domingo, 24 de junho de 2012

sábado, 23 de junho de 2012

Entre o mundo ideal e a “realpotolitik” deve haver um meio termo!


Não adianta querer explicar o inexplicável. Tampouco adianta querer dizer que é assim que se faz na “realpolitik” ou que os fins justificam os meios. Lula e Maluf são personagens históricos da política nacional, só que figuras antagônicas.

De um lado o principal político gerado pelo apoio da sociedade civil conservadora e retrógrada ao regime de exceção e que, não obstante, se aproveitou de suas ligações com os donos do poder para à custa do erário aumentar substancialmente seu patrimônio pessoal, sendo por isso cassado pela Inerpol. De outro lado o homem que ousou liderar as greves que no final dos anos 1970 abalaram os podres alicerces da Ditadura Militar e que por isso foi várias vezes preso. O homem cuja História se confunde com a do Brasil recente; que fundou o maior partido de esquerda da América Latina; que se tornou o primeiro operário eleito presidente da República; que transformou uma terra arrasada numa das maiores economias do mundo; que através da inserção de programas sociais retirou milhões de brasileiros da miséria; que nos deu uma política externa soberana; em suma, que dividiu nossa história republicana em “antes de Lula” e "depois de Lula”.


Ver esses dois seres simbólicos, do Brasil do passado e do Brasil do presente, apertando as mãos e sorrindo como velhos amigos foi um tapa na cara dos partidários de ambos os lados que guardam um mínimo de coerência.

Pra um malufista ver seu ídolo em poses tão amigáveis com Lula foi um acinte, foi rebaixar-se ao que de pior a gentalha nordestina analfabeta e preguiçosa poderia ter levado à Terra dos Bandeirantes. Já para um petista ver Lula sorrindo ao lado de Paulo Maluf foi o mesmo que ver o pai em atos libidinosos com uma prostituta barata. Ou então ver aquela pessoa pela qual nutre grande admiração fazendo acertos espúrios com o canalha cujos bolsos estão cheios de dinheiro sujo e as mãos manchadas de sangue.

Impressionante como ninguém dentro do PT foi capaz de mostrar a Lula e à tendência Articulação – antigo Campo Majoritário – o alto grau de risco que traria uma aliança com Maluf. O PT conseguiu várias proezas negativas com essa antes impensável aliança. A primeira dispersar sua própria militância que sente ojeriza por Maluf.  Depois conseguiram fazer com que Luiza Erundina quebrasse o recorde de permanência  numa chapa. Entre sua coerência, dignidade e moral e a imoralidade de fazer parte de uma aliança com Maluf jogando a biografia no lixo, Erundina não pensou duas vezes e optou facilmente pela primeira.

Quando Paulo Maluf num aparente e calculado gesto de carinho passou as mãos sobre a cabeça de Fernando Haddad, Maluf apodreceu a campanha do ex-ministro da Educação rumo a Prefeitura de São Paulo. Ao mesmo passo, alguém acha que aquele típico eleitor de Maluf votará em Haddad só porque o príncipe da ultradireita passou as mãos sobre a cabeça do petista. Para os eleitores de Maluf votarem no PT o PT terá que renegar suas bandeiras históricas e deixar de representar tudo o que representa em termos de avanços sociais, além de passar a defender uma política conservadora no tocante a segurança pública e a criminalização da pobreza ­– o que os malufistas mais adoram.

Na verdade após toda essa lambança a Articulação e Lula conseguiram – teimo em repetir o nome do ex-presidente por ser ele mentor e avalista da candidatura do ex-ministro da Educação  ­– transformar uma campanha complicada numa eleição ainda mais improvável. E, mesmo que Haddad venha a lograr êxito, o preço da vitória pode sair caro tanto ao próprio Haddad quanto ao PT. Afinal, vencer com tal aliado significa abrir mão de sua identidade histórica e política, um capital que o PT até há pouco tempo dava muito valor.

