quarta-feira, 17 de novembro de 2010
Celeuma em torno de Alain Touraine
O octogenário intelectual, uma das principais autoridades europeias em estudos sobre os movimentos sociais na América Latina, declarou, dentre outras coisas, que o respeito internacional conquistado pelo Brasil é fruto tanto do esforço de Lula quanto do de FFHH – ressaltando que ambos têm responsabilidades idênticas nisso –, que Serra é “infinitamente” superior a Dilma no quesito experiência, sendo, portanto, uma opção muito melhor para governar o Brasil, e por último sugeriu ter medo de rompantes autoritários do futuro governo Dilma e segmentos do Partido dos Trabalhadores.
Obviamente a esquerda em coro desceu o cacete em Touraine e o acusou de ligações com FFHH – de quem, ao que me parece, Touraine é amigo pessoal ou coisa que o valha. No entanto não estamos falando de um dos “bocas de esgoto” alugados por Serra durante a recente e sórdida campanha presidencial. Nem se trata de algum neointegralista ou membro da Opus Dei, TFP ou congêneres. Touraine conhece bem o processo histórico da América Latina. Mais, diria que Touraine foi bastante honesto consigo mesmo em suas declarações, assim como também o é o historiador brasileiro Boris Fausto, outro intelectual que vê risco a democracia por conta dum terceiro mandato petista. (Só para lembrar, Boris Fausto nunca escondeu sua simpatia pelo PDSB, o que, no entanto, não o torna menor ou desqualifica totalmente suas ponderações).
Devemos tomar o máximo cuidado possível para não cair na tentação do maniqueísmo bucéfalo e acrítico. Simplesmente desqualificar o que o outro pensa e logo jogar-lhe a pecha de militar no partido A ou B não me parece a maneira mais sensata de levar adiante qualquer discussão. Na verdade ao agir assim não há vontade de se levar a discussão adiante, mas sim de interrompê-la simplesmente tentando desacreditar o outro, algo deveras difícil em se tratando de pessoas com o renome dum Alain Touraine ou dum Boris Fausto.
Um exemplo de como Touraine vê a sociedade e sua organização está nas páginas de Poderemos viver juntos? Iguais e diferentes (Ed. Vozes,1997), onde a idéia de democracia não se materializa unicamente no conjunto de garantias institucionais e formais, mas sim representa a luta dos sujeitos, na sua cultura e sua liberdade, contra a lógica dominadora dos sistemas sociais. Nessa concepção é importante que os sujeitos protejam sua memória e que possam combinar o pensamento racional, a liberdade pessoal e a identidade cultural. Dessa maneira, a democracia deve tratar de seguir dois caminhos: por um lado, criar espaços para a participação cada vez mais perceptíveis e, por outro lado, garantir o respeito às diferenças individuais e ao pluralismo.
Touraine exorta a necessidade que se impõe de uma sociedade plural onde a cultura e as escolhas individuais sejam respeitadas na construção do bem estar coletivo. Nisso meu pensamento vai ao encontro do exposto pelo sociólogo francês. E é justamente aí que vejo Touraine cometer equívocos ao analisar, ainda que de forma bastante rasa, o futuro governo Dilma.
Não tenho a pretensão de desacreditar ou desqualificar Alain Touraine ou Boris Fausto. Meus pontos de discordância com ambos reside no fato de eu não ver perigos iminentes a democracia brasileira por a partir de 2011 adentrarmos num terceiro mandato petista a frente do comando do Estado brasileiro. Tampouco via José Serra mais preparado ou experiente que Dilma Rousseff para presidir o país. E embaso minhas concepções em fatos empíricos muito simples: O acerto das políticas públicas promovidas pelo governo central nos últimos quase oito anos e o inicio dum processo de real participação popular nos assuntos públicos. Obviamente que as políticas públicas de larga escala necessitam ser ampliadas – e de forma mais rápida do que vem ocorrendo atualmente – enquanto a participação popular – o seu maior exemplo são as inúmeras conferências nacionais sobre os mais diversos temas realizadas nos últimos anos – precisam ser aprofundadas e tomar caráter para além do propositivo. Também é inimaginável para mim que José Serra e o PSDB sejam sujeitos capazes de aprimorar essas conquistas.
