segunda-feira, 23 de novembro de 2009
Amigo da Onça
Já tem algum tempo que estou para escrever sobre Ciro Gomes. Com um amigo desses, ninguém precisa de inimigo. Ciro quer porque quer ser candidato à presidência da República. Mesmo fazendo parte do governo Lula desde o primeiro dia e estando num partido que só conseguiu alguma visibilidade nacional se agarrando ao PT, Ciro Gomes não titubeia em dizer que por ora não apóia a candidatura da ministra chefe do Gabinete Civil Dilma Rousseff.
Para Ciro não importa se o PT já definiu – na verdade quem definiu foram Lula e o alto comando do partido, mas isso é história pra outra hora – que Dilma Rousseff será a presidenciável do governo na eleição do próximo ano. Ciro quer porque quer ser candidato.
Alguém postular ou mesmo se candidatar a qualquer cargo é algo democraticamente legitimo. Todavia não esse o problema. O problema é Ciro Gomes vir a público e dizer que não será candidato caso o governador mineiro Aécio Neves seja o candidato do PSDB, ou seja, Ciro não apóia a candidata do governo do qual faz parte, mas apóia o candidato da oposição, se esse for o Aécio.
Estranho, não?
É bom lembrar que Ciro Gomes realmente está acostumado a declarações e atos, digamos, esquizofrênicos.
Em 2002 combatia ferozmente o governo FFHH imputando-lhe a marca de governo inundado pela corrupção que teria se alastrado durante o processo de privatizações, incompetência no gerenciamento da economia e omissão frente à desigualdade social. Ainda assim declarou que não seria candidato, à época encontrava-se no PPS de Roberto Freire, caso o nome do PSDB para a sucessão de FFHH fosse o de Tasso Jereissaty. Como assim? Ciro Gomes estava na oposição, em 1998 já havia sido presidenciável batendo duro no governo FFHH, contudo estava disposto a apoiar um tucano – na verdade seu padrinho político com o qual dividi o Ceará até hoje –, que na prática continuaria a mesma política econômica e social de FFHH. Parece que coerência e Ciro Gomes formam um dualismo.
Aliás, Ciro Gomes foi um tucano de alta plumagem, chegando inclusive a ser ministro da Fazenda durante o mandato de FFHH como primeiro-ministro do pseudo-governo Itamar Franco. Nessa época chegou-se a dizer que em 1998 ou mais adiante seria o candidato natural dentro do PSDB à presidência da República. Não foi candidato e sentiu-se enganado por FFHH após o golpe da reeleição. Outros enganados naquela ocasião foram o próprio Itamar Franco e de certo modo Mário Covas. Ciro Gomes então tornou-se um tucano dissidente e não é mais que isso na política nacional. Talvez também pese ali um pouco de oportunismo. Enquanto esteve no PPS não teve pudor de se aliar com o que há de mais reacionário e rasteiro na política tupiniquim e durante a campanha presidencial de 2002 literalmente beijou a mão de ACM. Naquele ano um dos coordenadores de sua campanha foi Herr Jorge “Essa Gente” Bornhausen.
Como escrevi no começo do texto, com um amigo desses ninguém precisa de inimigo.
Para Ciro não importa se o PT já definiu – na verdade quem definiu foram Lula e o alto comando do partido, mas isso é história pra outra hora – que Dilma Rousseff será a presidenciável do governo na eleição do próximo ano. Ciro quer porque quer ser candidato.
Alguém postular ou mesmo se candidatar a qualquer cargo é algo democraticamente legitimo. Todavia não esse o problema. O problema é Ciro Gomes vir a público e dizer que não será candidato caso o governador mineiro Aécio Neves seja o candidato do PSDB, ou seja, Ciro não apóia a candidata do governo do qual faz parte, mas apóia o candidato da oposição, se esse for o Aécio.
Estranho, não?
É bom lembrar que Ciro Gomes realmente está acostumado a declarações e atos, digamos, esquizofrênicos.
Em 2002 combatia ferozmente o governo FFHH imputando-lhe a marca de governo inundado pela corrupção que teria se alastrado durante o processo de privatizações, incompetência no gerenciamento da economia e omissão frente à desigualdade social. Ainda assim declarou que não seria candidato, à época encontrava-se no PPS de Roberto Freire, caso o nome do PSDB para a sucessão de FFHH fosse o de Tasso Jereissaty. Como assim? Ciro Gomes estava na oposição, em 1998 já havia sido presidenciável batendo duro no governo FFHH, contudo estava disposto a apoiar um tucano – na verdade seu padrinho político com o qual dividi o Ceará até hoje –, que na prática continuaria a mesma política econômica e social de FFHH. Parece que coerência e Ciro Gomes formam um dualismo.
Aliás, Ciro Gomes foi um tucano de alta plumagem, chegando inclusive a ser ministro da Fazenda durante o mandato de FFHH como primeiro-ministro do pseudo-governo Itamar Franco. Nessa época chegou-se a dizer que em 1998 ou mais adiante seria o candidato natural dentro do PSDB à presidência da República. Não foi candidato e sentiu-se enganado por FFHH após o golpe da reeleição. Outros enganados naquela ocasião foram o próprio Itamar Franco e de certo modo Mário Covas. Ciro Gomes então tornou-se um tucano dissidente e não é mais que isso na política nacional. Talvez também pese ali um pouco de oportunismo. Enquanto esteve no PPS não teve pudor de se aliar com o que há de mais reacionário e rasteiro na política tupiniquim e durante a campanha presidencial de 2002 literalmente beijou a mão de ACM. Naquele ano um dos coordenadores de sua campanha foi Herr Jorge “Essa Gente” Bornhausen.
Como escrevi no começo do texto, com um amigo desses ninguém precisa de inimigo.
quarta-feira, 18 de novembro de 2009
Sabesp: Mais um exemplo do choque de gestão e do gerenciamento tucano
Vocês se lembram quando a Petrobrás era administrada pelos tucanos? Acidentes ambientais eram corriqueiros e a empresa não era um décimo do que é hoje em valor de mercado ou em liderança tecnológica. E a Caixa Econômica Federal, como era a sua administração? Um banco de fomentação e com forte vetor para o setor social, com financiamento de casas próprias, por exemplo, ou apenas um banco de negócios voltado para capitalização e lucro? Poderia citar outros mil exemplos como empresas estatais que os tucanos não souberam administrar ou então que simplesmente privatizaram. Mas o que quero hoje é outra coisa.
Vejam só o que os tucanos paulistas estão fazendo com uma das poucas empresas que não doaram à iniciativa privada. O texto foi retirado InfoMoney , [http://web.infomoney.com.br/] um site ligado ao mercado de ações que pode ser acusado de tudo, menos de estar a trabalho do petismo como o governador José Serra gosta de acusar alguém que não lhe dá a notícia que gostaria de ouvir.
Sabesp traz resultado abaixo do esperado e ações têm pior desempenho do Ibovespa
Por: Equipe InfoMoney
17/11/09 - 19h46
InfoMoney
http://web.infomoney.com.br/templates/news/view_rss.asp?codigo=1720524&path=/investimentos/
SÃO PAULO - Após o fechamento dos mercados na véspera, a Sabesp (SBSP3) apresentou seu resultado trimestral, com números piores que o esperado, na avaliação da Link Investimentos, contribuindo para que as ações da companhia sejam destaque de queda nesta terça-feira (17).
Por conta do desempenho decepcionante no trimestre, os papéis da Sabesp registraram a maior desvalorização do Ibovespa nesta sessão, fechando com forte queda de 4,27%, sendo cotados a R$ 33,65, ao passo que o índice paulista encerrou o dia com ganhos de 1,17%.
O resultado
O balanço da empresa mostrou um lucro líquido de R$ 195,7 milhões no período entre julho e setembro, desempenho 15,3% inferior em relação aos mesmos meses de 2008. A mesma tendência também foi vista no seu Ebitda (geração operacional de caixa), que recuou 11,5% na mesma base comparativa. Contudo, a receita líquida conseguiu apresentar leve evolução de 2,3%, totalizando R$ 1,629 bilhão.
De acordo com os analistas da Link, um dos principais responsáveis por essa queda de desempenho foi a evolução dos custos e despesas da Sabesp durante o período, que registraram crescimento de 11,1% em comparação ao mesmo quarto do ano passado. "Grande parte desse avanço deve-se ao aumento de 36,7% dos serviços de terceiros", diz a equipe de análise, esperando que essas despesas sejam recorrentes nos próximos resultados.
