domingo, 29 de abril de 2012

sábado, 28 de abril de 2012

Enio Squeff -- O senador, a mídia e o 'grand finale' da ópera


As relações naturalmente promíscuas entre membros do Congresso e a contravenção penal, só são uma novidade por terem se desvelado na atual conjuntura. No mais, que tudo tenha acontecido com um moralista de plantão, tido pela grande imprensa como o mais honesto dos congressistas, não chega a ser um enredo para novela de mau gosto. Somerset Maugham no seu conto "A Chuva" põe um pastor a ser flagrado numa relação mais que escandalosa com uma prostituta. Nada que seja pior do que o conluio entre o senador Demóstenes Torres e o contraventor Carlinhos Cachoeira. É que os enredos de novelas e de óperas, quando minimamente coerentes, podem ser inferiores à realidade. A tragédia da ópera "Carmen", de Bizet, baseado no romance homônimo de Prosper Merimée, não é que o protagonista se junta a um bando de contraventores -contrabandistas - para seguir a sua amada - mas o fato, mais que corriqueiro, de que, ao se tornar bandido, acaba também como um assassino.


Não que os crimes que incluam políticos e contraventores estejam isentos de protagonizarem também mortes. O caso do prefeito Celso Daniel em Santo André prefigura a quantas mortes pode chegar o que, à primeira vista, seria um caso de corrupção, um "simples" caso de corrupção. A diferença para o episódio que gerou uma CPI parece residir na mediocridade de ambos os personagens do fato denunciado recentemente, ou, se quisermos, na sensaboria dos protagonistas.


Na galeria de personagens literários brasileiros do século XIX, a convivência com o jogo do bicho não chegava a machucar ninguém. Mas não havia também qualquer proibição à prática. A contravenção, modernamente, considerada que tal, põe em relevo a mesma questão que se coloca para o caso dos tóxicos: quem nasceu primeiro, a oferta ou a demanda: o ovo ou a galinha? Um dos exemplos emblemáticos de Machado Assis - dos poucos em que ele assume diretamente uma questão política - se dá na sua peça "O Quase Ministro". O título já diz tudo, inclusive sobre a ironia do escritor. Mas a trama em si fala muito pouco para os nossos tempos: o que avulta é a ambição humana - nada de conchavos, tendo como pano de fundo o poder econômico. 


É claro que isso existia. O milagre de o Brasil ter se tornado uma única nação, parece não ter obedecido à lógica da distância da metrópole, como ocorreu na América Latina de fala espanhola. Não são poucos os historiadores que defendem a anterioridade da data da nossa independência; o Brasil teria se tornado um país desligado de Portugal, não em 1822, quando Dom Pedro I institucionalizou o que, de fato, já tinha acontecido em 1808. Ao dar ao Brasil o status de reino, Dom João VI sabia que o resto seria uma questão de tempo para os ajustes, como, de qualquer modo, aconteceu. Mas na América espanhola as diferenças e a lonjura da metrópole se fizeram consoante os interesses econômicos dos países europeus. A Inglaterra prescindiu de perder tempo com as possíveis dissidências brasileiras: um rei submisso à Coroa Britânica, como foi àquelas alturas com a monarquia portuguesa, era tudo que a Inglaterra queria depois da derrota de Napoleão.


Nada disso deve ter obstado as burlas, as grandes jogadas financeiras. A história do Brasil tem seus detratores e muitos historiadores sérios: falta, porém, contar o que só nos está sendo revelado agora, após o período militar -do qual aliás, só sabemos o que é público e notório - as torturas, a covardia de muitos, a coragem de outros - mas e a corrupção? Qual o custo real da Transamazônica, da ponte Rio-Niterói, de Itaipu, ou dos aeroportos como Viracopos, construídos justamente durante a ditadura? 


São questões em aberto. Na peça de Machado, ser ministro não importava tanto como hoje . Quem mandava era o império e suas tenazes que parecem terem se estendido até a República Velha. Jorge Street, único empresário paulista que aceitou as reivindicações da primeira greve laboral conhecida no Brasil e que se deu, em 1917, em São Paulo, foi exemplarmente punido por sua abertura em relação aos problemas sociais. Teve cortado seu crédito pelos banqueiros da época. Nenhum problema de corrupção, em princípio - mas seja qual for o nome que se dê às maquinações de empresários com o estado, contra uma classe social, como a dos trabalhadores, o poder do capital foi usado de forma a suprimir a voz discordante do meio empresarial.