Lula é sem dúvidas o maior gênio político do Brasil pós-redemocratização, quiçá de toda a nossa História.  Quando falamos em perdas e ganhos quanto a estratégias políticas o saldo é amplamente favorável a Lula e a Articulação, tendência hoje predominante no Partido dos Trabalhadores. Todavia essas alianças na maioria das vezes acabaram por desfigurar o programa do partido e consumaram uma guinada da esquerda para a centro-esquerda beirando o centro propriamente dito. Ademais muitas das alianças impostas por Lula e a Articulação se mostraram equivocadas, verdadeiros erros crassos.  Em 2010, por exemplo, a imposição da aliança com o PMDB em Minas Gerais, abrindo mão de ter candidato próprio ao governo estadual para apoiar Hélio Costa foi uma análise embasada apenas num dado momento da pré-campanha e que acabou por facilitar o caminho de Aécio Neves e seu boneco de ventríloquo Antonio Anastasia.

Agora em 2012 na disputa pela Prefeitura de São Paulo o PT, caso ganhe ou caso perca, estará entregando o ouro ao bandido!

segunda-feira, 18 de junho de 2012

Haddad e Erundina, por Saul Leblon


Uma aliança com a dignidade

Por Saul Leblon na Carta Maior

Uma grande frente da direita brasileira se move na ansiosa tentativa de preservar o comando da maior capital do país. O comboio transporta interesses pesados; não perder sua maior vitrine política é um deles; propiciar ao candidato da derrota conservadora em 2002 e 2010 um holofote de sobrevida até 2014, outro Há também o orçamento: R$ 40 bilhões, maior que o de vários Estados. Serra teria hoje 30% das intenções de votos na corrida pela prefeitura de São Paulo; seu principal oponente, Fernando Haddad, 3%. Lula adoeceu no meio do caminho e já se recuperou. Mas a convalescença pode reduzir a decisiva participação em uma disputa com DNA nacional.

O conservadorismo atrelava vagões ao comboio e exultava a cada tropeço do outro lado. A frustrada tentativa de cooptar Kassab parecia ter subtraído ao PT até mesmo o discurso da polaridade ideológica. Com Marta ressentida e afastada, Serra chocava a serpente ao abrigo de confrontos constrangedores. A incubação conservadora ia bem até que uma palavra que desequilibra o lado contra o qual ela se volta entrou no jogo: dignidade, ou Luiza Erundina. Essa mulher nordestina e socialista, ex-prefeita da capital, que alguns criticaram pelo excesso de zelo com a causa popular, será a parceira de Haddad para devolver a São Paulo algo de inestimável valor: o resgate do voto como um engajamento que faz sentido outra vez na luta por uma cidade a serviço dos cidadãos.

Em 2010, seus 50 anos de integridade e dedicação à justiça social foram manchados por uma condenação no Supremo Tribunal Federal: malversação de fundos públicos. Pela sentença, de um processo que se arrastava há 20 anos, Erundina teria que devolver aos cofres municipais cerca de R$ 350 mil, quantia de que não dispunha, nem nunca teve, razão pela qual a Justiça determinou o leilão de seus únicos bens de valor: um apartamento de 80 m2 na zona sul de São Paulo, avaliado então em R$ 100 mil e dois carros populares - um Palio 97 e um Gol 2004, do tipo 'rodados'. As razões que a levaram à condenação e a forma como ela a superou resumem a inquietação que o seu engajamento eleitoral causa agora nas fileiras da direita.

Erundina não virou ré por qualquer desvio de dinheiro público; sua administração não foi acusada de fraude em licitações ou superfaturamento; ela não nomeou, como fez Serra, um achacador para Departamento de Aprovação de Edificações da Prefeitura, que em poucos anos 'adquiriu' 125 imóveis de alto padrão. Não, eu crime,pelo qual quase perdeu o seu único patrimônio, foi não ter boicotado uma greve geral dos trabalhadores brasileiros, em 1989. Em março daquele ano, a então prefeita de São Paulo determinou que fossem impressos cartazes explicando à população que os ônibus municipais não circulariam nos dias 14 e 15 em apoio à greve geral convocada pela CUT e a CGT, como protesto contra o "Plano Verão.

A decisão de que ela deveria ressarcir os cofres da despesa com os cartazes era definitiva e não cabia mais recurso. A mais pobre ex-prefeita de São Paulo contou então com a ajuda dos amigos para evitar o desastre. Um grupo organizou uma campanha nacional com jantares e doações populares que se espalhou rapidamente, acumulando depósitos de R$ 2 a R$ 20 mil na conta aberta para essa finalidade.

