filhos do casal também gostam de se encontrar com os amigos e pelo menos uma vez por mês se deslocam até bairros mais distantes para revê-los. Somados todos os gastos de nosso herói só com passagens chegamos a R$330,00 ou 18,74% do seu salário bruto (lembrando que sobre o salário incide outros descontos como o INSS e a contribuição sindical). 

Resta claro que o transporte público tem grande impacto nas finanças familiares. Mas temos outras reflexões sempre utilizando o IPCA (Índice de Preços ao Consumidor Amplo). Em 2013 a tarifa em Poços custava R$2,60 e a inflação acumulada naquele ano foi 5,91%. No entanto, o aumento da passagem foi de 7,69% indo a R$2,80. Em 2014 a inflação foi de 6,41 e a passagem saltou para R$3,00, com um aumento de 7%, portanto, e novamente, acima da inflação. Já em 2015 a inflação chegou a 10,67% e aumento foi de 10%, pela primeira vez nos últimos três anos pouco abaixo da inflação. 

Voltando um pouco no passado, porém não tão distante, em janeiro de 2010 os poços-caldenses pagavam R$2,00 na tarifa do transporte público. A inflação acumulada de lá pra cá foi de 48,9%. Se reajustarmos pelo IPCA a tarifa chegará a R$2,98. Ou seja, por esses cálculos a tarifa deveria estar 0,32 centavos mais barata. 

Mas ainda nem chegamos ao pior. Em dezembro de 2014 o prefeito Eloísio do Carmo Lourenço enviou à Câmara projeto de lei reduzindo a alíquota do ISS (Imposto Sobre Serviços) da empresa concessionária do transporte público de 5% para 2%, ou seja, a empresa conseguiu o que nenhum outro contribuinte conseguiu ultimamente, baixar em 60% um dos impostos que paga. 

Ao que tudo indica o cidadão comum de Poços, o trabalhador, aquele que não tem alternativa a não ser usar o transporte público e que teve aumento de 30,36% em sua conta de luz e 3,65% em seu IPTU ao longo do último ano, terá que dormir sabendo que paga cada vez mais caro também na passagem de ônibus enquanto a empresa concessionária, ao contrário de todos os cidadãos comuns, paga menos impostos.

quarta-feira, 6 de janeiro de 2016

Educafro: retrospectiva 2015



Por Ana Paula Ferreira

O curso pré-vestibular comunitário de educação para a camada popular e afrodescendentes – Educafro – está no município de Poços de Caldas há mais de 10 anos e esse ano de 2015 continuou seu histórico de luta. 

Educafro existe porque o Ensino Superior embora com vários avanços ainda é um espaço de poucos. Por isso, a Educafro persiste para possibilitar que estudantes de escolas públicas tenham mais condições conceituais para se inserirem nas faculdades públicas ou privadas. Porém, é importante frisar que a Educafro não se faz apenas como cursinho pré-vestibular. É antes de tudo um movimento social.

O grande ranço que separa os que passam no Enem e os que não têm nota suficiente para cursar o Ensino Superior é um reflexo de um abandono da escola pública e em contrapartida de uma desigualdade de renda absurda que torna possível que apenas a elite se alimente do saber historicamente construído e tenha mais oportunidades de se servir dos meios universitários mais conceituados. É nesse cenário que a Educafro se inscreve: se por um lado busca contribuir para inserção da classe trabalhadora enquanto estudantes universitários, por outro questiona esse modelo econômico que transforma a educação como moeda de troca.

Por isso, além das aulas convencionais, há a aula de Cultura e Cidadania. Por isso que no decorrer do ano participa de inúmeras ações que demonstram a indignação com os problemas sociais. Esse ano de 2015 não foi diferente.

Começamos em março em parceria com o Instituto Moreira Salles e com o grupo que luta pela igualdade de gênero “Moça Você é Machista” para apresentação de um documentário e discussão a respeito do tema aborto. Longe de uma abordagem moralista, religiosa e fundamentalista, buscou-se um olhar não tão divulgado pela grande mídia: a questão saúde pública ao se pensar em milhares de mulheres que anualmente morrem vítimas de abortos clandestinos e de uma sociedade machista e patriarcal.