Ao que parece, porém, o tema da corrupção era menos importante - ou um assunto irrelevante perante o poder efetivo, real. Napoleão sempre tolerou que Talleyrand - pai "natural" do grande pintor Eugène Delacroix - surrupiasse onde pudesse: julgava-o mais útil como diplomata, do que condenável por seus procedimentos, digamos, nada heterodoxos em relação ao dinheiro público.


No Brasil atual, por conta e risco - quem sabe - de "um deixa pra lá" muito comum e leniente com a corrupção- chegou-se, por fim, ao inaceitável. As próprias relações do senador com o bicheiro, parece só se terem tornado um assunto nacional por esses "imbroglios" da história, ou antes, uma submissão paradoxalmente, momentânea digamos, da polícia com o governo. Essa, parece, a razão da surpresa da grande imprensa com o fato. O banco dos réus ocupado pelo senador Demóstenes Torres deveria, segundo a lógica da mídia, estar sendo tomado por alguém do governo; ou de esquerda. As capas e manchetes foram sempre monopolizadas pelo senador como "paladino" da moralidade, e portanto, do sistema. Só um erro de percurso explica os acontecimentos. Daí, porém, a busca quase desesperada da mídia: ao que parece, é preciso encontrar fatos que incriminem o governo e seus aliados.


É isso que parece fazer da história e da arte o que elas são (se é que as duas sejam, afinal, muito diferentes): troquem-se os nomes e o filme será, sem tirar nem pôr, igualzinho à novela; ou à ópera, mas principalmente à realidade. Esse, aliás, parece o consolo consabido - uma alimenta a outra. O difícil agora é que o enredo siga o ramerrã. E que quem tenha de responder pelo mal feito não seja o governo - mas a oposição. A ver a ópera e esperar o "grand finale".

Enio Squeff é artista plástico e jornalista.

domingo, 22 de abril de 2012

Música de Domingo -- Paisagem da Janela (Lô Borges com participação especial de Beto Guedes)

Essa música é quase um hino de Minas ou da mineiridade, como diria Guimarães Rosa. Ainda mais interpretada por Lô Borges (seu compositor) na companhia de Beto Guedes.

Ela também me traz deliciosas lembranças da adolescência em Botelhos e do grupo de amigos que virava noite tocando, cantando e se divertindo.



sexta-feira, 20 de abril de 2012

Wallerstein: Eleições na França e nos Estados Unidos: iguais e tão diferentes


Em 2012, duas eleições presidenciais muito importantes e altamente disputadas ocorrem em França (22 de abril) e nos Estados Unidos (6 de novembro). As mesmas questões estão praticamente a ser debatidas nos dois países, e quase da mesma forma. Em ambos, o presidente é a figura política mais poderosa. Mas há uma diferença muito grande: não na ideologia, mas nas regras eleitorais. A diferença de regras dá origem a táticas eleitorais muito diferentes.

Em ambos os países, há dois partidos principais que historicamente se apresentaram como essencialmente de centro-direita e de centro-esquerda. Observadores das mais variadas opiniões políticas estão de acordo em que as verdadeiras políticas dos dois partidos, uma vez que chegam ao poder, não são tão diferentes. E, no entanto, existem de facto algumas diferenças que cada um considera cruciais, e elas motivam cada grupo a disputar ferozmente as presidenciais.

Em ambos os países, existe o que se pode chamar de extrema-direita e de esquerda radical. A extrema-direita e a esquerda radical denunciam estes dois partidos “centristas” como “farinha do mesmo saco” e defendem uma plataforma política que seja verdadeiramente de direita e verdadeiramente de esquerda. Porém, esta defesa é levada a cabo de forma bastante diferente, devido às grandes diferenças dos sistemas eleitorais.

Nos Estados Unidos, a eleição ocorre em 50 unidades separadas – os estados – numa base de quem ganha leva tudo, para obter um número específico de votos no que é chamado de “colégio eleitoral”. Este sistema torna extremamente difícil a possibilidade de os “terceiros partidos” terem uma influência real na decisão de quem é eleito. Ainda assim, há sempre alguns que não se importam com isto e lançam candidatos, de qualquer modo. Às vezes, essa decisão afeta os resultados nalguns estados, afetando assim os resultados finais. Por exemplo, em 2000, alguns analistas argumentam que a candidatura de Ralph Nader retirou votos do candidato democrata, Al Gore, que foram suficientes para impedi-lo de ganhar em dois estados. Por isso, diz-se por vezes que a candidatura de Nader resultou na eleição de Bush.