A resposta massiva assumiu contornos de indignação suprapartidária e solidariedade ecumênica a ex-prefeita. Em pouco tempo foi atingido o montante necessário e saldada a sentença. Na verdade, os recursos ultrapassaram o valor estipulado em R$ 7 mil, que Erundina decidiu doar a uma instituição de caridade escolhida com a ajuda dos amigos da campanha. Bem-vinda, senhora dignidade.

domingo, 10 de junho de 2012

Mujica, Messi e Neymar

Por Jaques Gruman, tungado do Viomundo


Rápido pinga-fogo, em cima do lance. O Globo de hoje mostra foto do presidente do Uruguai, José PepeMujica, cortando o cabelo em sua pequena chácara nos arredores de Montevidéu. De origem camponesa, Mujica é um exemplo de dignidade e coerência. Não traiu sua classe, rejeitou todas as benesses do cargo, não aumentou o patrimônio, manteve a suavidade (apesar das torturas monstruosas que sofreu durante a ditadura militar uruguaia). Viaja em aviões comerciais e vai para o trabalho num velho Fusca 1987.

Parênteses: antes dele, Tabaré Vasquez, que é oncologista, também da Frente Ampla, abria espaço na agenda oficial e reservava algumas horas por semana para atender seus pacientes. Não se mudou para um Palácio, nem se beneficiou de mordomias. Sabia que presidência não é profissão, nem trampolim para boa vida. Liturgia do cargo ? Isso é para deslumbrados, que trocam, gostosamente, a informalidade por ternos de grife e carrões oficiais. Mujica não sabe o que é uma gravata e, sobretudo, respeita o dinheiro público. Não tem o menor carisma e isso apenas reforça minha enorme admiração pelo povo que o elegeu. Os uruguaios são politizados (ah, que inveja …) e preferiram a ideologia aos truques da marquetagem. A luta dentro da Frente Ampla é política e não, como tristemente vemos no Brasil, de fundo tediosamente eleitoreiro. Alguém consegue imaginar coisa parecida por aqui, paraíso do ilusionismo, da malandragem, da falta de escrúpulos, das intermináveis traições de classe, das fantasias conciliatórias, do paternalismo ?

Por falar em malandragem, no pior sentido da palavra, volto ao futebol. Hoje, Lionel Messi destruiu as ilusões patrioteiras. Dá gosto vê-lo jogar. Não temos nada nem remotamente parecido com ele. Neymar ? Não gosto de ser profeta de nada, mas arrisco um palpite: esse cara não vai dar em nada. É um moleque desonesto e pretensioso, desconhece que futebol é jogo coletivo. Vai ganhar muito dinheiro nessa indústria, mas não deixará saudade. Podem me cobrar daqui a alguns anos.

Abraço e um ótimo domingo.
Jacques

Música de Domingo -- Money (Pink Floyd)


Uma das maiores bandas de todos os tempos. Um dos maiores álbuns de todos os tempos. Uma das melhores músicas e letras desse álbum.

A genialidade de Roger Waters nos presenteia com Money.

domingo, 3 de junho de 2012

Especialidade de nossa mídia oligopolizada: atacar a América Latina e se desmoralizar


A mídia oligopolizada brasileira não perde uma boa oportunidade de desmoralizar a si própria. Depois de tanta asneira sobre o câncer de Dilma, agora "nossa" imprensa faz análises sobre o câncer do presidente venezuelano Hugo Chávez afirmando que este é uma espécie de zumbi, pois estaria tomando um determinado medicamento cem vezes mais forte que a morfina.

Numa reportagem porca e cheia de segundas intenções – na verdade só há uma única intenção, de tão clara que está – , não se dando ao trabalho de sequer ouvir algum médico sobre a eficácia de tal medicamento, o O Globo praticamente decreta que Chávez não tem condições físicas de se reeleger.

O Globo  estampa a manchete  “Hugo Chávez estaria tomando remédio cem vezes mais forte que morfina”, mas omite que o medicamento fentanil é de fato cem vezes mais eficiente que a morfina, porém, é tomado em dosagens cem vezes menor.

Impressionante como os principais veículos de comunicação do Brasil são na verdade panfletos de seus próprios interesses não se preocupando em ser desmoralizados com meia dúzia de argumentos razoáveis.