Os especialistas da corretora destacam ainda o grande crescimento de 24% das despesas gerais da companhia na mesma base comparativa, principalmente por conta do aumento de provisão para contingências. Com essa trajetória ascendente nos custos, a margem Ebitda ficou em 37,9% no trimestre, 4,7 pontos percentuais aquém da expectativa da Link.
Variação cambial afeta lucro
Outro fator negativo visto no relatório da equipe de análise foram os ganhos da Sabesp durante o terceiro quarto. Por conta das despesas financeiras e da variação cambial maior do que a esperada pela corretora, os ganhos da companhia foram 46,9% abaixo do lucro líquido projetado por ela.
Vejam só o que os tucanos paulistas estão fazendo com uma das poucas empresas que não doaram à iniciativa privada. O texto foi retirado InfoMoney , [http://web.infomoney.com.br/] um site ligado ao mercado de ações que pode ser acusado de tudo, menos de estar a trabalho do petismo como o governador José Serra gosta de acusar alguém que não lhe dá a notícia que gostaria de ouvir.
Sabesp traz resultado abaixo do esperado e ações têm pior desempenho do Ibovespa
Por: Equipe InfoMoney
17/11/09 - 19h46
InfoMoney
http://web.infomoney.com.br/templates/news/view_rss.asp?codigo=1720524&path=/investimentos/
SÃO PAULO - Após o fechamento dos mercados na véspera, a Sabesp (SBSP3) apresentou seu resultado trimestral, com números piores que o esperado, na avaliação da Link Investimentos, contribuindo para que as ações da companhia sejam destaque de queda nesta terça-feira (17).
Por conta do desempenho decepcionante no trimestre, os papéis da Sabesp registraram a maior desvalorização do Ibovespa nesta sessão, fechando com forte queda de 4,27%, sendo cotados a R$ 33,65, ao passo que o índice paulista encerrou o dia com ganhos de 1,17%.
O resultado
O balanço da empresa mostrou um lucro líquido de R$ 195,7 milhões no período entre julho e setembro, desempenho 15,3% inferior em relação aos mesmos meses de 2008. A mesma tendência também foi vista no seu Ebitda (geração operacional de caixa), que recuou 11,5% na mesma base comparativa. Contudo, a receita líquida conseguiu apresentar leve evolução de 2,3%, totalizando R$ 1,629 bilhão.
De acordo com os analistas da Link, um dos principais responsáveis por essa queda de desempenho foi a evolução dos custos e despesas da Sabesp durante o período, que registraram crescimento de 11,1% em comparação ao mesmo quarto do ano passado. "Grande parte desse avanço deve-se ao aumento de 36,7% dos serviços de terceiros", diz a equipe de análise, esperando que essas despesas sejam recorrentes nos próximos resultados.
Os especialistas da corretora destacam ainda o grande crescimento de 24% das despesas gerais da companhia na mesma base comparativa, principalmente por conta do aumento de provisão para contingências. Com essa trajetória ascendente nos custos, a margem Ebitda ficou em 37,9% no trimestre, 4,7 pontos percentuais aquém da expectativa da Link.
Variação cambial afeta lucro
Outro fator negativo visto no relatório da equipe de análise foram os ganhos da Sabesp durante o terceiro quarto. Por conta das despesas financeiras e da variação cambial maior do que a esperada pela corretora, os ganhos da companhia foram 46,9% abaixo do lucro líquido projetado por ela.
terça-feira, 17 de novembro de 2009
Opera Mundi
É muito bom quando descobrimos algum novo espaço na internet onde se cultiva a inteligência. Acabo de descobrir o Opera Mundi e divido com vocês esse ótimo artigo sobre os vinte anos da queda do Muro do Berlim.
Boa leitura!
O mito do muro
Por Breno Altman, no Opera Mundi
http://www.operamundi.com.br/opiniao_ver.php?idConteudo=1003
O noticiário internacional esteve marcado, nos últimos dias, pelas festividades comemorativas dos 20 anos da queda do Muro de Berlim. A maioria da imprensa celebrou o evento com galhardia. Trata-se, afinal, do símbolo mais emblemático da derrocada do socialismo e da possibilidade histórica de qualquer sistema distinto do capitalismo triunfante.
A conjugação de uma incrível máquina de propaganda com o complexo de vira-lata comum aos perdedores foi capaz de atrair para essa comemoração amplos setores progressistas e de esquerda, que simplesmente mandaram às favas qualquer espírito crítico. Alguns porque honestamente concordam com a retórica sobre o muro maligno. Outros porque temem ser apontados como antidemocráticos e fora de moda.
A submissão intelectual chega ao ponto de não se questionar sequer a legitimidade dos grandes agitadores contra a obra do mal. Onde está a autoridade dos Estados Unidos e seus meios de comunicação? No muro da morte que separa seu território dos aliados mexicanos, matando por ano os 80 caídos durante três décadas na Berlim dividida? Na base de Guantánamo, onde centenas de muçulmanos estão presos sem o devido processo legal e são sistematicamente torturados? Ou teria a Europa ocidental mais credibilidade, com sua política discriminatória contra os imigrantes? Ou ainda Israel e os grupos sionistas, pródigos em adotar práticas de “pogrom” contra os palestinos?
A lista de participantes desse festim é bastante longa, vários com muitas contas a acertar, e de cada qual deveria ser solicitado o devido atestado de idoneidade. Não é o caso, obviamente, de se justificar um pecado com outro, mas evitar comportamentos desprovidos de análise histórica. Olhar ao lado de quem se está marchando já é um bom começo de reflexão.
O Muro de Berlim costuma ser apresentado, pelos campeões da liberdade, como produto de um sistema político tirânico, cuja natureza seria a divisão dos povos e sua subordinação ao tacape de uma ideologia totalitária. Os fatos que lhe deram origem há muito foram subtraídos da informação cotidiana.
Quando terminou a 2ª Guerra Mundial, a Alemanha foi dividida em quatro zonas de influência, entre norte-americanos, ingleses, franceses e soviéticos. A capital histórica, Berlim, pertencente ao território controlado pelo Exército Vermelho, acabou igualmente repartida em áreas controladas pelos países vitoriosos.
Reconstrução europeia
Quem se der ao trabalho de ler as atas das conferências de Ialta, Potsdam e Teerã, se dará conta que Moscou era contrário a essa divisão. Sua proposta era dotar a Alemanha de um governo provisório, sem divisão do território, que organizasse em dois anos um processo eleitoral nacional. Os demais aliados, temerosos que o país caísse nas mãos dos comunistas, exigiram o modelo adotado.
A União Soviética acatou, depois que viu garantido seu direito de hegemonia sobre os demais países fronteiriços, além de preservado seu controle militar sobre a antiga Prússia Oriental. Em nome de sua política de segurança e da manutenção da aliança que derrotou o nazismo, abdicou de parte da sua influência na porção ocidental da Alemanha e do antigo Império Austro-Húngaro, apesar de os comunistas já serem maioria na Áustria.
Outro compromisso que constava da agenda pós-guerra era a constituição de um fundo mundial para a reconstrução europeia. O papel principal, nesse trâmite, cabia aos Estados Unidos, a potência que menos havia sofrido com o esforço de combate, cuja economia havia sido vitaminada pelo conflito e dispunha de imensos recursos financeiros.
Mas a vitória eleitoral dos comunistas na então Tchecoslováquia, seguida de resultados espetaculares na Itália e França, em 1946, provocou uma reviravolta. A Casa Branca decidiu-se por quebrar o pacto da reconstrução e inundar de financiamento apenas sua área de influência, dando origem ao Plano Marshall em 1947. Cerca de 140 bilhões de dólares, em valores atualizados, foram injetados no ocidente europeu.
Tinha início a chamada Guerra Fria, antecipada, em março de 1946, pelo famoso discurso de Winston Churchill em Fulton. A União Soviética, que havia arcado com um incalculável custo humano e material ao ser o grande vetor da vitória contra Hitler, passou a enfrentar uma outra guerra, financeira e de sabotagem, contra suas posições. Especialmente na Alemanha Oriental, constituída em 1949 como República Democrática da Alemanha.
A estratégia norte-americana era roubar os melhores profissionais alemães, atrai-los a peso de ouro a partir de sua cabeça-de-ponte em Berlim Ocidental, que recebia aportes formidáveis para ser exibida como vitrine esplendorosa da pujança capitalista. A fuga de cérebros e braços asfixiava a jovem RDA, que pouco podia contar com a ajuda material soviética, pois estava o Kremlin às voltas com o dificílimo reerguimento do próprio país.