No passado, a extrema-direita nos Estados Unidos tendeu a abster-se da participação eleitoral, argumentando que o Partido Republicano era demasiado “liberal” para o gosto deles. Mas, há 20 anos, este grupo decidiu que a grande forma de influenciar o futuro era entrar no Partido Republicano e forçá-lo a escolher candidatos mais “conservadores”. Nestes dias, este grupo está em grande parte reunido sob a etiqueta do “Tea Party”. Esta tática de “entrismo” teve um enorme sucesso, e o Partido Republicano virou significativamente à direita nos últimos cerca de doze anos.

Em França, as eleições funcionam de forma muito diferente. Por uma grande diferença: são nacionais; não há subunidades eleitorais. Em segundo lugar, a menos que um candidato receba mais de 50% da votação, há sempre uma segunda volta eleitoral, na qual os dois partidos com as maiores percentagens no primeiro turno passam a ser a única opção de escolha.

Este sistema permite – na verdade, encoraja – grupos de todas as variedades políticas a apresentarem um candidato presidencial na primeira volta, já que os eleitores sabem que podem dar o seu voto no segundo turno a um dos dois principais partidos. A primeira volta funciona como uma demonstração da força popular, servindo principalmente para influenciar, esperam, as políticas do partido vencedor depois do segundo turno.

O sistema francês tem uma falha. Ambos os principais partidos têm de ter uma votação suficiente para estar no segundo turno. Em 2002, e muito excecionalmente, o partido de centro-esquerda, os socialistas, ficaram, por pouco, atrás do partido de extrema-direita, a Frente Nacional, e por isso foram eliminados. Por isso, este ano os socialistas estão a enfatizar a importância do “voto útil” para que isso não volte a acontecer. O trauma dos democratas nos Estados Unidos provocado pela votação em 2000 equivale ao trauma de 2002 dos socialistas em França.

Em que ficamos? Nos Estados Unidos, o eventual candidato republicano apresentar-se-á como “muito” conservador graças às pressões do Tea Party, e por isso arriscam-se a perder votos para os chamados “moderados”, que são mais “centristas”. O candidato democrata, que será o presidente Obama, desiludiu muitos dos seus mais ardentes apoiantes virando fortemente à direita durante o seu primeiro mandato. Agora está a tentar ganhá-los de volta para uma plataforma mais “populista”, mas teme que, neste processo, possa perder alguns dos moderados republicanos “desiludidos”. Em 2012, não há candidatos significativos dos partidos menores à vista.

Em França, a situação é mais complicada. As sondagens atuais mostram que os candidatos dos dois maiores partidos – Nicolas Sarkozy pelo partido de centro-direita, a UMP, e François Hollande pelo centro-esquerda, os socialistas – estão praticamente empatados na primeira volta. Contudo, cada um tem menos de 30% dos votos. Os restantes 40-50% devem dividir-se entre três outros candidatos: Marine Le Pen da Frente Nacional, de extrema-direita, François Bayrou, de um partido centrista (que condena tanto a UMP quanto os socialistas por não serem suficientemente centristas), e Jean-Luc Mélenchon pela Frente de Esquerda, que conseguiu reunir em torno de si a maioria dos votos da esquerda radical apesar da participação de outros partidos de extrema-esquerda na eleição.

LePen, Bayrou, e Mélenchon têm cada um entre 14 e 18% dos votos, por enquanto. Assim, nenhum deles parece ter possibilidades de chegar ao segundo turno. O desempenho de Mélenchon tem sido a grande surpresa das eleições. Mas também se prevê que se as sondagens mostrarem uma grande queda de Hollande, talvez metade dos eleitores de Mélenchon votem em Hollande, para evitar o risco de Le Pen ou Bayrou afastarem o socialista do segundo turno.