Ademais são justamente essas conquistas obtidas no governo Lula os pilares para uma sociedade mais justa e menos desigual. Uma sociedade mais democrática, por extensão o inverso da ameaça vista por Touraine e Fausto. Talvez eles não entendam que essas conquistas não são frutos de políticas populistas, antes são parte duma política que busca levar o Estado onde até então ele era omisso. Temas como o “controle social da mídia” são urgentes num país onde meia dúzia de famílias controlam os meios de comunicação, a fim justamente de democratizá-los, e não desejo de se impor a censura. A interloução com os movimentos sociais é algo natural para um partido que se propôs chegar ao poder respaldada exatamente pelas reivindicações desses movimentos, e não forma de cooptá-los.
A experiência do Partido dos Trabalhadores, uma agremiação político-partidário-institucional oriunda dos movimentos mais baixos duma sociedade com o grau de complexidade que a brasileira possui, é algo singular na História da América Latina e o apoio que esses movimentos sociais continuam a dar-lhe mesmo após oito de governo é algo incomum para o olhar europeu, por mais que ele esteja acostumado a olhar para a periferia do mundo.
terça-feira, 16 de novembro de 2010
Jornalismo ou tragicomédia??? Elitismo exposto ou fascismo guardado no armário???
Só pra refrescar a memória:
“a imprensa brasileira é conhecida internacionalmente por trazer regularmente notícias de fatos totalmente inventados, acusações que já destruíram a vida de outras pessoas”
Neue Zürcher Zeitung, Suíça, fevereiro de 2009
domingo, 14 de novembro de 2010
Música do Domingo – A queda (Lobão)
Curiosamente o título da música é homônimo a um livro que posso recomendar sem hesitar: “A Queda” de Albert Camus filosofo existencialista francês nascido na Argélia e brilhante escritor.
sexta-feira, 12 de novembro de 2010
Sobre o ENEM
Obviamente que o governo Lula e seus ministros da Educação – Cristovam Buarque, Tarso Genro e Fernando Haddad – deram ao ENEM um papel muito maior nos últimos anos, mas isso também fazia parte da proposta inicial de FFHH e Paulo Renato, que por inúmeros motivos (interesses) não avançaram nela.
O ENEM tal qual está apresentado hoje significa não apenas um avanço no sentido de abranger um número cada vez maior de estudantes e instituições que o aceitam como parte do processo de seleção. Antes, o ENEM dá a Educação um caráter de política pública social séria e voltada para a diminuição da desigualdade social. Entretanto, uma política mais clara, e nacionalizada é importante ressaltar isso, de acesso a Universidade Pública ou de obtenção de bolsas, acaba inevitavelmente se chocando com interesses de grupos econômica e politicamente organizados.
Há quanto tempo ouvimos falar da famosa “indústria” dos cursinhos pré-vestibulares? Uma mina de dinheiro que passou a ver seus interesses baterem de frente com o Novo ENEM. É sintomático duma sociedade onde existe de fato um fosso social capaz de criar uma segregação secular e, pior, cujo fenômeno da segregação está na própria formação desta sociedade, a franca artilharia contra políticas públicas focalizadas na desconstrução dessa desigualdade. Na torpe visão elitista tanto ENEM quanto Cotas Raciais são crimes de lesa patrimônio perpetrados pelo Estado contra o status-quo.
Os problemas verificados na aplicação do ENEM nos dois últimos anos tomaram proporções dantescas nas páginas e imagens da mídia oligopolizada justamente por ela ser aquilo que Gramsci definiu como “Partido do Capital”. As falhas que houveram, e inegavelmente houveram, são incapazes de desqualificar todo o processo ou a proposta do exame. Essas falhas são inadmissíveis? De certo modo sim, uma vez que têm o potencial de prejudicar estudantes que se prepararam ao longo de todo o ano. Mesmo assim o percentual de estudantes prejudicados é ínfimo se considerarmos que foram cerca de 3,3 milhões de exames aplicados e somente dois mil apresentaram problemas.