No dia 1° de maio fizemos uma panfletagem e conversa com os trabalhadores sobre a PL 4330, que roga sobre a regularização das terceirizações do trabalho. No fim do mês, em parceria com a UEMG, realizamos o I Seminário da Mulher Negra com a problemática da desigualdade de gênero e os impactos ainda maiores quando se trata da mulher negra, maior vítima de abuso sexual, desemprego e subempregos; inferiorizada por uma sociedade de consumo que deprecia sua pele, seu cabelo, sua cultura. 

Em parceria com a OAB (Ordem dos Advogados do Brasil) participamos de arrecadações de produtos de higiene e livros para as detentas da cadeia de Poços de Caldas, que se encontram em situação de carência em relação a esses produtos.

Participamos junto com outros grupos da Marcha contra a Intolerância Religiosa, Contra o Genocídio do Povo Negro e Contra a Violência em Relação à Mulher. Realizamos o encontro entre núcleos da Educafro de Minas Gerais que teve o privilégio de receber Frei David, fundador da Educafro e uma liderança de destaque nacional em relação à igualdade racial.

Em setembro, em parceria com o Coletivo de Educação, organizamos a palestra do professor Carlos Rodrigues Brandão, que fez uma fala sobre educação popular e Paulo Freire no espaço cultural da Urca para mais de 500 pessoas. 

Enfim, nossa luta foi em diversas frentes, em relação aos grupos mais vulneráveis, o negro, a mulher, a presidiária, o trabalhador, buscando superar o discurso blablazante e a ação vazia, desconectada de reflexões profundas, apontando para uma tentativa de se fazer a práxis, entre o estudo e a prática, a teoria e o agir sobre o mundo, aproveitando-se do saber como um processo de denúncia e de grito.

Continuemos na luta em 2016!

Ana Paula Ferreira,coordenadora do Educafro Poços. 

segunda-feira, 31 de agosto de 2015

Precisamos dos dois poderes

Por Tiago Mafra

Quais os limites das transformações sociais possíveis dentro de um modelo democrático atrelado ao modo de produção capitalista? Sem dúvida alguma o Brasil consolidou-se como uma prova cabal de que há uma grande margem de atuação na busca pela redução das desigualdades, agindo dentro da ordem vigente.

Nesse cenário, um dos diversos fatores que fixa a profundidade das transformações operadas é o PODER. Digo aqui não o poder institucional, mas aquele capaz de congregar os interesses dos diversos atores sociais, em especial os movimentos populares, que dão o poder real para além de nomeações, cargos ou instituições.

O poder pautado na base real, popular, com pé no mesmo chão em que pisa o trabalhador, coloca em marcha a participação popular e acaba por evidenciar os distintos interesses de classe. Força ainda, o debate público, traz os movimentos organizados para o cenário e obriga uma disputa constante pela sociedade.

Foi esse poder real que ajudou a eleger o primeiro operário presidente, a primeira mulher presidenta e o primeiro prefeito negro de Poços de Caldas.

A realidade conservadora e suas regras, inegavelmente nos impõem adequações, muitas vezes atrasando o programa de avanços sociais; outras vezes obriga mudanças táticas, forçando adequações que deveriam ser momentâneas.

O incômodo é quando a adequação, que deveria ser pontual, converte-se em regra. É uma certa “banalização da adequação”, uma governabilidade elevada à divindade, que cumpriu nos último anos, muito bem diga-se de passagem, o papel de substituir o poder real, autêntico, com base popular, unicamente pelo poder formal, baseado nas regras vigentes, vazio de povo.

A trelado à essa substituição vieram a reboque os arranjos escusos, as redes de troca de favores e influências, a confusão entre o público e o privado e uma relativização assustadora dos princípios que nos regeram outrora; não há uma “guerra santa” em voga. A luta de classes é evidente, mas não dicotomicamente resumida a governo e oposição como seria mais fácil tentar aceitar. Numa sociedade globalizada, sob influência de uma mídia conservadora e sempre sob pressão das disputas geopolíticas, uma miríade de variáveis nos impede a imprecisão da ramificação binária.