Contudo, se Mélenchon obtiver uma grande votação e Hollande mesmo assim for ao segundo turno, duas coisas serão verdade. Uma, terá havido uma clara mensagem aos socialistas de que precisam virar à esquerda politicamente. A segunda é que a maioria dos eleitores de Mélenchon votarão em Hollande no segundo turno. À direita, porém, a maioria dos eleitores de Le Pen ficarão relutantes de votar em Sarkozy, e o Front National não dará essa indicação de voto. Se o fizessem, minariam a sua própria base de existência.

O sistema francês parece funcionar melhor para a esquerda radical. O sistema dos EUA parece funcionar melhor para a extrema-direita. Mas o motivo principal são as diferentes regras eleitorais.

Imanuel Wallerstein, Sociólogo estadunidense. Ex-professor  Universidade McGill, Montreal, até 1976, e na Universidade de Binghamton, Nova Iorque, de 1976 a 1999

quarta-feira, 18 de abril de 2012

Mídia oligopolizada = desfaçatez


A mídia oligopolizada brasileira (que sempre nos tratou como imbecilóides) acaba de criar mais um sofisma.

Para ela a CPI do Cachoeira só será possível graças ao empenho da oposição farisaica. Por outro lado, na versão da mídia oligopolizada, o PT e a Presidenta Dilma não queriam nem ouvir falar em CPI a essa altura do campeonato.

 É no mínimo impressionante a desfaçatez e falta de vergonha dessa mídia. Não bastasse ter ungido Demóstenes Torres como o paladino implacável da Justiça para depois, diante dos fatos irrefutáveis, vê-lo afundado numa cachoeira de lama, agora tanta blindar o governador de Goiás (Marconi Perillo) e jogar toda a lama que puder em cima do governo do Distrito Federal.

A mesma mídia que durante a semana se esforçou em vender a ideia de que era desnecessário uma CPI para investigar as ligações perigosas de Carlinhos Cachoeira com parlamentares, mandatários e grupos do oligopólio midiático, afirmando que isso não passava de uma estratégia avalizada e mal avaliada por Lula com o intuito exclusivo de atingir Marconi Perillo (na visão da mídia, que já não conseguimos distinguir o que é  invenção do que é fato apurado, se é que existe fato apurado por essa mídia) uma antigo desafeto do ex-presidente.

Entretanto de tudo isso o mais incrível e inacreditável ocorreu nessa terça-feira quando a mídia estampou em letras garrafais nos seus principais portais e veiculou nas tvs a informação que a oposição conseguiu um número acima do necessário pra instalar a CPI do Cachoeira.

O que há de errado nisso além de discurso prática contrários?

O que há de mais errado é a quase omissão que a tal CPI só será possível graças a assinatura de todos os senadores do PT e de quase a totalidade de seus deputados. Isso você não verá estampado na grande imprensa, que Gramsci sabiamente definiu como Partido do Capital!

sábado, 14 de abril de 2012

Ivan Lessa -- Que país é este? Já matou seu comunista hoje?

Por Ivan Lessa na BBC Brasil

Velhos slogans borrados nas paredes vêm-me à mente quando flagro, como um subversivo na noite, a notícia do que estão tramando as altas fontes do país.
Altas fontes, em geral, sabe-se, é cascata.

O que me é confirmado por alguns amigos ou melhor informados do que eu, ou, mais provável, agentes do SNI, do DOPS e seus atuais equivalentes nesta Grã-Bretanha que a cada dia que passa me lembra o Bananão, apelido intimista e desairoso com que era chamado nosso país, o mesmo que deu ao mundo o mais pesado que o ar e as poéticas cidades verticais a que chamam de favelas, onde mora uma gente boa e trabalhadora que vive mais pertinho do céu.

Voltando ao solo do Reino Unido, país onde resolvi armar minha barraca, em dia mais pessimista com distensões, lentas ou graduais, ando levando tanto susto quanto naqueles dias, no Rio de 1968, quando batiam-me à porta não sabia se era a senhora do apartamento 506 ou um funcionário à paisana do Cenimar.

A culpa será dos jornais? Estarão todos sob censura prévia criativa? Algum motivo deve haver para tanto celebrar o naufrágio do Titanic. Escolado, ocorre-me que a tragédia do embate embarcação contra pedra de gelo nada mais é do que uma preparação psicológica para os dias que vêm aí.