Foram mais de 12 anos em uma batalha árdua e desigual. A URSS tinha quebrado a máquina de guerra do nazismo, retesando cada músculo e cada nervo da nação, e se via diante de uma situação que poderia levar à desestabilização de suas fronteiras, exatamente a aposta maior da Casa Branca.
Essa escalada teve seu desfecho no dia 13 de agosto de 1961, data inaugural do Muro de Berlim.
Economia ferida
O fluxo entre os dois países e as duas áreas da antiga capital foi militarmente interrompido e obstaculizado por uma construção que chegou a ter 66,5 km de redeamento metálico e murado. Famílias e amigos foram separados por quase 30 anos. Aprofundou-se a fratura entre ocidente e oriente na Europa. Uma nação histórica foi dividida. Oitenta pessoas morreram e 142 ficaram feridas ao tentar ultrapassar o muro, finalmente derrubado em 1989.
Sua construção foi um ato de guerra, mas de caráter defensivo. As hostilidades e operações de sabotagem, que impediram a permanência de uma Alemanha unida e a coexistência pacífica de dois sistemas, foram iniciadas pelas potências que romperam o acordo de paz, impondo ao leste europeu e socialista, com sua economia ferida pela guerra, um longo estado de exceção.
Claro, havia outras alternativas. A URSS e seus aliados poderiam, por exemplo, ter capitulado de antemão à ideia de desenvolver outro sistema de produção e poder, pois era essa tentativa dissidente o motivo da Guerra Fria. Afinal, não foi assim que tudo terminou, lá se vão 20 anos?
Mas com seus erros e seus acertos, suas glórias e seus desastres, seus feitos e até seus crimes, o socialismo foi, durante gerações, a bandeira e o sonho de povos que aceitaram pagar com sacrifício, dor e sangue por um outro mundo possível. Teria sido impensável, se assim não fosse, a extraordinária vitória na guerra de trinta anos que vai da Revolução Russa à caída de Berlim nas mãos do Exército Vermelho, em 1945.
O muro de Berlim talvez tenha sido apenas a criatura disforme de um processo no qual seus protagonistas tiveram que enfrentar circunstâncias e teatros de batalha escolhidos, no fundamental, por inimigos poderosos. De certo modo foi, durante décadas, marco de resistência e de equilíbrio entre dois sistemas. Caiu quando a força propulsora de um dos lados já tinha se esgotado. O resto é a mitologia dos vencedores.
Breno Altman é jornalista e diretor de redação do Opera Mundi.
Boa leitura!
O mito do muro
Por Breno Altman, no Opera Mundi
http://www.operamundi.com.br/opiniao_ver.php?idConteudo=1003
O noticiário internacional esteve marcado, nos últimos dias, pelas festividades comemorativas dos 20 anos da queda do Muro de Berlim. A maioria da imprensa celebrou o evento com galhardia. Trata-se, afinal, do símbolo mais emblemático da derrocada do socialismo e da possibilidade histórica de qualquer sistema distinto do capitalismo triunfante.
A conjugação de uma incrível máquina de propaganda com o complexo de vira-lata comum aos perdedores foi capaz de atrair para essa comemoração amplos setores progressistas e de esquerda, que simplesmente mandaram às favas qualquer espírito crítico. Alguns porque honestamente concordam com a retórica sobre o muro maligno. Outros porque temem ser apontados como antidemocráticos e fora de moda.
A submissão intelectual chega ao ponto de não se questionar sequer a legitimidade dos grandes agitadores contra a obra do mal. Onde está a autoridade dos Estados Unidos e seus meios de comunicação? No muro da morte que separa seu território dos aliados mexicanos, matando por ano os 80 caídos durante três décadas na Berlim dividida? Na base de Guantánamo, onde centenas de muçulmanos estão presos sem o devido processo legal e são sistematicamente torturados? Ou teria a Europa ocidental mais credibilidade, com sua política discriminatória contra os imigrantes? Ou ainda Israel e os grupos sionistas, pródigos em adotar práticas de “pogrom” contra os palestinos?
A lista de participantes desse festim é bastante longa, vários com muitas contas a acertar, e de cada qual deveria ser solicitado o devido atestado de idoneidade. Não é o caso, obviamente, de se justificar um pecado com outro, mas evitar comportamentos desprovidos de análise histórica. Olhar ao lado de quem se está marchando já é um bom começo de reflexão.
O Muro de Berlim costuma ser apresentado, pelos campeões da liberdade, como produto de um sistema político tirânico, cuja natureza seria a divisão dos povos e sua subordinação ao tacape de uma ideologia totalitária. Os fatos que lhe deram origem há muito foram subtraídos da informação cotidiana.
Quando terminou a 2ª Guerra Mundial, a Alemanha foi dividida em quatro zonas de influência, entre norte-americanos, ingleses, franceses e soviéticos. A capital histórica, Berlim, pertencente ao território controlado pelo Exército Vermelho, acabou igualmente repartida em áreas controladas pelos países vitoriosos.
Reconstrução europeia
Quem se der ao trabalho de ler as atas das conferências de Ialta, Potsdam e Teerã, se dará conta que Moscou era contrário a essa divisão. Sua proposta era dotar a Alemanha de um governo provisório, sem divisão do território, que organizasse em dois anos um processo eleitoral nacional. Os demais aliados, temerosos que o país caísse nas mãos dos comunistas, exigiram o modelo adotado.
A União Soviética acatou, depois que viu garantido seu direito de hegemonia sobre os demais países fronteiriços, além de preservado seu controle militar sobre a antiga Prússia Oriental. Em nome de sua política de segurança e da manutenção da aliança que derrotou o nazismo, abdicou de parte da sua influência na porção ocidental da Alemanha e do antigo Império Austro-Húngaro, apesar de os comunistas já serem maioria na Áustria.
Outro compromisso que constava da agenda pós-guerra era a constituição de um fundo mundial para a reconstrução europeia. O papel principal, nesse trâmite, cabia aos Estados Unidos, a potência que menos havia sofrido com o esforço de combate, cuja economia havia sido vitaminada pelo conflito e dispunha de imensos recursos financeiros.
Mas a vitória eleitoral dos comunistas na então Tchecoslováquia, seguida de resultados espetaculares na Itália e França, em 1946, provocou uma reviravolta. A Casa Branca decidiu-se por quebrar o pacto da reconstrução e inundar de financiamento apenas sua área de influência, dando origem ao Plano Marshall em 1947. Cerca de 140 bilhões de dólares, em valores atualizados, foram injetados no ocidente europeu.
Tinha início a chamada Guerra Fria, antecipada, em março de 1946, pelo famoso discurso de Winston Churchill em Fulton. A União Soviética, que havia arcado com um incalculável custo humano e material ao ser o grande vetor da vitória contra Hitler, passou a enfrentar uma outra guerra, financeira e de sabotagem, contra suas posições. Especialmente na Alemanha Oriental, constituída em 1949 como República Democrática da Alemanha.
A estratégia norte-americana era roubar os melhores profissionais alemães, atrai-los a peso de ouro a partir de sua cabeça-de-ponte em Berlim Ocidental, que recebia aportes formidáveis para ser exibida como vitrine esplendorosa da pujança capitalista. A fuga de cérebros e braços asfixiava a jovem RDA, que pouco podia contar com a ajuda material soviética, pois estava o Kremlin às voltas com o dificílimo reerguimento do próprio país.
Foram mais de 12 anos em uma batalha árdua e desigual. A URSS tinha quebrado a máquina de guerra do nazismo, retesando cada músculo e cada nervo da nação, e se via diante de uma situação que poderia levar à desestabilização de suas fronteiras, exatamente a aposta maior da Casa Branca.
Essa escalada teve seu desfecho no dia 13 de agosto de 1961, data inaugural do Muro de Berlim.
Economia ferida
O fluxo entre os dois países e as duas áreas da antiga capital foi militarmente interrompido e obstaculizado por uma construção que chegou a ter 66,5 km de redeamento metálico e murado. Famílias e amigos foram separados por quase 30 anos. Aprofundou-se a fratura entre ocidente e oriente na Europa. Uma nação histórica foi dividida. Oitenta pessoas morreram e 142 ficaram feridas ao tentar ultrapassar o muro, finalmente derrubado em 1989.