O poder real, popular, atrelado ao formal, das estruturas dominantes, permitiu ao país um governo que aumentou o salário mínimo em 70%, propiciou ensino superior e moradia ao povo, ampliou investimentos em saúde e educação, retomou o planejamento e o combate à defasagem estrutural, enfrentou a fome e a miséria distribuindo renda e gerando emprego, estabeleceu uma política externa soberana e respeitável.

A chamada “revolução democrática” é a maior transformação da história do Brasil. E queremos mais. Revoluções não param. E não há pecado em querer mais, ao menos para os que não compreendem os partidos e governos como profissão de fé. Não os são. Fujamos de axiomas. Há ainda estruturas a modificar, há desigualdades a combater, há um sistema a destruir, relações produtivas a superar. Transformações que só virão com base popular, participação consciente, viva.

É um sentimento de muitos, uma gana por mais. Uns veem como crítica pela crítica. Outros como oportunismo.  Outros tripudiam os “cricris” com a alcunha de “esquerda rivotril”.

Talvez precisemos mesmo de rivotril: contra a ansiedade frente à inércia do poder formal; contra a depressão de saber que tanto mais pode ser feito, mas que depende da decisão de ir além de onde estamos; decisão que a maioria de nossos representantes formais não parece estar propensa a tomar.

A história não para, a luta de classes também não. Tarso Genro afirmou que “ou nos renovamos, ou morremos”, nos mediocrizamos de vez como disse Boff. Trabalho para que caminhemos pela primeira opção, da renovação, para que não fique apenas no campo das possibilidades nosso potencial de vanguarda do período popular da história.

Tiago Mafra é professor de Geografia da rede municipal de ensino de Poços de Caldas e membro do pré-vestibular comunitário Educafro.


sábado, 22 de agosto de 2015

À noite todos os gatos são pardos

Uma rápida passeada pelas redes sociais e logo noto que muitos daqueles que até anteontem julgavam como tresloucadas as ações da Operação Lava Jato, agora estão eufóricos e se regozijando com as denúncias contra Eduardo Cunha.

Todavia, essas denúncias foram feitas pela mesmíssima Operação Lava Jato tão demonizada por aqueles que consideram injustas e perseguição política, talvez até parte de um golpe, as denúncias e a subsequente prisão, por exemplo,  do ex-ministro José Dirceu e do ex-tesoureiro do Partido dos Trabalhadores João Vaccari Neto. 

Oras, os mesmos que reclamam da seletividade da mídia oligopolizada quando esta trata dos famosos, e já quase enfadonhos,  escândalos de corrupção  – e nisso têm toda a razão – por parecerem  ser sempre culpa de um único partido,  no caso o PT, e omitem casos semelhantes ocorridos nas fileiras do PSDB,  são os mesmos que agora utilizam do subterfúgio da seletividade para julgar quem meteu e quem não meteu a mão na cumbuca da Petrobras.

Esquecem-se eles que se  o desprezível  Eduardo Cunha foi um dos muitos a se beneficiar de dinheiro retirado da Petrobras – uma estatal e, portanto, detentora de recursos públicos – isso ocorreu segundo as denúncias do procurador-geral da República em período recente,  período em que o PT já estava a frente do governo federal.

Pré-julgar Eduardo Cunha – de longe o pior presidente que um dos poderes da República teve desde a redemocratização e porta-voz  do que há de mais conservador e muitas vezes reacionário em nossa sociedade – se esquecendo que no fundo ele faz parte do mesmo esquema de corrupção que encharcou muitos “companheiros” é duma hipocrisia tosca que nem se dá ao trabalho de ser minimamente sofisticada. 

Pré-julgar Eduardo Cunha –  um sujeito que não merece respeito algum por quem baseia a vida em valores éticos e enxerga a Democracia como um bem a ser defendido todos os dias – se esquecendo que ele “apenas” soube  se aproveitar das benesses que a Petrobras dava aos políticos “aliados”, é querer tapar o astro-rei com a peneira enquanto chama todos os  brasileiros de idiotas.

Na mesma lama que chafurda Eduardo Cunha, também estão Fernando Collor – será que o ex-presidente é merecedor da solidariedade dos novos “companheiros”? –  José Dirceu,  João Vaccari Neto e muitos outros considerados pelos neopetistas e petistas chapa-branca  heróis do povo brasileiro.