Uma mídia entreguista que por motivos ideológicos sente ojeriza a tudo o que é ligado a América Latina. Pra essa mídia o importante é sempre dar razão as elites locais. Foi assim no golpe de Estado dado pelos gorilas fardados hondurenhos em 2009. É assim sempre que a elite boliviana aventa a hipótese de secessão em retaliação a Evo Maorales. É assim quando Cristina Kirchner propõe qualquer medida mais ousada que não siga a cartilha neoliberal. Sempre foi assim contra Cuba. Cuba nunca tem razão em nada. Tem sido assim em relação a Chávez desde que este democraticamente assumiu o poder em 1999.

Pra quem tiver estômago a reportagem está aqui.

Música de Domigo – Pros que estão em casa (Hojerizah)

Ando numa fase muito anos 80. Saudosismo??? Parece que sim!!!

Mas o chamado Rock Brasileiro – ou Brock como alguns preferem – foi um movimento musical que buscou sintetizar alguns dos principais estilos do gênero musical mais popular do Ocidente ao mesmo tempo em lhe incorporava sonoridades de nossa terra. Isso no pós-punk e auge do New Wave. Complicado né? Um pouco.

Talvez por isso haja tantos críticos que adoram desprezar esse movimento. Entretanto nem só de gafes, blefes e plágios viveu O Rock Brasileiro.

No fundo ele representava, de um lado, uma parcela considerável da geração 80 ávida por consumir coisas novas numa época em que a globalização apenas engatinhava. Enquanto, por outro lado, suas letras politizadas ou escrachadas formavam uma espécie de válvula de escape pra uma sociedade reprimida e sufocada pela Ditadura Militar.

Tenho a intenção de escrever um artigo sobre o Rock Brasileiro, assim como faz tempo venho ensaiando escrever um a parte sobre a Legião Urbana (minha banda brasileira preferida), mas não prometo quando!

Por hoje ficou com essa música de uma das bandas que teve sucesso efêmero. Provavelmente porque quando, enfim, conseguiu seu espaço a mídia já dava sinais de desinteresse pelo Rock Brasileiro.


sábado, 2 de junho de 2012

A toga, a língua e o caçador de blogs

Editorial Carta Maior, 1º de Junho de 2010


Escudado na proteção republicana da toga, o ministro Gilmar Mendes desnudou uma controversa agenda política pessoal na última semana de maio. Onipresente na obsequiosa passarela da mídia amiga, lacrou seu caminho na 6ª feira declarando-se um caçador de blogs adversários de suas ideias e das ideias de seus amigos. Em preocupante equiparação entre a autoridade da toga e a arbitrariedade da língua, Gilmar decretou serem inimigos das instituições republicanas todos aqueles que contestam os seus malabarismos discursivos, a adequar denúncias a cada 24 horas, num exercício de convencimento à falta de testemunhas e fatos que as comprovem. 

A fragilidade desse discurso impele-o agora ao papel de censor a exigir da Procuradoria Geral da República, e do ministro Mantega, que sufoque blogs adversários asfixiando-os com o corte da publicidade oficial. Sobre veículos que incluem entre suas fontes e 'colaboradores informais', notórios acusados de integrar quadrilhas do crime organizado, o ministro nada observa em relação à presença da publicidade oficial. Cabe ao governo Dilma dar uma resposta ao autonomeado censor da República.

O ataque da língua togada contra a imprensa crítica não é aleatório. O dispositivo midiático conservador vive em andrajos de credibilidade e pautas. A semana final de maio estava marcada para ser um desses picos de desamparo, na despedida humilhante de seu herói decaído. E de fato o foi: em depoimento no Conselho de Ética do Senado, na 3ª feira, o ex-líder dos demos na Casa, Demóstenes Torres, deixaria gravado no bronze dos falsos savonarolas a lapidar confissão de que um chefe de quadrilha pagava as contas, miúdas, observaria, de seu celular. E ele, o centurião da moralidade, a direita linha dura assim cortejada pela língua togada e pelo aparato conservador --quem sabe até para vôos maiores em 2014--, não viu nenhum tropeço ético nesse pequeno mimo que elucida todo um perfil. 