Sua construção foi um ato de guerra, mas de caráter defensivo. As hostilidades e operações de sabotagem, que impediram a permanência de uma Alemanha unida e a coexistência pacífica de dois sistemas, foram iniciadas pelas potências que romperam o acordo de paz, impondo ao leste europeu e socialista, com sua economia ferida pela guerra, um longo estado de exceção.
Claro, havia outras alternativas. A URSS e seus aliados poderiam, por exemplo, ter capitulado de antemão à ideia de desenvolver outro sistema de produção e poder, pois era essa tentativa dissidente o motivo da Guerra Fria. Afinal, não foi assim que tudo terminou, lá se vão 20 anos?
Mas com seus erros e seus acertos, suas glórias e seus desastres, seus feitos e até seus crimes, o socialismo foi, durante gerações, a bandeira e o sonho de povos que aceitaram pagar com sacrifício, dor e sangue por um outro mundo possível. Teria sido impensável, se assim não fosse, a extraordinária vitória na guerra de trinta anos que vai da Revolução Russa à caída de Berlim nas mãos do Exército Vermelho, em 1945.
O muro de Berlim talvez tenha sido apenas a criatura disforme de um processo no qual seus protagonistas tiveram que enfrentar circunstâncias e teatros de batalha escolhidos, no fundamental, por inimigos poderosos. De certo modo foi, durante décadas, marco de resistência e de equilíbrio entre dois sistemas. Caiu quando a força propulsora de um dos lados já tinha se esgotado. O resto é a mitologia dos vencedores.
Breno Altman é jornalista e diretor de redação do Opera Mundi.
segunda-feira, 16 de novembro de 2009
Canal Livre e Band, até onde irão?
Isso é uma vergonha!!! É com o célebre jargão de Boris Casoy que começo a escrever essas linhas. Afinal o Canal Livre da Band de ontem (15/11/2009) não passou dum festival de ataques ao governo federal, ao PT e a pessoa do Presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
O programa anunciou que trataria dos vinte anos da primeira eleição presidencial direta pós-1964, mas o que vi ali foram ataques torpes como mencionei acima e uma comparação entre as personalidades/governo de Collor (1990-1992) e de Lula (2003-2009), como se entre ambos nunca houvesse existido o governo tampão e debiloide de Itamar Franco com Fernando Henrique Cardoso na função (extra-oficial) de primeiro-ministro e depois mais oito anos de presidência do próprio FFHH.
Mas o que importava ali era apenas aproximar Collor e Lula e mostrar o quão perversos foram e são para a democracia brasileira. Lula foi durante todo o tempo tratado como general de um enorme exército de corruptos que aparelharam o Estado apoderando-se da burocracia estatal para controlá-la e encher as burras de dinheiro.
Os quatro cães de guarda – expressão sartreana para designar os pseudo-intelectuais defensores do estabilishment – membros da mesa, Boris Casoy, Antonio Teles, Fernando Mitre e Joelmir Betting acusaram o Presidente Lula de pragmatismo exasperado e sem limites, de promover o maior sistema de corrupção da História do Brasil, de ser leniente com o tráfico de influência, de aparelhamento do Estado e de nas “sábias” palavras de Antonio Teles, tratar o país como propriedade privada. Ah! claro, o Presidente Lula também foi acusado pelas dez pragas do Egito.
De resto fiquei esperando, sentado, na noite de ontem um debate de altíssimo nível sobre a eleição de 1989, uma divisão de águas dentro de nossa História republicana e tudo o que ocorreu no Brasil nos últimos vinte anos.
Aliás, ainda aproveitaram o programa (não seria sobre os vinte anos da eleição de 1989?), com reportagem requentada, para repercutir um pouco mais sobre o apagão de terça-feira passada e cutucar a ministra Dilma Rousseff.
Voltando a mesa com os sabujos, após a atuação de ontem Antonio Melo se candidatou simultaneamente a dois prêmios de peso. O de melhor desempenho como viúva de FFHH e o de melhor “cão de guarda” do ano. O nobre jornalista chegou inclusive a duvidar se o PT realmente colocará na rua o plano de comparar o governo Lula ao governo FFHH depois do “apagão” de terça-feira. Parece brincadeira, mas juro que Teles falou isso. A comparação entre os dois últimos governos será tão obvia e tão desgastante para o lado dos tucanos que até o insuspeito Aécio Neves assumiu isso durante a semana, segundo a igualmente insuspeita Folha de São Paulo.
A Band, assim como os demais veículos da mídia oligopolizada, já está escancaradamente em campanha pelo governador José Serra. Basta ver o modo como trataram o acidente no Rodoanel em São Paulo. Ali, nas palavras de José Luiz Datena, foi um acidente terrível, contudo o governo estadual já estava tomando as devidas providencias. Na hora me veio à cabeça o que o mesmo Datena disse em julho de 2007 quando centenas de pessoas morreram a bordo dum avião da TAM – que por sinal durante anos foi parceira da Band em transmissões esportivas – culpando o governo federal.
É bom lembrar que a Band pertence ao Grupo Bandeirantes, cujo dono João Carlos Saad, que prefere ser chamado de Johnny, recentemente tentou insuflar, em editorial lido por todos os meios de comunicação do grupo, ruralistas contra o governo federal, praticamente pregando guerra civil, por conta da revisão dos índices de produtividade rural – índices esses cuja revisão está prevista em Constituição para ser realizada a cada dez anos e que se mantêm inalterado desde a década de 1970. Não por acaso Johnny Saad é reconhecidamente grande latifundiário.
Rever os índices de produtividade rural me parece muito pouco hoje, por que não rever também as concessões públicas do grupo Bandeirantes? Afinal, será que ela tem cumprido o papel social que a Constituição de 1988 lhe exige? Ou estamos diante de um caso explicito onde interesses pessoais se sobrepõem ao interesse geral da sociedade e concessões públicas são utilizadas de modo irresponsável e criminoso?
Aí sim, para mim, está um dos grandes equívocos do governo Lula, se amedrontar e não atacar a mídia oligopolizada.
O programa anunciou que trataria dos vinte anos da primeira eleição presidencial direta pós-1964, mas o que vi ali foram ataques torpes como mencionei acima e uma comparação entre as personalidades/governo de Collor (1990-1992) e de Lula (2003-2009), como se entre ambos nunca houvesse existido o governo tampão e debiloide de Itamar Franco com Fernando Henrique Cardoso na função (extra-oficial) de primeiro-ministro e depois mais oito anos de presidência do próprio FFHH.
Mas o que importava ali era apenas aproximar Collor e Lula e mostrar o quão perversos foram e são para a democracia brasileira. Lula foi durante todo o tempo tratado como general de um enorme exército de corruptos que aparelharam o Estado apoderando-se da burocracia estatal para controlá-la e encher as burras de dinheiro.
Os quatro cães de guarda – expressão sartreana para designar os pseudo-intelectuais defensores do estabilishment – membros da mesa, Boris Casoy, Antonio Teles, Fernando Mitre e Joelmir Betting acusaram o Presidente Lula de pragmatismo exasperado e sem limites, de promover o maior sistema de corrupção da História do Brasil, de ser leniente com o tráfico de influência, de aparelhamento do Estado e de nas “sábias” palavras de Antonio Teles, tratar o país como propriedade privada. Ah! claro, o Presidente Lula também foi acusado pelas dez pragas do Egito.
De resto fiquei esperando, sentado, na noite de ontem um debate de altíssimo nível sobre a eleição de 1989, uma divisão de águas dentro de nossa História republicana e tudo o que ocorreu no Brasil nos últimos vinte anos.
Aliás, ainda aproveitaram o programa (não seria sobre os vinte anos da eleição de 1989?), com reportagem requentada, para repercutir um pouco mais sobre o apagão de terça-feira passada e cutucar a ministra Dilma Rousseff.
Voltando a mesa com os sabujos, após a atuação de ontem Antonio Melo se candidatou simultaneamente a dois prêmios de peso. O de melhor desempenho como viúva de FFHH e o de melhor “cão de guarda” do ano. O nobre jornalista chegou inclusive a duvidar se o PT realmente colocará na rua o plano de comparar o governo Lula ao governo FFHH depois do “apagão” de terça-feira. Parece brincadeira, mas juro que Teles falou isso. A comparação entre os dois últimos governos será tão obvia e tão desgastante para o lado dos tucanos que até o insuspeito Aécio Neves assumiu isso durante a semana, segundo a igualmente insuspeita Folha de São Paulo.