Os dias que vêm aí. Lá estava no jornal do dia 2 de janeiro em 2 sucintas colunas a notícia, supostamente especulativa, de que está em fase de estudo uma lei, já contando com uma boa maioria de parlamentares e autoridades, que tornaria os cidadãos britânicos e todos que nestas ilhas habitam sujeitos a uma sofisticadérrima vigilância na internet que tornaria este país mais rígido com seus cidadãos informatizados do que a China.

Sim, claro, há uma campanha por gente de bem que dá o sinal de alerta. Conheci muita gente de bem, nos brasileiros anos de chumbo, que caiu do helicóptero ou pelo gato foi comida. Prezo e temo por eles.

Aquilo que se propõe tornar lei é simples e direto como 200 volts nas partes pudendas ou pau-de-arara.

A principal agência de informações, a GCHQ (a central de comunicações do governo), teria, ou terá, o direito de monitorar todas as chamadas, todos os e-mails, textos, pesquisas e visitas a websites feitas por qualquer residente neste país.

As firmas que lidam com a internet poderiam, ou poderão, receber ordens ("Tejo preso!") no sentido de fornecer à agência de informações acesso em tempo real a toda e qualquer comunicação que lhe for ordenada.
Por Ivan Lessa via BBC Brasil

Diversos ministros insistem no fato de que é essencial para os serviços policiais e de segurança ter acesso aos dados enumerados acima afim de combater o terrorismo e proteger o público.

No momento, tudo isso pode ser obtido mediante mandado oficial, o que, pensam muitos, dá uma trabalheira danada e tempo para a subversão marchar para cima e para baixo com Deus e a Família pelo país inteiro espalhando a brasa viva e ardente da Tradição e da verdadeira Liberdade.

Com uma nova legislação mais rigorosa e ágil como Messi ou Cristiano Ronaldo disparando pelo miolo do campo adversário (esses terroristas...), as coisas se tornariam mais simples.

E a simplicidade – pergunte a qualquer chinês – é a alma do negócio dos pastéis.

Ivan Lessa -- Que país é este? Já matou seu comunista hoje?

Velhos slogans borrados nas paredes vêm-me à mente quando flagro, como um subversivo na noite, a notícia do que estão tramando as altas fontes do país.
Altas fontes, em geral, sabe-se, é cascata.

O que me é confirmado por alguns amigos ou melhor informados do que eu, ou, mais provável, agentes do SNI, do DOPS e seus atuais equivalentes nesta Grã-Bretanha que a cada dia que passa me lembra o Bananão, apelido intimista e desairoso com que era chamado nosso país, o mesmo que deu ao mundo o mais pesado que o ar e as poéticas cidades verticais a que chamam de favelas, onde mora uma gente boa e trabalhadora que vive mais pertinho do céu.

Voltando ao solo do Reino Unido, país onde resolvi armar minha barraca, em dia mais pessimista com distensões, lentas ou graduais, ando levando tanto susto quanto naqueles dias, no Rio de 1968, quando batiam-me à porta não sabia se era a senhora do apartamento 506 ou um funcionário à paisana do Cenimar.

A culpa será dos jornais? Estarão todos sob censura prévia criativa? Algum motivo deve haver para tanto celebrar o naufrágio do Titanic. Escolado, ocorre-me que a tragédia do embate embarcação contra pedra de gelo nada mais é do que uma preparação psicológica para os dias que vêm aí.

Os dias que vêm aí. Lá estava no jornal do dia 2 de janeiro em 2 sucintas colunas a notícia, supostamente especulativa, de que está em fase de estudo uma lei, já contando com uma boa maioria de parlamentares e autoridades, que tornaria os cidadãos britânicos e todos que nestas ilhas habitam sujeitos a uma sofisticadérrima vigilância na internet que tornaria este país mais rígido com seus cidadãos informatizados do que a China.

Sim, claro, há uma campanha por gente de bem que dá o sinal de alerta. Conheci muita gente de bem, nos brasileiros anos de chumbo, que caiu do helicóptero ou pelo gato foi comida. Prezo e temo por eles.

Aquilo que se propõe tornar lei é simples e direto como 200 volts nas partes pudendas ou pau-de-arara.

A principal agência de informações, a GCHQ (a central de comunicações do governo), teria, ou terá, o direito de monitorar todas as chamadas, todos os e-mails, textos, pesquisas e visitas a websites feitas por qualquer residente neste país.