O fecho de carreira do tribuno goiano contaminaria as manchetes que ele tantas vezes ancorou à direita não fosse a providencial intervenção da língua amiga do ministro do STF, Gilmar Mendes. Na mesma 3ª feira desde as primeiras horas da manhã, lá estava ela a falar pelos cotovelos. Diuturnamente, contemplou a orfandade da mídia amiga naquele dia cinzento. A cada qual ofereceu uma frase brinde para erguer a moral da tropa e justificar a manchete com o carimbo 'exclusivo' no alto da página. Não se poupou. O magistrado, não raro em destemperados decibéis, esfregou na opinião pública recibos e documentos que comprovariam o pagamento, com recursos próprios --'tenho-os para umas três voltas ao mundo'-- de seu giro europeu, em abril de 2011, onde se encontraria com Demóstenes Torres. 

Sua língua foi peremptória em vários momentos a trair a evocação liberal do emssor: 'Vamos parar com essas suspeitas sobre viagens", determinou. Para depois admitir em habilidosa antecipação: por duas vezes utilizou carona aérea do amigo Demóstenes; por duas vezes voou sob os auspícios do amigo que não possui veículo aéreo próprio; do amigo que não paga nem as contas de celular. Contas miúdas, diga-se, a revelar um vínculo orgânico com a ubíqua carteira gorda de acusados de integrar o condomínio criminoso goiano. 

Gilmar estava determinado a servir de redenção ao dispositivo midiático demotucano num dia tão aziago. Não desapontou amigos, ainda que tenha escandalizado o país que espera serenidade e equidistância dos que vocalizam um Supremo Tribunal Federal. Ofensivo, execrou blogs e sites críticos -- esses sim, bandidos e gangsters-- que arguiram e ainda arguem as fronteiras da identidade de valores que aproximou o magistrado do senador decaído. 

Fez mais ainda: acusou Lula de ser a central de boatos contra ele para 'melar o julgamento do mensalão' --como se o ex-presidente Lula não pudesse, não devesse ter opinião sobre fatos relevantes da vida política nacional --prerrogativa que outras togas mais serenas não contestam e legitimam. Ao jornal O Globo, na linha da frase à la carte, facilitou a manchete pronta para dissolver a terça-feira de cinzas do conservadorismo: 'O Brasil não é a Venezuela onde Chávez manda prender juiz'. O diário retribuiu a gentileza em manchete garrafal de duas linhas no alto da página. Um contrafogo sob medida à humilhante baixa no Senado. Incansável, a língua foi provendo xistes e chutes a emissários de redações sedentas, mas cometeu alguns deslizes.

Esqueceu que um pilar de sua versão sobre a famosa conversa com Lula --origem de toda celeuma que descambou em ataque à liberdade de imprensa-- residia nos pequenos detalhes que emprestam veracidade ao bom contador; um deles, o cenário: a cozinha. Teria sido naquele recinto profano do escritório do ex-ministro Nelson Jobim, abrigado de qualquer solenidade e sem a presença do anfitrião, que ocorrera o assédio moral inesperado de um Lula chantageador contra um Gilmar irretocável. 

Quadro perfeito. Exceto pelo fato de não se sustentar nem mesmo no matraquear do interessado. Sim, o mesmo magistrado suprimiu o precioso cenário despido de testemunhas na versão apresentada ao jornal Valor do dia 30-05 quando afirmou literalmente: 'Jobim esteve presente durante todo o tempo'. Como? E a cozinha? E a privacidade a dois que lubrificou o assédio de um Lula irreconhecível? 

Evaporou-se: Jobim estava presente o tempo todo. A contradição ostensiva mirava agora outro alvo: o próprio Jobim, em retribuição ao desmentido categórico do anfitrião para o relato original do episódio à VEJA. No mesmo Valor, Gilmar insinuaria contra Nelson Jobim uma suspeita de cumplicidade com Lula por ter lançado na mesa da conversa o nome de um desafeto: Paulo Lacerda. Ex-dirigente da ABIN, Lacerda foi demitido em 2008 depois que a mesma lingua togada denunciou aos mesmos parceiros da mídia uma suposta escuta da PF em seu escritório --fato nunca comprovado. Na 5ª feira (31-05) o entendimento da investida contra Jobim ficaria completo: Serra, o candidato predileto do conservadorismo, amigo de Gilmar, prestou-se à colaborar com Veja; desinteressadamente; a exemplo do que tantas vezes o fez desinteressado o também o colaborador Dadá, aparaponga de aluguel do esquema Cachoeira. Serra incitou o amigo Jobim a falar com a revista sobre o encontro. É um traço do veículo da Abril --comprovado nos documentos disponíveis na CPI do Cachoeira-- recorrer a colaboradores desse espectro para obter 'provas' que sustentem suas matérias pré-fabricadas.