A Band, assim como os demais veículos da mídia oligopolizada, já está escancaradamente em campanha pelo governador José Serra. Basta ver o modo como trataram o acidente no Rodoanel em São Paulo. Ali, nas palavras de José Luiz Datena, foi um acidente terrível, contudo o governo estadual já estava tomando as devidas providencias. Na hora me veio à cabeça o que o mesmo Datena disse em julho de 2007 quando centenas de pessoas morreram a bordo dum avião da TAM – que por sinal durante anos foi parceira da Band em transmissões esportivas – culpando o governo federal.
É bom lembrar que a Band pertence ao Grupo Bandeirantes, cujo dono João Carlos Saad, que prefere ser chamado de Johnny, recentemente tentou insuflar, em editorial lido por todos os meios de comunicação do grupo, ruralistas contra o governo federal, praticamente pregando guerra civil, por conta da revisão dos índices de produtividade rural – índices esses cuja revisão está prevista em Constituição para ser realizada a cada dez anos e que se mantêm inalterado desde a década de 1970. Não por acaso Johnny Saad é reconhecidamente grande latifundiário.
Rever os índices de produtividade rural me parece muito pouco hoje, por que não rever também as concessões públicas do grupo Bandeirantes? Afinal, será que ela tem cumprido o papel social que a Constituição de 1988 lhe exige? Ou estamos diante de um caso explicito onde interesses pessoais se sobrepõem ao interesse geral da sociedade e concessões públicas são utilizadas de modo irresponsável e criminoso?
Aí sim, para mim, está um dos grandes equívocos do governo Lula, se amedrontar e não atacar a mídia oligopolizada.
domingo, 15 de novembro de 2009
10 + 1ª Posição: The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars
The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars (David Bowie, 1972)
Por Pedro Zambarda de Araújo | Em 28/04/08 |
http://whiplash.net/materias/db/072021-davidbowie.html
The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars popularizou o chamado Glam/Glitter Rock e fez uma história conceitual sobre a própria música.
Quando um jovem, que é inglês e observador, como sempre foi, chega aos Estados Unidos da América, sua vida sofre drásticas alterações. Em 1971, o músico David Bowie teve essa experiência, saído de uma sociedade conservadora e mergulhando no universo underground norte-americano, com bandas como Velvet Underground, The Stooges e, principalmente, The New York Dolls, que despertou profunda admiração.
Os Dolls, grupo do guitarrista Johnny Thunders e do vocalista David Johnansen, utilizavam roupas de mulheres em suas apresentações, apesar de serem heterossexuais, em sua maioria. Aquilo despertou em Bowie um personagem que marcaria sua carreira nos anos 1970: Ziggy Stardust, um marciano rockstar que é enviado até a Terra para transformar a mente dos seres humanos. Com a maquiagem que caracterizou Alice Cooper, anos antes, o visual feminino e o cabelo repicado e tingido de laranja avermelhado, Bowie deixou sua fase hippie, onde usava cabelos longos e composições típicas da década anterior.
Essa explicação introdutória é necessária. O LP, posteriormente transformado em CD, "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars", de 1972, não é apenas uma simples gravação de músicas de sucesso, mas uma peça de teatro que caracterizou o aclamado glamour rock: bissexualidade, atitude, temas polêmicos, visual andrógino e forte interação com o público.
Sua primeira faixa, "Five Years", inicia a história de Ziggy com todo o sofrimento existente na Terra. Com rimas simples, Bowie ilustra a vida cotidiana, enquanto berra em plenos pulmões o refrão, resultando em uma música de peso. "Soul Love" quebra o clima causado pela introdução, trazendo uma peça predominantemente acústica, com letras positivas de renovação e exaltação do amor. “New love - a boy and girl they talking” mostra uma admiração descompromissada.
"Moonage Daydream", a terceira música, traz a intervenção dos marcianos, que falam de uma relação elétrica. David Bowie assume um vocal nitidamente afeminado, que caracteriza sua atuação como Ziggy Stardust, sob o som de piano, baixo, guitarra e bateria. Com a quarta faixa, a chegada triunfal do “alien” se concretiza, de forma quase divina. O solo de guitarra em seqüência dos acordes no violão cria uma harmonia em "Starman", assim como sua letra tranqüilizadora: “There´s a Starman waiting in the sky...”.
Com uma melodia extremamente folk, "It Ain´t Easy" fala do duelo entre a satisfação e as dificuldades que se encontram no caminho. "Lady Stardust", pela ambigüidade de sua letra, trata da sexualidade de Ziggy, além da natureza obscura e reflexiva de suas músicas. “And he was alright, the band was altogether” faz uma primeira menção à banda que acompanha Ziggy Stardust, chamada no CD pelo nome The Spiders from Mars.
"Star", música chamada, originalmente, de "Rock´n´Roll Star", fala sobre como se tornar um ídolo e mudar o mundo, tal como os músicos de rock. A canção é acompanhada por um piano constante, que marca uma progressão ritmada de seus instrumentos. Música com a introdução definitiva dos Spiders from Mars, "Hang Onto Yourself" é uma música com poucas letras e muito dançante, mostrando que a história conceitual não se manifesta somente por palavras.
"Ziggy Stardust" é a música que resume a obra de setentista de David Bowie: “Making love with his ego. Ziggy sucked up into his mind”. Vemos a clara decadência no glamour do astro, o retrato de crítico de Bowie sobre o cenário musical, embora ele mesmo participasse de orgias e tivesse uma vida bissexual pública, um cotidiano completamente desregrado e voltado para si mesmo.
"Suffragette City" abandona o vocal feminino de David para incorporar uma balada carregada antes da conclusão do CD. "Rock´n´Roll Suicide" conclui, na verdade, a música-tema "Ziggy Stardust", mostrando o astro cometendo suicídio no palco, fumando cigarros que, no fundo, simbolizam sua vida. Bowie berra, antes da morte de Ziggy, o memorável “You´re wonderful! Gimme your hands!” que não se trata apenas de um clímax musical, mas do ápice de uma verdadeira peça teatral, seja sobre si mesmo ou sobre pessoas jovens que morrem após uma vida desvairada.
Com todas essas excelentes 11 faixas, mais os extras lançados na reedição do CD em 1990, como "Johnny I´m Only Dancing", "Velvet Goldmine", a inédita "Sweet Head" e as versões demo de "Ziggy Stardust" e "Lady Stardust", temos em mãos não somente uma obra-prima comercial de 1970, mas um retrato artístico do que é viver o rock.
Não é pela rebeldia ou pelas aventuras sexuais que os cantores de glam viveram que a vida de quem admira o rock´n´roll é curta. Bowie não se restringe a demonstrar apenas seu estilo musical, porque a própria invenção de Ziggy Stardust e sua atuação remetem, além dos estereótipos, até emoções, êxtases.
Diversas teorias rondam esse material primordial para quem quer, realmente, conhecer a música dos anos 70. O próprio nome de Ziggy aponta diferentes influências de Bowie – uns dizem que veio de Iggy Pop, a versão oficial alega que a inspiração real foi Vince Taylor, frontman do The Playboys, da década de 50.
Vale a pena ouvir o material, que é raridade em lojas hoje em dia.
Por Pedro Zambarda de Araújo | Em 28/04/08 |
http://whiplash.net/materias/db/072021-davidbowie.html
The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars popularizou o chamado Glam/Glitter Rock e fez uma história conceitual sobre a própria música.
Quando um jovem, que é inglês e observador, como sempre foi, chega aos Estados Unidos da América, sua vida sofre drásticas alterações. Em 1971, o músico David Bowie teve essa experiência, saído de uma sociedade conservadora e mergulhando no universo underground norte-americano, com bandas como Velvet Underground, The Stooges e, principalmente, The New York Dolls, que despertou profunda admiração.
Os Dolls, grupo do guitarrista Johnny Thunders e do vocalista David Johnansen, utilizavam roupas de mulheres em suas apresentações, apesar de serem heterossexuais, em sua maioria. Aquilo despertou em Bowie um personagem que marcaria sua carreira nos anos 1970: Ziggy Stardust, um marciano rockstar que é enviado até a Terra para transformar a mente dos seres humanos. Com a maquiagem que caracterizou Alice Cooper, anos antes, o visual feminino e o cabelo repicado e tingido de laranja avermelhado, Bowie deixou sua fase hippie, onde usava cabelos longos e composições típicas da década anterior.