Não obstante aos problemas ocorridos e às soluções propostas – uma delas seria a descentralização do ENEM, o que à primeira vista me parece deixar o processo mais vulneral a falhas e vazamentos, todavia não deixa de valer uma discussão mais aprofundada – como professor de escola pública e coordenador de curso pré-vestibular comunitário voltado a estudantes de baixa renda, enxergo como grande mérito do ENEM o fato de privilegiar o raciocínio à memorização de conteúdos. O que por sua vez permite ao ensino aplicado nas escolas ir além do preparo para enfrentar provas de uma ou outra universidade, tornando-se um instrumento mais justo e ao mesmo tempo menos excludente de acesso às universidades.
Ademais é importantíssimo frisar que o ENEM é fator de melhoria da qualidade do ensino médio e mecanismo de democratização do acesso à educação superior a milhares de jovens das escolas públicas. Isto acontece porque teve a ousadia de reconhecer que independentemente dos estudantes que tiveram acesso aos conteúdos programáticos dos vestibulares tradicionais, existe também o estudante intelectualmente apto a entrar numa universidade pública, mas que não teve acesso a estes conteúdos ao longo da vida escolar.
terça-feira, 9 de novembro de 2010
Guerra cambial à vista
A guerra financeira mundial
Os diferentes países tentam superar a sua crise aumentando as suas exportações, dada a queda da procura interna, mas os mercados estrangeiros estão estagnados, à exceção dos emergentes BRIC. O sistema financeiro internacional é baseado na supremacia econômica e na posição privilegiada do dólar americano como moeda mundial de comércio e reserva. E essa supremacia desmoronou-se.
Por Fernando Moreno Bernal, da ATTAC Andaluzia, via Revista Fórum
[08 de novembro de 2010 - 11h19]
No dia 22 de outubro de 2010, com a presença de ministros das Finanças, governadores de Bancos Centrais e chefes das principais instituições internacionais, teve início, em Gyeongju (Coreia do Sul), a reunião preparatória da cúpula de chefes de Estado e de governo do G20, que vai se realizar em 11 e 12 de novembro em Seul. De acordo com o que foi dito, o objetivo é parar com a guerra de divisas desencadeada no verão e tentar aproximar as posições das economias emergentes e das ricas, para não pôr em risco a recuperação econômica.
Não participam nesta reunião nem o ministro da Fazenda, nem o presidente do Banco Central do Brasil. Para que, se os Estados Unidos não cedem? No último 4 de outubro, o Brasil aumentou o imposto aos especuladores da sua moeda, o real, de 2% para 4%, e um novo aumento foi anunciado para 6% a partir de 25 de outubro. A China, a Rússia, o Brasil e a Turquia já assinaram acordos para utilizar as suas próprias moedas à margem do dólar e do euro.
Vivemos o colapso do sistema de relações monetárias e comerciais multilaterais vigente, e o colapso também das probabilidades de ser criada uma coordenação multilateral para sair da crise do capitalismo financeiro. Os diferentes Estados-nação tentam superar a sua crise aumentando as suas exportações, dada a queda da procura interna, mas os mercados estrangeiros estão estagnados, à exceção dos emergentes BRIC (Brasil, Rússia, Índia e China) que crescem entre os 5% e os 9,6% da China. O sistema financeiro internacional é baseado na supremacia econômica e na posição privilegiada do dólar americano como moeda mundial de comércio e reserva. E essa supremacia desmoronou-se.