É fato que a Operação Lava Jato tem tido arroubos e excessos em quantidade preocupante e igualmente é fato que um juiz de primeira instância tem se portado como celebridade enquanto veste a capa de paladino da Justiça. Porém, não podemos jogar fora o bebê junto com a água do banho.  Os  efeitos que a Lava Jato pode  ter ao desvendar uma teia de corrupção que até então nos parecia invisível, ainda não são mensuráveis.

Quanto aos neopetistas e  petistas chapa-branca, no fundo dá até pra entender sua seletividade, afinal,  costumam pensar com o estômago e não com a cabeça. 

quinta-feira, 30 de julho de 2015

UM OLHO DE CADA COR

Nessas férias de julho passeei muito com minha filha Isabela. A programação de Julho da cidade estava repleta de atrações que tornavam as férias muito mais ricas e divertidas para turistas e para os cidadãos poçoscaldenses que conseguissem se deslocar até o centro, tendo em vista que a maioria das atrações eram na praça Pedro Sanches ou na Urca.

Mas, quero chamar a atenção na verdade é para o que aconteceu atrás do museu. Três artistas locais apresentariam as lendas da cidade baseados no livro da museológa Nilza Megale e assim que eu e minha filha chegamos já vimos tudo preparado: o local dos instrumentos, o pano de retalhos onde as crianças assistiriam, as cadeiras ao fundo para os adultos.

Isabela, sem timidez nenhuma foi sentar-se junto às outras crianças que estavam à frente. Eram crianças extremamente bem vestidas que conversavam sobre seus “colégios”. Assim que ela chegou, com seus olhinhos um da cor azul e outro da cor preta, as crianças ignoraram sua entrada no grupo, por não ignorarem a diferença da cor das pupilas. Uma delas passou a conjecturar o motivo, falando as demais com cara de desprezo que era porque a Isabela tinha machucado o olho e que não enxergava e várias outras coisas que nem escutei. As demais olharam a Isabela de cima em baixo e voltaram a olhar a narradora da história preconceituosa.

Isabela simplesmente saiu de perto, me pediu um papel e canetas, voltou a sentar no pano, um pouco mais longe das meninas, e passou a desenhar suas princesas e seus castelos. Mostrava suas produções entre um sorriso e outro.

Eu enquanto mãe observei como a Isabela lidava com a situação. Sempre a elogiamos muito e lhe falamos que era rara e por isso é bela e depois conversando com ela expliquei que tem criança que nunca viu olhos bonitos que nem o dela e perguntei se ela sabia que era linda e ela disse “sou maravilhosa”.


Entendo que por ser diferente chame a atenção, mas foi a primeira vez que vi um gesto de rejeição. Geralmente as pessoas ou crianças comentam, perguntam, mas não excluem e o que leva a crer que tal gesto é mais comum entre aqueles que ocupam a classe dominante, a julgar pela conversa das meninas sobre “colégio” e as roupas que usavam.

Daí minha reflexão enquanto educadora foi em outro sentido... como são esses colégios? Como são organizados? Estão prontos para lidarem com a diferença?

Compreendo os vários problemas da escola pública como professores mal remunerados, falta excessiva dos profissionais em educação, salas superlotadas, trabalho muitas vezes superficial dos conteúdos, entendimento do aluno como número no IDEB... Entretanto, por mais problemas que haja uma coisa é certa: a escola pública está mais preparada a trabalhar democraticamente do que a escola privada.

Quem aceita as crianças independentemente se podem pagar o ensino? Quem contrata cuidadores para as crianças com necessidade especial (no caso da realidade em Poços de Caldas)? Quem não vem com uma apostila pronta pra ser executada e tem a grande possibilidade de elaborar seu próprio currículo junto à comunidade? Quem serve a merenda igual e de qualidade para todos os alunos? Quem tem a condição de agregar no mesmo espaço crianças e adolescentes de diferentes religiões, etnias, culturas?

