terça-feira, 7 de junho de 2016

NÃO À POLÍTICA: NEGATIVA PERIGOSA


Por Tiago Barbosa Mafra

É tempo de paradoxos: enquanto milhões ligados a movimentos sociais ocupam as ruas constantemente, um sentimento coletivo de descrença em relação à política ganha corpo e força. É histórico que sociedades que negaram a política como instrumento de gestão da vida pública enveredaram por caminhos totalitários, profunda ou sutilmente.

Um ódio às entidades partidárias é notório. E argumentos não faltam, pois as mais de 30 siglas têm pouco de conteúdo ideológico e muito de empresarial: foram capturados pela lógica financeira, plutocrática, da manutenção do controle político via estruturas públicas com finalidades privadas. E mesmo os que operaram reformas se valeram da lógica mercantil vigente para fazê-lo.

Longe de entrar no mérito dos meios, o fato é que tudo tem demonstrado que essa forma de conduzir a vida e as decisões públicas ( na maioria das vezes sem o povo) apresenta um profundo esgotamento.
E nesse ponto crucial, de necessidade de novos arranjos e opções, convivem proposições diametralmente opostas, desde os que pedem mais participação, democracia efetiva aos que deixam revelar o ódio à política, confundindo as criticas aos partidos a uma aversão ao republicanismo como um todo.

A criminalização da política, em um país que vive há poucos anos um ensaio de democracia, tende a evidenciar o caráter totalitário de setores elitistas, atrelados ao capital internacional e que usam o oligopólio dos meios de comunicação para propagar uma visão única sobre a crise, bem como sobre seus antídotos, com a garantia da útil disseminação pela classe média apolítica e desprovida de privilégios que tanto pelos quais tanto preza, bem como por trabalhadores despolitizados, inseridos no consumo, mas não na vida pública.

Nesse cenário de caos, pouca reflexão encontra espaço. Sobram resposta fáceis, políticas de austeridade, equilíbrio fiscal, sempre é claro, à custa das partes mais pobres da população. No país do “povo cordial”, avesso ao conflito, falar em luta de classes é heresia. Chega de crise, “vamos trabalhar!”.

Mas não se resolve crise com mais crise. Vivemos na prática, uma onda fascista, saudosa (conscientemente ou não) de outros totalitarismos.  São características evidentes, mas travestidos de normalidade, ou no máximo, de um “mal necessário”. Restrição de direitos, criminalização de movimentos sociais e partidos, ataques à cultura, desmonte de uma tentativa de bem estar social de 13 anos. Mas tudo pelo bem da nação.

É notório que o modelo de conciliação não se sustentará. Muito menos com relações promíscuas entre entidades privadas. Não retornaremos mais à mesma situação. O país está em disputa. Só não se sabe em que direção, profundidade e em benefício de quem caminharemos.

O que já sabemos é que a história e a política não devem ser negadas. A sociedade não deve continuar encarando a desigualdade como algo natural ou aceitável. O Brasil vive  a evidenciação da luta de classes.

O resultado? Algo entre o poder popular e a violência totalitária. Que os pobres não paguem a conta novamente.


Tiago Barbosa Mafra é professor de geografia na rede pública municipal de ensino e voluntário no pré vestibular comunitário Educafro.

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