Em 2010, o sistema capitalista em crise agudiza as suas contradições, sem que esteja sequer no horizonte qualquer alternativa estratégica para o mesmo. Os processos lógicos e previsíveis levaram-no ao beco sem saída onde se move a economia-mundo deste sistema capitalista que agoniza. As operações de resgate da banca privada especuladora e os estímulos condenaram-nos ao endividamento fiscal, à dívida sem sustentação real e à falência dos Estados, que só os Estados Unidos podem evitar abusando do dólar como moeda internacional, mas agudizando com isso as tensões no sistema financeiro internacional. Ao suspender os incentivos, a queda vertiginosa do consumo e da produção aprofunda a crise social, devido ao desemprego, e a crise das prestações e serviços públicos que a acompanham. É uma luta de todos contra todos, combinada com um ataque geral em cada país contra os cidadãos, que são forçados a pagar com a redução dos salários diretos, com os aumentos da idade da reforma e com a perda de direitos do Estado social, denominadas “medidas de austeridade”, devido ao colapso da ordem econômica capitalista global.
As greves e conflitos sociais generalizados em todo o mundo estão apenas começando. Quebrando-se todas as alianças, o ano de 2010 está sendo o ano da solidão e da angústia para os Estados-nação. A desconfiança e a insegurança generalizam-se. Ninguém confia em ninguém. Todos se confrontam. A própria União Europeia já se deparou com grandes confrontos no seu seio, que puseram em perigo a sobrevivência da Zona Euro e que ainda podem chegar a fraturá-la. Os principais ataques aos países periféricos da Zona Euro provêm da Alemanha e da França e têm como objetivo debilitar o euro e melhorar as suas posições de países exportadores nesta batalha mundial comercial e de divisas.
Aqueles que contrapõem as medidas adotadas pelos Estados Unidos às da UE, esquecem-se da posição diferente em que se encontram as suas oligarquias. Todas elas favorecem os seus próprios especuladores, mas partindo de posições hegemônicas ou subalternas no ainda vigente sistema financeiro internacional.
Os planos de salvação da banca privada, após a explosão da bolha de 2008, inundaram o sistema de liquidez. Necessária, diziam, para que continuasse a fluir o crédito às empresas e às famílias. Não tendo utilizado estes fundos para nacionalizar consequentemente a banca e deixando-a agir sem qualquer controle, este excesso de liquidez fluiu não para a economia real e produtiva que cria emprego e satisfaz necessidades sociais, mas para a especulação internacional de divisas, aumentando as suas taxas de câmbio e prejudicando as exportações ao encarecê-las. Fluiu também para os títulos da dívida soberana dos Estados, criando crises artificiais para obter lucros substanciais com a sua especulação. Longe de ajudar a recuperação global, a “maré de liquidez” procedente do Federal Reserve e do Banco Central Europeu está causando o caos nos mercados de divisas e no sistema financeiro internacional.
O Federal Reserve dos Estados Unidos anunciou o início de outro plano de incentivos de cerca de um bilhão de dólares. Desde o início de setembro, o preço do ouro disparou, os investidores institucionais vendem dólares, baixando a sua cotação e melhorando a sua posição exportadora, e as restantes nações e divisas têm de adotar medidas tendentes que protejam as suas próprias economias. Especialmente os BRIC que, ao crescerem e oferecerem juros mais altos, atraem os fundos de investimento como refúgio.
Assim, o atual sistema financeiro internacional favorece a especulação e obriga os bancos centrais dos outros países a efetuar empréstimos aos Estados Unidos. Os especuladores obtêm lucros em dobro: por um lado da margem entre empréstimos a 0,25% ou 1% contraídos nos Estados Unidos ou na UE e os rendimentos dos títulos de dívida soberana dos países a quem concedem empréstimos; e, por outro, dos ganhos no mercado resultantes da revalorização da taxa de câmbio da divisa utilizada nos empréstimos.
O crescimento dos dólares nas reservas dos Bancos Centrais transfere para o resto do mundo o financiamento do déficit orçamental dos Estados Unidos, provocado maioritariamente pelas guerras do Iraque e do Afeganistão, pela multiplicação de bases militares por todo o mundo e pelos planos públicos para salvar os especuladores internacionais. Face à entrada massiva de dólares, todos os países se vêm obrigados a manipular a cotação das suas divisas como forma de autodefesa.