As firmas que lidam com a internet poderiam, ou poderão, receber ordens ("Tejo preso!") no sentido de fornecer à agência de informações acesso em tempo real a toda e qualquer comunicação que lhe for ordenada.
Por Ivan Lessa via BBC Brasil

Diversos ministros insistem no fato de que é essencial para os serviços policiais e de segurança ter acesso aos dados enumerados acima afim de combater o terrorismo e proteger o público.

No momento, tudo isso pode ser obtido mediante mandado oficial, o que, pensam muitos, dá uma trabalheira danada e tempo para a subversão marchar para cima e para baixo com Deus e a Família pelo país inteiro espalhando a brasa viva e ardente da Tradição e da verdadeira Liberdade.

Com uma nova legislação mais rigorosa e ágil como Messi ou Cristiano Ronaldo disparando pelo miolo do campo adversário (esses terroristas...), as coisas se tornariam mais simples.

E a simplicidade – pergunte a qualquer chinês – é a alma do negócio dos pastéis.

segunda-feira, 9 de abril de 2012

Elio Gaspari -- O presidente Demóstenes em Nova York

Via Blog do Josias de Souza

Setembro de 2015: Eleito presidente da República em novembro do ano passado, Demóstenes Torres chegou ontem a Nova York para abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas. Reuniu-se com o presidente Barack Obama, de quem cobrou uma política mais agressiva contra os governos de Bolívia, Equador e Venezuela, “controlados por aparelhos partidários que sonham em transformar a América Latina numa nova Cuba”.

Antes de embarcar, Demóstenes abriu uma crise diplomática com o Paraguai, anunciando sua intenção de rever o tratado da hidrelétrica de Itaipu.

O presidente brasileiro assumiu prometendo fazer “a faxina ética de que o país precisa”. Para isso, criou um ministério com superpoderes, entregue ao ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes.

Numa reviravolta em relação a suas posições anteriores, o presidente apoiou um projeto que legaliza o jogo no país. Ele reestruturou o programa Bolsa Família, reduzindo-lhe as verbas e criando obstáculos para o acesso aos seus benefícios. Patrocinou projetos reduzindo a maioridade penal para 16 anos, e autorizando a internação compulsória de drogados. Determinou que uma comissão especial expurgue o catálogo de livros didáticos distribuídos pelo Ministério da Educação.

Atualmente, percorre o país pedindo a convocação de uma Assembleia Constituinte. A oposição do Partido dos Trabalhadores denuncia a existência de uma aliança entre o presidente e quase todos os grandes meios de comunicação do país.

Ao desembarcar no aeroporto Kennedy, Demóstenes ironizou as críticas à presença de uma jovem assessora na sua comitiva: “Lamentavelmente, ela não é minha amante, porque é linda”.

À noite, o presidente compareceu a um jantar no restaurante Four Seasons, organizado pelo empresário Claudio Abreu, que até março de 2012 dirigia um escritório regional de relações corporativas da empreiteira Delta. Abreu é o atual secretário-executivo da Comissão de Revisão dos Contratos de Grandes Obras, presidida pelo ex-procurador geral Roberto Gurgel.

Chamou atenção na comitiva do presidente o fato de alguns integrantes carregarem celulares habilitados numa loja da Rua 46. Eles são chamados de “Clube do Nextel”.

Em 2012, a carreira do atual presidente foi ameaçada por uma investigação que o associava ao empresário Carlos Augusto Ramos, também conhecido como Carlinhos Cachoeira, marido da ex-mulher do atual senador Wilder Pedro de Morais, que era suplente de Demóstenes.

O trabalho da Polícia Federal foi desqualificado pela Justiça. O assunto foi esquecido quando surgiram as denúncias do BolaGate contra o governo da presidente Dilma Rousseff envolvendo contratos de serviços e engenharia de estádios para a Copa do Mundo cancelada em 2013.

A eleição de campeões da moralidade é um fenômeno comum no Brasil. Em 1959, Jânio Quadros elegeu-se montando uma vassoura. Em 1989, triunfou Fernando Collor de Mello.

O primeiro renunciou numa tentativa de golpe de Estado e terminou seus dias apoquentado por pressões familiares para que revelasse os números de suas contas bancárias no exterior.

O segundo deixou o poder acusado de corrupção e viveu por algum tempo em Miami, elegeu-se senador e apoiou a candidatura de Demóstenes. O tesoureiro de sua campanha foi assassinado.