A escola pública também tem um olho de cada cor. Inclui negros e brancos, evangélicos e umbandistas, classe média e camada popular, crianças com necessidades e crianças com altas habilidades. Enquanto escola que sabe de sua riqueza por não ser homogênea, a escola pública só tem a ganhar em democracia, em tolerância, em respeito pela diversidade, em busca de uma sociedade que não olhe os olhos, mas o que está por detrás deles... Mas, pra isso, a escola pública e todos que usufruem dela, professores, gestores, comunidade escolar, políticos, precisam aceitar esse diferencial riquíssimo que a escola pública tem, de modo que os grupos atendidos não sejam mera matrícula de pertencimento, mas uma inclusão de fato de suas vivências e culturas, pois ao se marginalizar o conhecimento do aluno a escola pública abandonará seu potencial democrático para se assemelhar a escola privada que homogeneíza o currículo e ao fazer isso homogeneíza pessoas.

Ana Paula Ferreira, professora da rede Municipal e coordenadora pedagógica do Educafro Poços de Caldas.



quarta-feira, 27 de maio de 2015

DERROTA DE EDUARDO CUNHA, VITÓRIA DA SOCIEDADE

Há de se registrar que nossos nobres e probos deputados federais não agiram pensando apenas nos valores democráticos ou no futuro da sociedade brasileira. Tampouco tiverem o desprendimento que se espera de cidadãos que se colocam a disposição da sociedade e do povo.

Muito pelo contrário, retirando as exceções de praxe, a maioria agiu de forma bastante individualista pensando única e exclusivamente no próprio umbigo. Afinal, manter as atuais regras é, no caso dos deputados, manter-se na zona de conforto. Mudar as regras do jogo poderia jogá-los numa área escura onde o faro de sobrevivência lhes aconselhava ser melhor não arriscar tanto.

Foi justamente esse instinto de sobrevivência que levou nossos deputados a votarem contra o distritão e na sequência contra a oficialização do financiamento privado.

Quantos dos atuais deputados se elegeriam caso fosse implantado o distritão? Quantos conseguiriam alancar recursos cada vez maiores numa disputa cada vez mais desigual caso fosse oficializado o financiamento privado de campanhas?

Porém, mesmo por vias tortas (diria eu basante tortas) o autoritarismo e a prepotência de Eduardo Cunha foram derrotados. A manutenção do atual sistema de eleição para os legislativos e o do atual modelo de financiamento eleitoral nem de longe representam o que a sociedade quer e necessita, mas são um mal bem menor se comparados as aberrações que seriam defendidas por Cunha e seus asseclas.

Outro derrotado é o todo-poderoso ministro do STF Gilmar Mendes. Com a derrota da proposta de Cunha de oficializar o financiamento privado, sobe a pressão para que Mendes devolva o processo no qual o STF já estava prestes a decidir sobre a inconstitucionalidade desse tipo de financiamento de campanha.

Uma coisa é certa. O Brasil amanheceu hoje menos pior do que amanheceria se Cunha tivesse logrado mais um êxito. Na verdade cada derrota de Cunha é um retrocesso a menos para o Brasil.

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2015

Breve leitura histórica, política e trabalhista

Por Ana Paula Ferreira

É correto avaliarmos que a desvalorização docente não é de agora. Sabe-se que foram anos sem percentual significativo de aumento e inclusive gestões em que nem o repasse inflacionário foi coberto.

Muitos culpabilizam o sindicato e por mais que se deva tecer as críticas, fragilizá-lo não é a melhor opção uma vez que o patronato se utiliza disso para reforçar sua tirania sobre os trabalhadores. A história mostra isso! Como o desfalque do presidente do sindicato no período de 2004 a 2007, várias pessoas se desfiliaram, contribuindo para o esvaziamento das assembleias e manifestações sem grandes repercussões no ano de 2009 e 2010. Consequência: Neste período de 2009 a 2012 nem o ajuste salarial para acompanhamento da inflação tivemos.

Enquanto utópica e militante na educação estive presente nesse momento decadente do sindicato e participando também da Comissão para revisão do Estatuto do Magistério, iniciado em outubro de 2010, pensei que tal medida democrática poderia se traduzir em uma valorização dos profissionais da educação.

O engraçado é que tocaram no assunto da revisão justo numa época em que a prefeitura mobilizava esforços para que os funcionários públicos aceitassem o regime estatutário. Não houve a concordância de troca de regime trabalhista e também não houve qualquer devolutiva do texto final elaborado pela Comissão como produto de dois anos de reuniões. O engavetamento foi uma nítida indiferença aos trabalhadores da educação.