O sistema financeiro global está destruído. As possibilidades de ação são três: 1) reciclar os dólares entrados, comprando títulos de dívida dos EUA, coisa que está a fazer-se; 2) controlar os movimentos de capital, como fez a Malásia em 1998 e como Lula fez no Brasil, por via fiscal; 3) Evitar a utilização do dólar e do euro, como estão fazendo a China, a Rússia, o Brasil, a Turquia, a Índia e cada vez mais países.
Tanto a possibilidade 2 como a 3 vão na direção contrária à seguida até agora e levam ao fim do FMI, do Banco Mundial e da OMC.
É neste contexto que teve início a reunião de ministros e governadores do G20. O secretário norte-americano do Tesouro, Timothy Geithner abriu-a com uma comunicação, na linha do esboço preparado pela organização, que é um ataque aos BRIC e que já foi rejeitada por estes, pelo Japão e pela Austrália. Na segunda-feira, dia 18, a reunião preparatória entre o FMI e a China, em Xangai, terminou sem conferência de imprensa, com os seus principais dirigentes revelando a manutenção dos desacordos e dos confrontos verificados nas reuniões anuais do FMI e do Banco Mundial de 9 e 10 de outubro em Nova York.
A alternativa é clara: ou se apoia com bom senso e coerência a economia produtiva, normalizando o comércio internacional e regulando as finanças internacionais num sistema financeiro internacional que corresponda ao interesse partilhado por todos ou, pelo contrário, se criam e mantêm as oportunidades para os especuladores institucionais, beneficiando não mais de 200 mil pessoas em todo o mundo, e com o proveito exclusivo do complexo industrial-militar dos EUA e da Grã-Bretanha, mantendo o atual sistema financeiro com retoques que, na sua essência, nada mudam.
E é neste contexto que a ATTAC Espanha lança a sua Campanha por um Imposto sobre Transações Financeiras (ITF) JÁ. Porque existe uma saída na direção correta do “bem viver”, que passa por obrigar os que causaram a crise a pagá-la, por meio da aplicação de um imposto aos especuladores, tanto nas transações financeiras em divisas comuns, como internamente nos Estados-nação, e por fazer aflorar o dinheiro sujo dos paraísos fiscais.
A luta pela criação de um ITF é muito mais do que conseguir algumas receitas para financiar os Objetivos do Milênio (ODM). Tal como estão as coisas, os ODM são inatingíveis e ficarão cada vez mais distantes, tal como hoje o estão mais que em 2000. Os poucos êxitos foram conseguidos nos países do BRIC que deixaram de acatar as diretivas neoliberais.
Criar um ITF é lutar contra a especulação que destrói o emprego e o bem-estar dos cidadãos, razão pela qual tem de ser suficientemente elevado para impossibilitar esta especulação. Criar um ITF é defender o sistema democrático, que implica sair da crise colocando-nos na perspectiva de solucionar em primeiro lugar as necessidades das pessoas, o que exige necessariamente a regulação e o controlo do sistema financeiro especulador. Criar um ITF é apostar na saída da crise, porque o cenário possível sem ele é um ano de 2011 recessivo, de ruptura e de contração até ao esgotamento e ao cansaço final.
Tradução de Helena Pitta para o Esquerda.net. Original em http://www.attac.es/guerra-mundial-financiera-g20-y-el-itf-ya/. Foto por http://www.flickr.com/photos/squeakymarmot/.
segunda-feira, 8 de novembro de 2010
AUDIÊNCIA PÚBLICA
“Moradia Popular”
A Câmara Municipal de Poços de Caldas tem a honra de convidá-lo para
participar da AUDIÊNCIA PÚBLICA que irá discutir o tema “Moradia Popular –
Programas e Financiamentos do Governo Federal disponíveis para aquisição
de moradia de baixo custo”.
Data: 11 de novembro - quinta-feira
Horário: 19:00
Local: Câmara Municipal – Rua Junqueiras, 454
Inscrições para uso da palavra deverão ser feitas por escrito na Câmara Municipal ou pelo endereço eletrônico legislativa@camarapocos.mg.gov.br, até o dia 10/11/10, limitado a 10 expositores.