Surpreendido pela trama rasteira Jobim tirou a escada de VEJA e deu troco duplo: desmentiu Gilmar no Estadão; confirmou a Monica Bergamo, da Folha, o que tantos sabem: Serra não falha; sua biografia de bastidores está, esteve e estará sempre entrelaçada a golpes e denúncias que contemplem a regressividade udenista da qual VEJA constitui a corneta mais atuante e Gilmar o novo expoente da agressividade lacerdista.

Diante do maratonismo verbal não sobraria fôlego aos jornais e jornalistas amigos para conceder ao leitor um pequeno espaço de reflexão sobre a momentosa semana final de maio, que deixa mais dúvidas do que certezas. Ademais da evanescente cozinha do escritório do ex-ministro Nelson Jobim, outros pontos de interrogação merecem retrospecto. Por exemplo: 

a) a reportagem publicada por Carta Maior no dia 29-04 " Cachoeira arruma avião para Demóstenes e 'Gilmar' --com aspas por conta da identificação incompleta do ilustre viajante e um dos motivos da fluvial verborragia togada, não tratava de pagamento de vôo a Berlim patrocinado pela 'agência de viagens' Demóstenes & Cachoeira; 

b) o texto, conciso e claro baseado em escutas públicas da PF teve como foco uma 'carona aérea' no trecho SP-Brasília, solicitada ao esquema Cachoeira para o dia 25-04 de 2011; 

c) as tratativas telefônicas da quadrilha Cachoeira apontam que os passageiros da carona viriam da Alemanha e seriam, respectivamente, Demóstenes e 'Gilmar' ; 

d) a data da chegada a São Paulo é a mesma do retorno informado pelo próprio Gilmar Mendes em seu rally jornalístico; 

e) o horário de chegada do seu vôo originário da Alemanha guarda proximidade com aquele informado à quadrilha. Essas as coincidências notáveis. A partir daí os fatos e comprovantes apresentados por Gilmar Mendes desmentem que ele tenha utilizado a dita carona solicitada à quadrilha, fato que Carta Maior noticiou imediatamente após os esclarecimentos do magistrado. O desencontro entre essas evidências e as providencias tomadas pela quadrilha Cachoeira, todavia, autoriza uma indagação que não se dissolve no aluvião verborrágico da semana, a saber: quantos Gilmares havia em Berlim com Demóstenes Torres? E, mais que isso: quem seria o 'Gilmar' cuja inclusão na carona, aparentemente desativada, não causou qualquer surpresa a Cachoeira, que nas escutas reage à menção do nome e da presença como algo se não habitual, perfeitamente compatível com a extensão de seus tentáculos e zonas de influência? 

Carta Maior reserva-se o direito de continuar praticando um jornalismo crítico e auto-crítico, comprometido única e exclusivamente com a democracia e as aspirações progressistas da sociedade brasileira, abraçadas pela ampla maioria de seus leitores. Isso naturalmente a coloca na margem oposta daqueles que até ontem consideravam Demóstenes Torres, seus valores, agendas, contas de celular e caronas em jatinhos uma referência ética e republicana. 

Fiel a esse compromisso com o leitor, Carta Maior cumpre a obrigação de manter em pauta algumas perguntas ainda sem resposta satisfatória: quantos gilmares havia em Berlim? Quantos gilmares havia no escritório de Jobim (um na cozinha e um na sala)? E, ainda mais urgente, quantas ameaças de fuzilamento da liberdade de expressão serão necessárias para que os partidos democráticos e o governo tomem a iniciativa de desautorizar a língua arvorada em extensão da toga? Não só em palavras, mas sobretudo na impostergável democratização afirmativa da publicidade oficial, antes que novos e velhos caçadores de jornalistas consigam transformá-la em mais um torniquete da pluralidade de opinião.

sexta-feira, 1 de junho de 2012

Žižek: A Europa e os gregos: Deus nos salve dos salvadores!