Mas o cenário era outro! O sindicato voltava a se fortalecer no ano de 2011 sob uma ameaça do cancelamento do concurso 2008 em que foi possível o ingresso de centenas pessoas no setor público. O medo de perder seus direitos trabalhistas motivou que 64 servidores se filiassem no sindicato e buscassem apoio jurídico.

O sindicato não só tinha mais filiados como também uma maior participação, diante de posturas ousadas e transparentes, escancarando em plena campanha política municipal no ano de 2012, out doors que denunciavam o descaso da administração pública (cujo prefeito na época era candidato) em relação aos funcionários públicos.
O estudo de história não serve para mero memorialismo. A história nos conta as raízes daquilo que é atual e nos permite visitar erros passados para se evitar inclusive erros similares no presente.

Num passado não tão distante os funcionários públicos negaram o regime estatutário. A nova administração contratou uma empresa por um valor abusivo para fazer um novo documento e ouvir de novo um “não” dos trabalhadores, uma vez que o ganho salarial real nem é mencionado.

A administração anterior fez uso de uma comissão justificando a horizontalidade para tratar a valorização docente, o que é ético, plural, democrático e plausível de louvor, se não fosse o fato que ambas administrações engavetarem as propostas advindas de numerosos encontros, demonstrando um enorme desapreço aqueles que se reuniram em calorosas discussões e em relação aqueles que esperavam a materialização das propostas.

Através do exposto, a imagem do atual prefeito desgasta-se incluindo aí o não cumprimento da Lei do Piso para os professores, direito esse de ter 1/3 da sua carga horária sem alunos, para realização de planejamento, estudo e avaliação. Nem menciono o direito de um salário de R$ 1917,78, pois isso caberia em outra apreciação, mas o que se nota é uma incoerência com o nome do partido, incoerência com as promessas de campanha e falta de leitura de uma história recente.

O ano de 2016 terá eleições municipais novamente. Que o prefeito reflita sobre a trajetória de seu antecessor político em relação aos direitos trabalhistas. Há um curto espaço de tempo para um funcionalismo tão descrente em mudanças profícuas e por isso que a valorização do trabalhador em educação deve ser pauta urgente, pois se a finalidade é a reeleição que lembre a voz de Elis Regina cantando “Cai um rei de ouro, cai um rei de espada, cai um rei de paus, cai num fica nada”.


Ana Paula Ferreira é companheira de lutas populares, Professora da rede pública de Poços de Caldas e coordenadora do Educafro.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2015

Manifestantes cobram fiscalização do transporte público

Por Tiago Mafra 

No último sábado (07) o Levante Popular da Juventude, juntamente com o Educafro (Curso Pré-Vestibular Comunitário) e a UMES (União Municipal dos estudantes Secundarista), realizaram um ato público na esquina da Rua Assis Figueiredo com a Rua Prefeito Chagas para debater a transparência no transporte público sob concessão em Poços de Caldas.

Cerca 70 pessoas participaram de um debate aberto, expondo as dificuldades referentes ao transporte coletivo no município, bem como fazendo um histórico das reivindicações envolvendo o setor. Uma das preocupações é a dificuldade de acompanhamento e obtenção de transparência no tocante ao serviço.

Para Danilo Santos, representante do Levante Popular, “É preciso melhorar a forma de fiscalizar a empresa prestadora de serviços, uma vez que ela mesma apresenta os dados que embasam as requisições de aumento da tarifa”.

Após o debate, os manifestantes se dividiram em vários pontos do centro da cidade, com intuito de coletar assinaturas que serão entregues à Câmara Municipal requisitando uma audiência para tratar da criação de um Conselho Municipal de Transporte, que seria um mecanismo de participação popular na gestão e acompanhamento do serviço.

Em dezembro de 2014 a empresa que opera o serviço na cidade obteve redução de ISSQN de 5% para 2%, além de receber dois meses depois, acréscimo de R$ 0,20 na tarifa, operando com preço de R$ 3,00 a partir de domingo (08).

Tiago Mafra é companheiro de lutas populares aqui em Poços de Caldas, professor de geografia na rede pública municipal de ensino e coordenador do Educafro.