A Câmara Municipal quer ouvir você.
sexta-feira, 5 de novembro de 2010
E a esperança vence o medo. De novo!!!
Mais cedo conversando com a antropóloga Maria José de Souza, a Tita, falávamos sobre a importância simbólica da vitória de uma mulher, divorciada, ex-guerrilheira, pouco (ou nada) carismática, com fama de arrogante e representando um partido de esquerda. Algo muito simbólico para uma sociedade machista e latentemente conservadora. Some a isto a fato de ela suceder um governo liderado por um ex-metalurgico, nordestino retirante e que não fala inglês. É muito para o Brasil.
No domingo à noite enquanto comemorávamos mais uma vitória da esperança contra o medo, confessei a um amigo companheiro de lutas populares que três vitórias seguidas do Partido dos Trabalhadores no plano nacional era algo impensável há vinte e um anos atrás, quando eu com 14 anos de idade vi Lula ser derrotado por Collor na segunda campanha mais sórdida de nossa história republicana – a primeira, obviamente, foi essa de 2010.
Mas por que Dilma venceu? Ou, por que o Brasil mudou?
A resposta da segunda pergunta já responde à primeira. O Brasil mudou porque desde 1989 nossa sociedade experimenta um fenômeno no qual relevantes transformações, de forma ou outra, foram rapidamente assimiladas pela camada mais baixa. O país vive desde a eleição de Collor um período ímpar. Um período onde a democracia formal se fortaleceu a ponto de nos dar o alicerce a fim de aprofundar a democracia. Hoje somos obrigados a reconhecer a oportunidade, e também a responsabilidade, que temos de avançar rumo a uma democracia que deixa de ser meramente “formal” para ser aquilo que C. B. Mcpherson – dentre outros pensadores alinhados a esquerda anglo-saxônica – chama de democracia “substancial”. A democracia cujos poderes transpassam a esfera das instituições estatais e torna a sociedade civil organizada sua co-protagonista.
Bom, mas ainda não respondi o porquê desse fenômeno. O porquê é justamente o reconhecimento, por parte do grupo que governa o país desde 2003, da enorme desigualdade social sentida na carne por nós brasileiros – a ponto de Eric Hobsbawm ter nos alcunhado de “monumento” à desigualdade social – e a imediata implantação de políticas públicas capazes de reduzir essa desigualdade.
Em suma, o Estado passou a se fazer presente onde antes era omisso. E de certa forma de maneira eficaz – o mesmo “eficaz” que é tão caro a pensadores liberais como John Rawls ou seu discípulo brasileiro Bresser Pereira – e contínua.
Miro no exemplo da cidade onde moro há 13 anos. Poços de Caldas. Uma cidade conservadora e tradicionalista. Aqui José Serra venceu em ambos os turnos. Porém na região mais afastada e onde a presença do Estado se faz mais urgente, a Zona Sul, foi Dilma quem obteve êxito nos dois turnos. Coisa semelhante ocorreu em quase todos os municípios médios ou grandes do país onde Serra superou Dilma.
Não é à toa que nesta campanha presidencial vimos Dilma sobrepujar Serra nas periferias e Serra sobrepujar Dilma nos centros. A velha e démodé luta de classes se mostrou rediviva sob o slogan de “pobres contra ricos” e por mais que teimamos em sepultar Karl Marx, suas teses e conceitos voltam a nos assombrar. Talvez porque Marx nunca tenha morrido de fato como a direita sempre pregou.
São sintomas desse processo de transformação pelo qual a sociedade brasileira passa, por um lado, a redução da desigualdade social e o reconhecimento dos direitos positivos dos mais diversos movimentos sociais, e, por outro lado, o recrudescimento de um discurso conservador flertando constantemente com o fascismo. Exemplo desse recrudescimento é o soberbo ataque carregado de preconceito aos nordestinos ou o ódio destilado a Dilma, a Lula e ao PT pelo fato de o ProUni atender essencial e prioritariamente as camadas mais baixas –fato presenciado por mim na escola pública onde leciono.