Presente ao jantar do Four Seasons, o empresário Carlos Augusto Ramos não quis falar à imprensa. Ele hoje lidera o setor da indústria farmacêutica brasileira beneficiado pelos incentivos concedidos no governo anterior. Ramos chegou acompanhado pelo ministro dos Transportes, Marconi Perillo, que governou o estado do presidente e foi o principal articulador do apoio do PSDB à sua candidatura.

Uma dissidência do PT, liderada pelo deputado Rubens Otoni, também apoiou a candidatura de Demóstenes. O presidente anunciou que a BingoBrás será presidida por um ex-petista.

Abril de 2012: quem conhece o tamanho do conto do vigário moralista de Fernando Collor e Jânio Quadros sabe que tudo o que está escrito aí em cima poderia ter acontecido.”

terça-feira, 3 de abril de 2012

Rede Brasil Atual -- Para Chauí, ditadura iniciou devastação física e pedagógica da escola pública

No site da Rede Brasil Atual

Violência repressiva, privatização e a reforma universitária que fez uma educação voltada à fabricação de mão-de-obra, são, na opinião da filósofa Marilena Chauí, professora aposentada da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da USP, as cicatrizes da ditadura no ensino universitário do país. Em conversa com a Rede Brasil Atual, Chauí relembrou as duras passagens do período e afirma não mais acreditar na escola como espaço de formação de pensamento crítico dos cidadãos, mas sim em outras formas de agrupamento, como nos movimentos sociais, movimentos populares, ONGs e em grupos que se formam com a rede de internet e nos partidos políticos.

Chauí, que "fechou as portas para a mídia" e diz não conceder entrevistas desde 2003, falou com o editor da Revista do Brasil, Paulo Donizetti de Souza, após palestra feita no lançamento da escola 28 de de Agosto, iniciativa do Sindicato dos Bancários de São Paulo que elogiou por projetar cursos de administração que resgatem conteúdos críticos e humanistas dos quais o meio universitário contemporâneo hoje se ressente.

Quais foram os efeitos do regime autoritário e seus interesses ideológicos e econômicos sobre o processo educacional do Brasil?

Vou dividir minha resposta sobre o peso da ditadura na educação em três aspectos. Primeiro: a violência repressiva que se abateu sobre os educadores nos três níveis, fundamental, médio e superior. As perseguições, cassações, as expulsões, as prisões, as torturas, mortes, desaparecimentos e exílios. Enfim, a devastação feita no campo dos educadores. Todos os que tinham ideias de esquerda ou progressistas foram sacrificados de uma maneira extremamente violenta.

Em segundo lugar, a privatização do ensino, que culmina agora no ensino superior, começou no ensino fundamental e médio. As verbas não vinham mais para a escola pública, ela foi definhando e no seu lugar surgiram ou se desenvolveram as escolas privadas. Eu pertenço a uma geração que olhava com superioridade e desprezo para a escola particular, porque ela era para quem ia pagar e não aguentava o tranco da verdadeira escola. Durante a ditadura, houve um processo de privatização, que inverte isso e faz com que se considere que a escola particular é que tem um ensino melhor. A escola pública foi devastada, física e pedagogicamente, desconsiderada e desvalorizada.

E o terceiro aspecto?

A reforma universitária. A ditadura introduziu um programa conhecido como MEC-Usaid, pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, para a América Latina toda. Ele foi bloqueado durante o início dos anos 1960 por todos os movimentos de esquerda no continente, e depois a ditadura o implantou. Essa implantação consistiu em destruir a figura do curso com multiplicidade de disciplinas, que o estudante decidia fazer no ritmo dele, do modo que ele pudesse, segundo o critério estabelecido pela sua faculdade. Os cursos se tornaram sequenciais. Foi estabelecido o prazo mínimo para completar o curso. Houve a departamentalização, mas com a criação da figura do conselho de departamento, o que significava que um pequeno grupo de professores tinha o controle sobre a totalidade do departamento e sobre as decisões. Então você tem centralização. Foi dado ao curso superior uma característica de curso secundário, que hoje chamamos de ensino médio, que é a sequência das disciplinas e essa ideia violenta dos créditos. Além disso, eles inventaram a divisão entre matérias obrigatórias e matérias optativas. E, como não havia verba para contratação de novos professores, os professores tiveram de se multiplicar e dar vários cursos.