Essa explicação introdutória é necessária. O LP, posteriormente transformado em CD, "The Rise and Fall of Ziggy Stardust and the Spiders from Mars", de 1972, não é apenas uma simples gravação de músicas de sucesso, mas uma peça de teatro que caracterizou o aclamado glamour rock: bissexualidade, atitude, temas polêmicos, visual andrógino e forte interação com o público.
Sua primeira faixa, "Five Years", inicia a história de Ziggy com todo o sofrimento existente na Terra. Com rimas simples, Bowie ilustra a vida cotidiana, enquanto berra em plenos pulmões o refrão, resultando em uma música de peso. "Soul Love" quebra o clima causado pela introdução, trazendo uma peça predominantemente acústica, com letras positivas de renovação e exaltação do amor. “New love - a boy and girl they talking” mostra uma admiração descompromissada.
"Moonage Daydream", a terceira música, traz a intervenção dos marcianos, que falam de uma relação elétrica. David Bowie assume um vocal nitidamente afeminado, que caracteriza sua atuação como Ziggy Stardust, sob o som de piano, baixo, guitarra e bateria. Com a quarta faixa, a chegada triunfal do “alien” se concretiza, de forma quase divina. O solo de guitarra em seqüência dos acordes no violão cria uma harmonia em "Starman", assim como sua letra tranqüilizadora: “There´s a Starman waiting in the sky...”.
Com uma melodia extremamente folk, "It Ain´t Easy" fala do duelo entre a satisfação e as dificuldades que se encontram no caminho. "Lady Stardust", pela ambigüidade de sua letra, trata da sexualidade de Ziggy, além da natureza obscura e reflexiva de suas músicas. “And he was alright, the band was altogether” faz uma primeira menção à banda que acompanha Ziggy Stardust, chamada no CD pelo nome The Spiders from Mars.
"Star", música chamada, originalmente, de "Rock´n´Roll Star", fala sobre como se tornar um ídolo e mudar o mundo, tal como os músicos de rock. A canção é acompanhada por um piano constante, que marca uma progressão ritmada de seus instrumentos. Música com a introdução definitiva dos Spiders from Mars, "Hang Onto Yourself" é uma música com poucas letras e muito dançante, mostrando que a história conceitual não se manifesta somente por palavras.
"Ziggy Stardust" é a música que resume a obra de setentista de David Bowie: “Making love with his ego. Ziggy sucked up into his mind”. Vemos a clara decadência no glamour do astro, o retrato de crítico de Bowie sobre o cenário musical, embora ele mesmo participasse de orgias e tivesse uma vida bissexual pública, um cotidiano completamente desregrado e voltado para si mesmo.
"Suffragette City" abandona o vocal feminino de David para incorporar uma balada carregada antes da conclusão do CD. "Rock´n´Roll Suicide" conclui, na verdade, a música-tema "Ziggy Stardust", mostrando o astro cometendo suicídio no palco, fumando cigarros que, no fundo, simbolizam sua vida. Bowie berra, antes da morte de Ziggy, o memorável “You´re wonderful! Gimme your hands!” que não se trata apenas de um clímax musical, mas do ápice de uma verdadeira peça teatral, seja sobre si mesmo ou sobre pessoas jovens que morrem após uma vida desvairada.
Com todas essas excelentes 11 faixas, mais os extras lançados na reedição do CD em 1990, como "Johnny I´m Only Dancing", "Velvet Goldmine", a inédita "Sweet Head" e as versões demo de "Ziggy Stardust" e "Lady Stardust", temos em mãos não somente uma obra-prima comercial de 1970, mas um retrato artístico do que é viver o rock.
Não é pela rebeldia ou pelas aventuras sexuais que os cantores de glam viveram que a vida de quem admira o rock´n´roll é curta. Bowie não se restringe a demonstrar apenas seu estilo musical, porque a própria invenção de Ziggy Stardust e sua atuação remetem, além dos estereótipos, até emoções, êxtases.
Diversas teorias rondam esse material primordial para quem quer, realmente, conhecer a música dos anos 70. O próprio nome de Ziggy aponta diferentes influências de Bowie – uns dizem que veio de Iggy Pop, a versão oficial alega que a inspiração real foi Vince Taylor, frontman do The Playboys, da década de 50.
Vale a pena ouvir o material, que é raridade em lojas hoje em dia.
sexta-feira, 13 de novembro de 2009
Por incrível que parece, uma razoável análise política no Estadão
Acabo de ler essa razoável análise sobre o jogo governo versus oposição com vistas à eleição do próximo ano e o personalismo que marca a política nacional. Concordo com a primeira parte da análise e quando diz que a oposição farisaica não tem hoje e não terá em 2010 discurso para pleitear seu retorno ao poder, mas discordo das críticas veladas, ou nem tanto, que o colunista faz ao governo Lula. Discordo por serem veladas e não mostrarem embasamento.
Outro comentário, no ponto em que mais apreciei a análise fica claro o quanto o sistema presidencialista é arcaico e, portanto, não é o melhor para sociedades em construção e com alta desigualdade social como é o nosso caso.
Do Estadão
Por que Dilma será a nova presidente
Carlos Pio
Retirado do Blgo do Nassif [http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/11/13/o-personalismo-nas-eleicoes-brasileiras/#more-38539]
Daqui a exatos 12 meses os brasileiros vão escolher o seu novo presidente. Poucos analistas parecem ter dúvidas de que teremos segundo turno e de que este será disputado pela candidata do presidente Lula, a ministra Dilma Rousseff, e por um dos candidatos do principal partido da oposição, provavelmente o governador José Serra. Mas quase ninguém arrisca um prognóstico sobre o pleito, cautela essa provocada pelo que parece ser uma disputa apertada entre dois candidatos “sem graça”, tecnocratas de cabeça e coração. Eu vou arriscar: Dilma ganha de Serra (ou Aécio Neves) no segundo turno, com folgada margem. Vou explicar por quê.
Para começo de conversa, é fundamental enfatizar como o processo de seleção dos candidatos presidenciais afeta o desenlace da campanha. No nosso caso, demonstra o quanto a democracia brasileira ainda é dominada por indivíduos que estão no topo das organizações partidárias (e não por regras institucionalizadas). Em si mesmo, esse fato limita um verdadeiro debate de ideias sobre os problemas nacionais e sobre as diferentes alternativas existentes para resolvê-los. Dilma foi escolhida por uma única pessoa – o presidente Lula -, possivelmente após ouvir a opinião de alguns de seus conselheiros mais próximos. Serra será (ou não!) candidato a partir de uma decisão individual sua, à qual os dois partidos que o apoiam (PSDB e DEM) acederão sem maiores questionamentos. Se ele preferir não se candidatar a presidente, como em 2006, Aécio assumirá o posto também por decisão individual – mesmo que sob forte pressão dos aliados. Nesse processo terão sido ouvidas, talvez, quatro ou cinco outras pessoas. Ciro Gomes e Marina Silva se autodeclararam candidatos e suas legendas aceitaram – esta última tendo, por sinal, saído do PT com esse propósito.
Em suma, em todos os “partidos” a escolha do candidato a presidente se dará de forma não institucionalizada e, por conseguinte, sem debate público sobre as diferenças entre os eventuais postulantes no que diz respeito aos diagnósticos de nossos principais problemas e ao conteúdo das soluções que virão a propor. O eleitor também não saberá de antemão a diferença entre os candidatos no que concerne à governabilidade – isto é, como o eleito articulará sua base de apoio congressual e seu Ministério para viabilizar as ações do governo. Assim, a decisão do eleitor será tomada sob forte névoa de incerteza.
Sem debate público interno aos partidos, sem processo institucionalizado de escolha dos seus respectivos candidatos e sem um mínimo de clareza sobre a montagem futura das alianças políticas necessárias para governar, as eleições tendem a assumir um caráter ainda mais plebiscitário do que normalmente ocorre em regimes presidencialistas. Plebiscitário aqui assume o sentido de julgamento dos méritos do atual governo, desconsiderando a oposição. Destituí-lo, pela rejeição à candidata do presidente, representa incorrer em grau ainda mais acentuado de incerteza e insegurança para todo eleitor que tem algo de substancial a perder com a vitória da oposição – uma Bolsa-Família, uma tarifa de importação elevada, um subsídio tributário, uma vaga em universidade federal ou bolsa do governo federal, um emprego em empresa estatal ou de capital misto.