Obviamente não acredito ser essa presença eficaz e contínua do Estado o meio final para de fato desenvolvermos uma democracia substancial, no entanto a mesma não tem condições de se desenvolver por si só. Além do mais realismo e um pouco de pragmatismo são fatores que se impõe dada a conjuntura atual e ao próprio dinamismo do sistema, uma vez que não se propõe uma ruptura, mas sim um processo de conquista ampla e legitima, e, espero eu, aprofundado permanentemente.
Por fim, não é que só agora esteja havendo uma divisão na sociedade brasileira entre ricos e pobres. Pelo contrário. Essa divisão sempre existiu. A diferença é que “nunca antes na história desse país” ela foi constatada e atacada pelo conjunto organizado de instituições políticas, jurídicas, administrativas e econômicas, ou seja, pelo próprio Estado burguês.
segunda-feira, 1 de novembro de 2010
The Independent: “A mulher mais poderosa do Mundo”
Pescado do Viomundo
Hugh O’Shaughnessy – The Independent
A mulher mais poderosa do mundo começará a andar com as próprias pernas no próximo fim de semana. Forte e vigorosa aos 63 anos, essa ex-líder da resistência a uma ditadura militar (que a torturou) se prepara para conquistar o seu lugar como Presidente do Brasil.
Como chefe de estado, a Presidente Dilma Rousseff seria mais poderosa que a Chanceler da Alemanha, Angela Merkel e que a Secretária de Estado dos EUA, Hillary Clinton: seu país enorme de 200 milhões de pessoas está comemorando seu novo tesouro petrolífero. A taxa de crescimento do Brasil, rivalizando com a China, é algo que a Europa e Washington podem apenas invejar.
Sua ampla vitória prevista para a próxima eleição presidencial será comemorada com encantamento por milhões. Marca a demolição final do “estado de segurança nacional”, um arranjo que os governos conservadores, nos EUA e na Europa já tomaram como seu melhor artifício para limitar a democracia e a reforma. Ele sustenta um status quo corrompido que mantém a imensa maioria na pobreza na América Latina, enquanto favorece seus amigos ricos.
A senhora Rousseff, filha de um imigrante búlgaro no Brasil e de sua esposa, professora primária, foi beneficiada por ser, de fato, a primeira ministra do imensamente popular Presidente Luiz Inácio Lula da Silva, ex-líder sindical. Mas com uma história de determinação e sucesso (que inclui ter se curado de um câncer linfático), essa companheira, mãe e avó será mulher por si mesma. As pesquisas mostram que ela construiu uma posição inexpugnável – de mais de 50%, comparado com menos de 30% – sobre o seu rival mais próximo, homem enfadonho de centro, chamado José Serra. Há pouca dúvida de que ela estará instalada no Palácio Presidencial Alvorada de Brasília, em janeiro.
Assim como o Presidente Jose Mujica do Uruguai, vizinho do Brasil, a senhora Rousseff não se constrange com um passado numa guerrilha urbana, que incluiu o combate a generais e um tempo na cadeia como prisioneira política.
Quando menina, na provinciana cidade de Belo Horizonte, ela diz que sonhava respectivamente em se tornar bailarina, bombeira e uma artista de trapézio. As freiras de sua escola levavam suas turmas para as áreas pobres para mostrá-las a grande desigualdade entre a minoria de classe média e a vasta maioria de pobres. Ela lembra que quando um menino pobre de olhos tristes chegou à porta da casa de sua família ela rasgou uma nota de dinheiro pela metade e dividiu com ele, sem saber que metade de uma nota não tinha valor.
Seu pai, Pedro, morreu quando ela tinha 14 anos, mas a essas alturas ele já tinha apresentado a Dilma os romances de Zola e Dostoiévski. Depois disso, ela e seus irmãos tiveram de batalhar duro com sua mãe para alcançar seus objetivos. Aos 16 anos ela estava na POLOP (Política Operária), um grupo organizado por fora do tradicional Partido Comunista Brasileiro que buscava trazer o socialismo para quem pouco sabia a seu respeito.