Imagine uma cena de um filme distópico que mostre nossa sociedade num futuro próximo. Guardas uniformizados patrulham ruas semivazias dos centros das cidades, à caça de imigrados, criminosos e desocupados. Os que encontram, os guardas espancam. O que parece fantasia de Hollywood já é realidade hoje, na Grécia.
Durante a noite, vigilantes uniformizados com as camisas negras do partido neofascista Golden Dawn [Aurora Dourada], de negadores do Holocausto –, que receberam 7% dos votos no segundo turno das eleições gregas e que contam com o apoio, como ouve-se pela cidade, de 50% da Polícia de Atenas – patrulham as ruas, espancando todos os imigrados que cruzem seu caminho: afegãos, paquistaneses, argelinos. É como a Europa defende-se hoje, na primavera de 2012.
O problema de defender a civilização europeia contra a ameaça dos imigrantes é que a ferocidade com que os defensores europeus defendem-se é ameaça muito maior a qualquer ‘civilização’, que qualquer tipo de invasão de muçulmanos, e ainda que todos os muçulmanos decidissem mudar-se para a Europa. Com defensores como esses, a Europa não precisa de inimigos. 
Há cem anos, G.K. Chesterton deu forma articulada ao impasse em que se metem todos os que criticam a religião:
“Homens que se ponham a combater igrejas em nome da liberdade e da humanidade espantam de si mesmos a liberdade e a humanidade, no momento em que atacam a primeira igreja (...). Os secularistas não provocaram o naufrágio das coisas divinas; só fizeram naufragar coisas seculares... se isso lhes serve de consolo”.  [1]
(Gilbert K. Charleston)
Tantos guerreiros liberais andam tão furiosamente decididos a combater o fundamentalismo não democrático, que acabam esquecendo qualquer liberdade e qualquer democracia, tudo em nome de combater o terror. Se os “terroristas” só pensam e fazer naufragar esse nosso mundo por amor pelo outro mundo, os nossos guerreiros antiterror só pensam em por a pique qualquer democracia, por ódio ao próximo muçulmano. Alguns deles são tão perdidamente apaixonados, fanatizados pela dignidade humana [e, no Brasil, pela chamada “ética”], que chegam a legalizar a tortura... para defender a dignidade humana. É a inversão do processo pelo qual os fanáticos defensores da religião começaram por atacar a cultura secular contemporânea e acabaram por sacrificar até as próprias credenciais religiosas, na ânsia de erradicar todos os aspectos que odeiam no secularismo.
Mas os defensores que insistem em defender a Grécia contra imigrantes não são o principal perigo: não passam de subproduto do perigo muito maior, da ameaça mãe de todas as ameaças: a política de “austeridade” que causou a desgraça da Grécia. As próximas eleições na Grécia estão marcadas para dia 17 de junho.
O establishment europeu alerta que são eleições cruciais: não estaria em jogo só o destino da Grécia, mas o destino de toda a Europa. Um resultado – o correto, segundo eles – levará ao processo doloroso,. mas necessário de recuperação, pela austeridade, para continuar. A alternativa – no caso de vitória do Partido Syriza, de “extrema esquerda” – seria votar pelo caos, pelo fim do mundo (europeu) como o conhecemos.
Syriza
Os profetas do apocalipse estão corretos, mas não como supõem ou pretendem. Críticos dos arranjos democráticos hoje vigentes reclamam que as eleições não oferecem opção real: votamos para escolher apenas entre uma centro-direita e uma centro-esquerda cujos programas são quase absolutamente idênticos. Mas dia 17 de junho, afinal, haverá escolha significativa: de um lado o establishment (Nova Democracia e Pasok); do outro lado, a Coalizão Syriza. E, como acontece quase sempre em que haja escolhas reais no mercado eleitoral, oestablishment está em pânico: caos, pobreza e violência eclodirão imediatamente, dizem, se os eleitores escolherem “errado”. A mera possibilidade de vitória da Coalizão Syriza, como se ouve, já dispara convulsões de medo nos mercados. A prosopopéia ideológica é rampante: os mercados falam como se fossem gente, manifestam “preocupação” pelo que acontecerá se as eleições não produzirem governo com mandato para manter o programa de austeridade e reformas estruturais de UE-FMI. Os cidadãos gregos não têm tempo para pensar nas preocupações “dos mercados”: mal conseguem ter tempo para preocupar-se com a sobrevivência diária, numa vida que já alcança graus de miséria que não se viam na Europa há décadas.