Um plebiscito sobre a renovação do mandato do grupo político do presidente será decidido em função do apoio do eleitor mediano (aquele que separa a distribuição dos votos de todo o eleitorado entre 50% + 1 e 50% – 1) à seguinte questão: “Você concorda que as coisas estão claramente melhores hoje do que no passado recente?” Esse foi o sentimento que marcou claramente as eleições de 1994, 1998 e 2006, todas vencidas pelos governos da ocasião. E parece-me razoável supor que tal sentimento é característico de períodos em que 1) a inflação está sob controle, 2) o governo tem capacidade de manejar os instrumentos de política necessários para dar um mínimo de segurança e estabilidade diante de um contexto externo instável e ameaçador, 3) há perspectiva de crescimento econômico e de queda do desemprego, 4) o gasto público e as políticas sociais focalizadas nos mais pobres estão em expansão. É isso o que vivemos hoje, não?
Pois bem, em tal conjuntura tão favorável ao governo o melhor que a oposição oferece é dar seguimento às políticas correntes e prometer mais eficiência administrativa e menos corrupção! É pouco, muito pouco! A oposição precisa ter propostas novas e capacidade para convencer o eleitorado de que elas são necessárias, viáveis e urgentes. Mas como fazer isso sem debate intrapartidário aberto e institucionalizado, assentado na diferença de diagnósticos e soluções? E como “testar”, antes do pleito, o potencial eleitoral das ideias e os riscos embutidos nas novidades sem realizar prévias?
Afinal, alguém aí sabe o que Serra e Aécio pensam sobre os problemas nacionais? Alguém acha que algum deles ousaria propor mudança de rumos em relação ao que Lula vem fazendo? O que eles farão em relação a Bolsa-Família, câmbio com viés de apreciação, Mercosul paralisado, protecionismo comercial excessivo, política industrial e tecnológica concentradora de renda, educação de mal a pior, malha de transportes precária, regulação arcaica do setor de energia, infraestrutura em frangalhos e política externa terceiro-mundista? Algum deles propõe privatizar o que ainda está nas mãos do governo federal? Algum deles propõe que o Mercosul feche um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos ou a China, como fizeram México e Chile?
Sem que as diferenças sejam explicitadas o eleitor mediano não aceitará correr o risco de votar na oposição.
E o tempo para esse debate já terminou!
Outro comentário, no ponto em que mais apreciei a análise fica claro o quanto o sistema presidencialista é arcaico e, portanto, não é o melhor para sociedades em construção e com alta desigualdade social como é o nosso caso.
Do Estadão
Por que Dilma será a nova presidente
Carlos Pio
Retirado do Blgo do Nassif [http://colunistas.ig.com.br/luisnassif/2009/11/13/o-personalismo-nas-eleicoes-brasileiras/#more-38539]
Daqui a exatos 12 meses os brasileiros vão escolher o seu novo presidente. Poucos analistas parecem ter dúvidas de que teremos segundo turno e de que este será disputado pela candidata do presidente Lula, a ministra Dilma Rousseff, e por um dos candidatos do principal partido da oposição, provavelmente o governador José Serra. Mas quase ninguém arrisca um prognóstico sobre o pleito, cautela essa provocada pelo que parece ser uma disputa apertada entre dois candidatos “sem graça”, tecnocratas de cabeça e coração. Eu vou arriscar: Dilma ganha de Serra (ou Aécio Neves) no segundo turno, com folgada margem. Vou explicar por quê.
Para começo de conversa, é fundamental enfatizar como o processo de seleção dos candidatos presidenciais afeta o desenlace da campanha. No nosso caso, demonstra o quanto a democracia brasileira ainda é dominada por indivíduos que estão no topo das organizações partidárias (e não por regras institucionalizadas). Em si mesmo, esse fato limita um verdadeiro debate de ideias sobre os problemas nacionais e sobre as diferentes alternativas existentes para resolvê-los. Dilma foi escolhida por uma única pessoa – o presidente Lula -, possivelmente após ouvir a opinião de alguns de seus conselheiros mais próximos. Serra será (ou não!) candidato a partir de uma decisão individual sua, à qual os dois partidos que o apoiam (PSDB e DEM) acederão sem maiores questionamentos. Se ele preferir não se candidatar a presidente, como em 2006, Aécio assumirá o posto também por decisão individual – mesmo que sob forte pressão dos aliados. Nesse processo terão sido ouvidas, talvez, quatro ou cinco outras pessoas. Ciro Gomes e Marina Silva se autodeclararam candidatos e suas legendas aceitaram – esta última tendo, por sinal, saído do PT com esse propósito.
Em suma, em todos os “partidos” a escolha do candidato a presidente se dará de forma não institucionalizada e, por conseguinte, sem debate público sobre as diferenças entre os eventuais postulantes no que diz respeito aos diagnósticos de nossos principais problemas e ao conteúdo das soluções que virão a propor. O eleitor também não saberá de antemão a diferença entre os candidatos no que concerne à governabilidade – isto é, como o eleito articulará sua base de apoio congressual e seu Ministério para viabilizar as ações do governo. Assim, a decisão do eleitor será tomada sob forte névoa de incerteza.
Sem debate público interno aos partidos, sem processo institucionalizado de escolha dos seus respectivos candidatos e sem um mínimo de clareza sobre a montagem futura das alianças políticas necessárias para governar, as eleições tendem a assumir um caráter ainda mais plebiscitário do que normalmente ocorre em regimes presidencialistas. Plebiscitário aqui assume o sentido de julgamento dos méritos do atual governo, desconsiderando a oposição. Destituí-lo, pela rejeição à candidata do presidente, representa incorrer em grau ainda mais acentuado de incerteza e insegurança para todo eleitor que tem algo de substancial a perder com a vitória da oposição – uma Bolsa-Família, uma tarifa de importação elevada, um subsídio tributário, uma vaga em universidade federal ou bolsa do governo federal, um emprego em empresa estatal ou de capital misto.
Um plebiscito sobre a renovação do mandato do grupo político do presidente será decidido em função do apoio do eleitor mediano (aquele que separa a distribuição dos votos de todo o eleitorado entre 50% + 1 e 50% – 1) à seguinte questão: “Você concorda que as coisas estão claramente melhores hoje do que no passado recente?” Esse foi o sentimento que marcou claramente as eleições de 1994, 1998 e 2006, todas vencidas pelos governos da ocasião. E parece-me razoável supor que tal sentimento é característico de períodos em que 1) a inflação está sob controle, 2) o governo tem capacidade de manejar os instrumentos de política necessários para dar um mínimo de segurança e estabilidade diante de um contexto externo instável e ameaçador, 3) há perspectiva de crescimento econômico e de queda do desemprego, 4) o gasto público e as políticas sociais focalizadas nos mais pobres estão em expansão. É isso o que vivemos hoje, não?
Pois bem, em tal conjuntura tão favorável ao governo o melhor que a oposição oferece é dar seguimento às políticas correntes e prometer mais eficiência administrativa e menos corrupção! É pouco, muito pouco! A oposição precisa ter propostas novas e capacidade para convencer o eleitorado de que elas são necessárias, viáveis e urgentes. Mas como fazer isso sem debate intrapartidário aberto e institucionalizado, assentado na diferença de diagnósticos e soluções? E como “testar”, antes do pleito, o potencial eleitoral das ideias e os riscos embutidos nas novidades sem realizar prévias?
Afinal, alguém aí sabe o que Serra e Aécio pensam sobre os problemas nacionais? Alguém acha que algum deles ousaria propor mudança de rumos em relação ao que Lula vem fazendo? O que eles farão em relação a Bolsa-Família, câmbio com viés de apreciação, Mercosul paralisado, protecionismo comercial excessivo, política industrial e tecnológica concentradora de renda, educação de mal a pior, malha de transportes precária, regulação arcaica do setor de energia, infraestrutura em frangalhos e política externa terceiro-mundista? Algum deles propõe privatizar o que ainda está nas mãos do governo federal? Algum deles propõe que o Mercosul feche um acordo de livre-comércio com os Estados Unidos ou a China, como fizeram México e Chile?
Sem que as diferenças sejam explicitadas o eleitor mediano não aceitará correr o risco de votar na oposição.
E o tempo para esse debate já terminou!
quinta-feira, 5 de novembro de 2009
Caetano Veloso, analfabeto político
Caetano Veloso faz parte do grupo de ex-esquerdistas que com a passar dos anos se deslumbraram com o poder (força/dinheiro) da direita. Deste grupo fazem parte também, dentre outros, Arnaldo Jabor, no meio que se pretende intelectual, ou César Maia e Fernando Gabeira no meio político. Há ainda o extremo de Paulo Francis que foi do trotskismo esnobe e infantil de criança mimada à ultra-direita da parcela mais reacionária do Partido Republicano estadunidense.