Os generais tomaram o poder em 1964 e instauraram um reino de terror para defender o que chamavam “segurança nacional”. Ela se juntou aos grupos radicais secretos que não viam nada de errado em pegar em armas para combater um regime militar ilegítimo. Além de agradarem aos ricos e esmagar sindicatos e classes baixas, os generais censuraram a imprensa, proibindo editores de deixarem espaços vazios nos jornais para mostrar onde as notícias tinham sido suprimidas.
A senhora Rousseff terminou na clandestina VAR-Palmares (Vanguarda Armada Revolucionária Palmares). Nos anos 60 e 70, os membros dessas organizações sequestravam diplomatas estrangeiros para resgatar prisioneiros: um embaixador dos EUA foi trocado por uma dúzia de prisioneiros políticos; um embaixador alemão foi trocado por 40 militantes; um representante suíço, trocado por 70. Eles também balearam torturadores especialistas estrangeiros enviados para treinar os esquadrões da morte dos generais. Embora diga que nunca usou armas, ela chegou a ser capturada e torturada pela polícia secreta na equivalente brasileira de Abu Ghraib, o presídio Tiradentes, em São Paulo. Ela recebeu uma sentença de 25 meses por “subversão” e foi libertada depois de três anos. Hoje ela confessa abertamente ter “querido mudar o mundo”.
Em 1973 ela se mudou para o próspero estado do sul, o Rio Grande do Sul, onde seu segundo marido, um advogado, estava terminando de cumprir sua pena como prisioneiro político (seu primeiro casamento com um jovem militante de esquerda, Claudio Galeno, não sobreviveu às tensões de duas pessoas na correria, em cidades diferentes). Ela voltou à universidade, começou a trabalhar para o governo do estado em 1975, e teve uma filha, Paula.
Em 1986 ela foi nomeada secretária de finanças da cidade de Porto Alegre, a capital do estado, onde seus talentos políticos começaram a florescer. Os anos 1990 foram anos de bons ventos para ela. Em 1993 ela foi nomeada secretária de minas e energia do estado, e impulsionou amplamente o aumento da produção de energia, assegurando que o estado enfrentasse o racionamento de energia de que o resto do país padeceu.
Ela fez mil quilômetros de novas linhas de energia elétrica, novas barragens e estações de energia térmica construídas, enquanto persuadia os cidadãos a desligarem as luzes sempre que pudessem. Sua estrela política começou a brilhar muito. Mas em 1994, depois de 24 anos juntos, ela se separou do Senhor Araújo, aparentemente de maneira amigável. Ao mesmo tempo ela se voltou à vida acadêmica e política, mas sua tentativa de concluir o doutorado em ciências sociais fracassou em 1998.
Em 2000 ela adquiriu seu espaço com Lula e seu Partido dos Trabalhadores, que se volta sucessivamente para a combinação de crescimento econômico com o ataque à pobreza. Os dois se deram bem imediatamente e ela se tornou sua primeira ministra de energia em 2003. Dois anos depois ele a tornou chefe da casa civil e desde então passou a apostar nela para a sua sucessão. Ela estava ao lado de Lula quando o Brasil encontrou uma vasta camada de petróleo, ajudando o líder que muitos da mídia européia e estadunidense denunciaram uma década atrás como um militante da extrema esquerda a retirar 24 milhões de brasileiros da pobreza. Lula estava com ela em abril do ano passado quando foi diagnosticada com um câncer linfático, uma condição declarada sob controle há um ano. Denúncias recentes de irregularidades financeiras entre membros de sua equipe quando estava no governo não parecem ter abalado a popularidade da candidata.
A Senhora Rousseff provavelmente convidará o Presidente Mujica do Uruguai para sua posse no Ano Novo. O Presidente Evo Morales, da Bolívia, o Presidente Hugo Chávez, da Venezuela e o Presidente Lugo, do Paraguai – outros líderes bem sucedidos da América do Sul que, como ela, têm sofrido ataques de campanhas impiedosas de degradação na mídia ocidental – certamente também estarão lá. Será uma celebração da decência política – e do feminismo.
Tradução: Katarina Peixoto