Todas essas são previsões enunciadas para se autocumprirem, causar mais pânico e, assim, forçar as coisas a andarem na direção “prevista”. Se a Coalizão Syriza vencer, o establishment europeu ficará à espera de que nós aprendamos com nossos erros o que acontece quando alguém tenta interromper, por via democrática, o ciclo vicioso de cumplicidade bandida, entre os tecnocratas de Bruxelas e a demagogia suicida do populismo anti-imigrantes.
Alexis Tsipras
Foi exatamente o que disse Alexis Tsipras, candidato da Coalizão Syriza, em entrevista recente: que sua prioridade absoluta, no caso de sua coalizão vencer as eleições, será conter o pânico: “Os gregos derrotarão o medo. Não sucumbirão. Não se deixarão chantagear.”
A tarefa da Coalizão Syriza é quase impossível. A coalizão não traz a voz da “loucura” da extrema esquerda, mas a voz do falar racional contra a loucura da ideologia dos mercados. No movimento de prontidão para assumir o governo da Grécia, já derrotaram o medo de governar, tão característico do “esquerdismo”; já mostraram que não temem fazer a faxina do quadro confuso que herdarão. Terão de mostrar-se capazes de montar e cumprir uma formidável combinação de princípios e pragmatismo; de compromisso democrático e presteza para intervir com firmeza onde seja preciso. Para que tenham uma mínima chance de sucesso, precisarão de toda a solidariedade dos povos europeus; não só de respeito e tratamento decente pelos demais países europeus, mas, também, de ideias mais criativas – como a de um “turismo solidário” nesse verão, que já propuseram.
T. S. Eliot
Em suas Notes towards the Definition of Culture, T.S. Eliot [2] observou que há momentos em que a única escolha é entre a heresia e o não crer – i.é, quando o único meio para manter viva uma religião é promover uma divisão de seitas. Essa é, hoje, a posição em que está a Europa. Só uma nova “heresia” – representada hoje pela Coalizão Syriza – pode salvar o que valha a pena salvar do legado europeu: a democracia, a confiança no voto do povo, a solidariedade igualitária etc. A Europa que haverá para nós, se a Coalizão Syriza for descartada, é uma “Europa com valores asiáticos” – os quais, é claro, nada têm a ver com a Ásia, e tem tudo a ver com a tendência do capitalismo contemporâneo, para suspender a democracia.
Eis o paradoxo que mantém o “voto livre” nas sociedades democráticas: cada um é livre para escolher, desde que faça a escolha certa. Por isso, quando se faz a escolha errada (como quando a Irlanda rejeitou a Constituição da União Europeia), a escolha é tratada como erro; e o establishment imediatamente exige que se repita o processo “democrático”, para que o erro seja reparado.
Quando George Papandreou, então primeiro-ministro grego, propôs um referendo sobre a proposta de resgate que a Eurozona apresentara no final do ano passado, até o referendo foi descartado como falsa escolha.
Há duas principais narrativas na mídia, sobre a crise grega: a narrativa alemã-europeia (os gregos são irresponsáveis, preguiçosos, gastadores, não pagam impostos etc.; e têm de ser postos sob controle, com aulas de disciplina financeira); e a narrativa grega (nossa soberania nacional está ameaçada pelo tecnologia neoliberal imposta por Bruxelas).
Quando se tornou impossível ignorar o suplício do povo grego, emergiu uma terceira narrativa: os gregos estão sendo apresentados hoje como vítimas de desastre humanitário, carentes de ajuda, como se alguma guerra ou catástrofe natural tivesse atingido o país.
As três são falsas narrativas, mas a terceira parece ser a mais repugnante. Os gregos não são vítimas passivas. Os gregos estão em guerra contra o establishment econômico europeu. Precisam de solidariedade nessa luta, porque a luta dos gregos é a luta de todos nós.
A Grécia não é exceção. É mais uma, dentre várias pistas de testes de um novo modelo socioeconômico de aplicação quase ilimitada: uma tecnocracia despolitizada, na qual banqueiros e outros especialistas ganham carta branca para demolir a democracia.
Ao salvar a Grécia de seus ditos “salvadores”, salvaremos também a Europa.
Notas dos tradutores
[1]  CHESTERTON, Gilbert K., Orthodoxy [1908], “VIII: The Romance of Orthodoxy”, em inglês.
[2] ELIOT, T. S. - Notas para uma definição de cultura. Lisboa: Século XXI, 1996.