"Fazer uma universidade comprometida com o que se passa na realidade social e política se tornou uma tarefa muito árdua e difícil"

Houve um comprometimento da inteligência?
Exatamente. E os professores, como eram forçados a dar essas disciplinas, e os alunos, a cursá-las, para terem o número de créditos, elas eram chamadas de “optatórias e obrigativas”, porque não havia diferença entre elas. Depois houve a falta de verbas para laboratórios e bibliotecas, a devastação do patrimônio público, por uma política que visava exclusivamente a formação rápida de mão de obra dócil para o mercado. Aí, criaram a chamada licenciatura curta, ou seja, você fazia um curso de graduação de dois anos e meio e tinha uma licenciatura para lecionar. Além disso, criaram a disciplina de educação moral e cívica, para todos os graus do ensino. Na universidade, havia professores que eram escalados para dar essa matéria, em todos os cursos, nas ciências duras, biológicas e humanas. A universidade que nós conhecemos hoje ainda é a universidade que a ditadura produziu.

Essa transformação conceitual e curricular das universidade acabou sendo, nos anos 1960, em vários países, um dos combustíveis dos acontecimentos de 1968 em todo mundo.

Foi, no mundo inteiro. Esse é o momento também em que há uma ampliação muito grande da rede privada de universidades, porque o apoio ideológico para a ditadura era dado pela classe média. Ela, do ponto de vista econômico, não produz capital, e do ponto de vista política, não tem poder. Seu poder é ideológico. Então, a sustentação que ela deu fez com que o governo considerasse que precisava recompensá-la e mantê-la como apoiadora, e a recompensa foi garantir o diploma universitário para a classe média. Há esse barateamento do curso superior, para garantir o aumento do número de alunos da classe média para a obtenção do diploma. É a hora em que são introduzidas as empresas do vestibular, o vestibular unificado, que é um escândalo, e no qual surge a diferenciação entre a licenciatura e o bacharelato.

Foi uma coisa dramática, lutamos o que pudemos, fizemos a resistência máxima que era possível fazer, sob a censura e sob o terror do Estado, com o risco que se corria, porque nós éramos vigiados o tempo inteiro. Os jovens hoje não têm ideia do que era o terror que se abatia sobre nós. Você saía de casa para dar aula e não sabia se ia voltar, não sabia se ia ser preso, se ia ser morto, não sabia o que ia acontecer, nem você, nem os alunos, nem os outros colegas. Havia policiais dentro das salas de aula.

Houve uma corrente muito forte na década de 60, composta por professores como Aziz Ab'Saber, Florestan Fernandes, Antonio Candido, Maria Vitória Benevides, a senhora, entre outros, que queria uma universidade mais integrada às demandas da comunidade. A senhor tem esperança de que isso volte a acontecer um dia?

Foi simbólica a mudança da faculdade para o “pastus”, não é campus universitário, porque, naquela época, era longe de tudo: você ficava em um isolamento completo. A ideia era colocar a universidade fora da cidade e sem contato com ela. Fizeram isso em muitos lugares. Mas essa sua pergunta é muito complicada, porque tem de levar em consideração o que o neoliberalismo fez: a ideia de que a escola é uma formação rápida para a competição no mercado de trabalho. Então fazer uma universidade comprometida com o que se passa na realidade social e política se tornou uma tarefa muito árdua e difícil.

"Esse é o momento também em que há uma ampliação muito grande da rede privada de universidades, porque o apoio ideológico para a ditadura era dado pela classe média"

Não há tempo para um conceito humanista de formação?

É uma luta isolada de alguns, de estudantes e professores, mas não a tendência da universidade.

Hoje, a esperança da formação do cidadão crítico está mais para as possibilidades de ajustes curriculares no ensino fundamental e médio? Ou até nesses níveis a educação forma estará comprometida com a produção de cabeças e mãos para o mercado?

Na escola, isso, a formação do cidadão crítico, não vai acontecer. Você pode ter essa expectativa em outras formas de agrupamento, nos movimentos sociais, nos movimentos populares, nas ONGs, nos grupos que se formam com a rede de internet e nos partidos políticos. Na escola, em cima e em baixo, não. Você tem bolsões, mas não como uma tendência da escola.