Essa nova direita tupiniquim, oriunda da militância de esquerda durante a Ditadura Militar, acha o povo brasileiro inculto, grosseiro e incapaz de discernir sobre o que é bom para o conjunto da sociedade ou apenas para si mesmo. Dentro desse pensamento cabe como uma luva a tese do sociólogo Alberto Carlos Almeida – exposta na obra “A cabeça do brasileiro” – na qual o autor defende enfaticamente a idéia de termos uma elite iluminada, porém, atada a escuridão por um povo ignorante.
Essa nova direita também acha que o melhor para o Brasil é a República Higienópolis Leblon, expressão alcunhado pelo Professor Idelber Avelar para àqueles que se encantam com as Daslu da vida e sentem ojeriza do cheiro de povão, cuja maior referência em política é justamente Fernando Gabeira.
Voltando à apenas Caetano Veloso, sou admirador de suas músicas e letras, e sem sombra nenhuma de duvidas trata-se de um dos principais artistas brasileiros do século XX, no entanto fiquei abismado com a falta de compostura dele na entrevista publicada hoje pelo Estadão [http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091105/not_imp461314,0.php]. Tá certo que falar asneiras passou a ser algo corriqueiro para Caetano. Não foram até aqui poucas as vezes que desceu a lenha no governo Lula com aquele papo mole da direita udenista, assim como também já falou bobagens sobre a música nacional e internacional – numa das piores declarações nesse sentido afirmou que Stairway To Heaven é a coisa mais cafona que já ouviu. Cafona, no sentido musical, é Caetano esgoelando Comes As You Are. Contudo, na citada entrevista ao Estadão, faltou-lhe elegância e talvez até maturidade ao dizer que o Presidente Lula é “analfabeto, cafona e grosseiro”.
Para Caetano, cabo eleitoral de primeira hora da ex-ministra Marina Silva, Obama sim é inteligente, culto e charmoso, assim como a sua candidata a sucessão presidencial. É a famosa síndrome do vira-latas (expressão de Nelson Rodrigues) ou então complexo do subdesenvolvimento onde estamos condenados a ser eternamente colônia por pura incapacidade própria.
Interessante também como a mídia oligopolizada adora bradar aos quatro vento o pseudo-analfabetismo de Lula. Quando vejo isso sempre me lembro duma estória, inventada ou verídica não sei ao certo, na qual um assessor do então presidente Juscelino Kubitscheck dera-lhe como presente de aniversário um livro. No recinto onde assessores, amigos, políticos e bajuladores festejavam o aniversário do chefe houve um constrangimento geral. JK não fazia questão de esconder de ninguém que lera apenas um livro na vida e hoje isso parece não ter importância alguma, no entanto Lula é taxado como ignorante e analfabeto e isso tem importância tanto para direita nova quanto para a antiga.
Falando sobre Caetano é interessante notar como Sonia Racy, a jornalista responsável pela entrevista, o apresentou: “Uma boa sabedoria emerge, fácil, da sua tranqüilidade interior. O posicionamento rebelde do início da carreira, que às vezes assumia as cores da esquerda, deu lugar, hoje, a um discurso racional, realista.” Portanto, para a jornalista e para o Estadão, ser de esquerda é o inverso de ser racional e realista. Racional e realista é o neoliberlismo que o jornal da família Mesquita – o mesmo jornal e a mesma família que apoiou as pretensões oligárquicas e anti-democráticas da elite paulista em 1932, ou que em 1964 clamou pelo golpe militar – defendeu em editoriais e matérias por anos a fio. (Para entender melhor a relação mídia olipolizada e a disseminação da ideologia neoliberal no Brasil recomendo “Anjo Torto, Esquerda e Direita No Brasil”, autor Emir Sader).
Para completar Caetano acha Aécio Neves um grande gestor. Talvez Caetano Veloso seja adepto do grande choque de gestão tucano. Choque de gestão que deixa a economia mineira refém das exportações de café e recursos minerais, portanto, numa economia primaria e colonial, a primeira, no Brasil, a sofrer o impacto da crise econômica mundial e a última a sair, se tiver tempo. Ou então, Caetano entenda por choque de gestão desviar recursos da saúde para tampar o buraco na folha de pagamento dos servidores.
Essa nova direita tupiniquim, oriunda da militância de esquerda durante a Ditadura Militar, acha o povo brasileiro inculto, grosseiro e incapaz de discernir sobre o que é bom para o conjunto da sociedade ou apenas para si mesmo. Dentro desse pensamento cabe como uma luva a tese do sociólogo Alberto Carlos Almeida – exposta na obra “A cabeça do brasileiro” – na qual o autor defende enfaticamente a idéia de termos uma elite iluminada, porém, atada a escuridão por um povo ignorante.
Essa nova direita também acha que o melhor para o Brasil é a República Higienópolis Leblon, expressão alcunhado pelo Professor Idelber Avelar para àqueles que se encantam com as Daslu da vida e sentem ojeriza do cheiro de povão, cuja maior referência em política é justamente Fernando Gabeira.
Voltando à apenas Caetano Veloso, sou admirador de suas músicas e letras, e sem sombra nenhuma de duvidas trata-se de um dos principais artistas brasileiros do século XX, no entanto fiquei abismado com a falta de compostura dele na entrevista publicada hoje pelo Estadão [http://www.estadao.com.br/estadaodehoje/20091105/not_imp461314,0.php]. Tá certo que falar asneiras passou a ser algo corriqueiro para Caetano. Não foram até aqui poucas as vezes que desceu a lenha no governo Lula com aquele papo mole da direita udenista, assim como também já falou bobagens sobre a música nacional e internacional – numa das piores declarações nesse sentido afirmou que Stairway To Heaven é a coisa mais cafona que já ouviu. Cafona, no sentido musical, é Caetano esgoelando Comes As You Are. Contudo, na citada entrevista ao Estadão, faltou-lhe elegância e talvez até maturidade ao dizer que o Presidente Lula é “analfabeto, cafona e grosseiro”.
Para Caetano, cabo eleitoral de primeira hora da ex-ministra Marina Silva, Obama sim é inteligente, culto e charmoso, assim como a sua candidata a sucessão presidencial. É a famosa síndrome do vira-latas (expressão de Nelson Rodrigues) ou então complexo do subdesenvolvimento onde estamos condenados a ser eternamente colônia por pura incapacidade própria.
Interessante também como a mídia oligopolizada adora bradar aos quatro vento o pseudo-analfabetismo de Lula. Quando vejo isso sempre me lembro duma estória, inventada ou verídica não sei ao certo, na qual um assessor do então presidente Juscelino Kubitscheck dera-lhe como presente de aniversário um livro. No recinto onde assessores, amigos, políticos e bajuladores festejavam o aniversário do chefe houve um constrangimento geral. JK não fazia questão de esconder de ninguém que lera apenas um livro na vida e hoje isso parece não ter importância alguma, no entanto Lula é taxado como ignorante e analfabeto e isso tem importância tanto para direita nova quanto para a antiga.
Falando sobre Caetano é interessante notar como Sonia Racy, a jornalista responsável pela entrevista, o apresentou: “Uma boa sabedoria emerge, fácil, da sua tranqüilidade interior. O posicionamento rebelde do início da carreira, que às vezes assumia as cores da esquerda, deu lugar, hoje, a um discurso racional, realista.” Portanto, para a jornalista e para o Estadão, ser de esquerda é o inverso de ser racional e realista. Racional e realista é o neoliberlismo que o jornal da família Mesquita – o mesmo jornal e a mesma família que apoiou as pretensões oligárquicas e anti-democráticas da elite paulista em 1932, ou que em 1964 clamou pelo golpe militar – defendeu em editoriais e matérias por anos a fio. (Para entender melhor a relação mídia olipolizada e a disseminação da ideologia neoliberal no Brasil recomendo “Anjo Torto, Esquerda e Direita No Brasil”, autor Emir Sader).
Para completar Caetano acha Aécio Neves um grande gestor. Talvez Caetano Veloso seja adepto do grande choque de gestão tucano. Choque de gestão que deixa a economia mineira refém das exportações de café e recursos minerais, portanto, numa economia primaria e colonial, a primeira, no Brasil, a sofrer o impacto da crise econômica mundial e a última a sair, se tiver tempo. Ou então, Caetano entenda por choque de gestão desviar recursos da saúde para tampar o buraco na folha de pagamento dos servidores.
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