quarta-feira, 18 de abril de 2012
Mídia oligopolizada = desfaçatez
domingo, 15 de abril de 2012
sábado, 14 de abril de 2012
Ivan Lessa -- Que país é este? Já matou seu comunista hoje?
Velhos slogans borrados nas paredes vêm-me à mente quando flagro, como um subversivo na noite, a notícia do que estão tramando as altas fontes do país.
Altas fontes, em geral, sabe-se, é cascata.
O que me é confirmado por alguns amigos ou melhor informados do que eu, ou, mais provável, agentes do SNI, do DOPS e seus atuais equivalentes nesta Grã-Bretanha que a cada dia que passa me lembra o Bananão, apelido intimista e desairoso com que era chamado nosso país, o mesmo que deu ao mundo o mais pesado que o ar e as poéticas cidades verticais a que chamam de favelas, onde mora uma gente boa e trabalhadora que vive mais pertinho do céu.
Voltando ao solo do Reino Unido, país onde resolvi armar minha barraca, em dia mais pessimista com distensões, lentas ou graduais, ando levando tanto susto quanto naqueles dias, no Rio de 1968, quando batiam-me à porta não sabia se era a senhora do apartamento 506 ou um funcionário à paisana do Cenimar.
A culpa será dos jornais? Estarão todos sob censura prévia criativa? Algum motivo deve haver para tanto celebrar o naufrágio do Titanic. Escolado, ocorre-me que a tragédia do embate embarcação contra pedra de gelo nada mais é do que uma preparação psicológica para os dias que vêm aí.
Os dias que vêm aí. Lá estava no jornal do dia 2 de janeiro em 2 sucintas colunas a notícia, supostamente especulativa, de que está em fase de estudo uma lei, já contando com uma boa maioria de parlamentares e autoridades, que tornaria os cidadãos britânicos e todos que nestas ilhas habitam sujeitos a uma sofisticadérrima vigilância na internet que tornaria este país mais rígido com seus cidadãos informatizados do que a China.
Sim, claro, há uma campanha por gente de bem que dá o sinal de alerta. Conheci muita gente de bem, nos brasileiros anos de chumbo, que caiu do helicóptero ou pelo gato foi comida. Prezo e temo por eles.
Aquilo que se propõe tornar lei é simples e direto como 200 volts nas partes pudendas ou pau-de-arara.
A principal agência de informações, a GCHQ (a central de comunicações do governo), teria, ou terá, o direito de monitorar todas as chamadas, todos os e-mails, textos, pesquisas e visitas a websites feitas por qualquer residente neste país.
As firmas que lidam com a internet poderiam, ou poderão, receber ordens ("Tejo preso!") no sentido de fornecer à agência de informações acesso em tempo real a toda e qualquer comunicação que lhe for ordenada.
Por Ivan Lessa via BBC Brasil
Diversos ministros insistem no fato de que é essencial para os serviços policiais e de segurança ter acesso aos dados enumerados acima afim de combater o terrorismo e proteger o público.
No momento, tudo isso pode ser obtido mediante mandado oficial, o que, pensam muitos, dá uma trabalheira danada e tempo para a subversão marchar para cima e para baixo com Deus e a Família pelo país inteiro espalhando a brasa viva e ardente da Tradição e da verdadeira Liberdade.
Com uma nova legislação mais rigorosa e ágil como Messi ou Cristiano Ronaldo disparando pelo miolo do campo adversário (esses terroristas...), as coisas se tornariam mais simples.
E a simplicidade – pergunte a qualquer chinês – é a alma do negócio dos pastéis.
Ivan Lessa -- Que país é este? Já matou seu comunista hoje?
Altas fontes, em geral, sabe-se, é cascata.
O que me é confirmado por alguns amigos ou melhor informados do que eu, ou, mais provável, agentes do SNI, do DOPS e seus atuais equivalentes nesta Grã-Bretanha que a cada dia que passa me lembra o Bananão, apelido intimista e desairoso com que era chamado nosso país, o mesmo que deu ao mundo o mais pesado que o ar e as poéticas cidades verticais a que chamam de favelas, onde mora uma gente boa e trabalhadora que vive mais pertinho do céu.
Voltando ao solo do Reino Unido, país onde resolvi armar minha barraca, em dia mais pessimista com distensões, lentas ou graduais, ando levando tanto susto quanto naqueles dias, no Rio de 1968, quando batiam-me à porta não sabia se era a senhora do apartamento 506 ou um funcionário à paisana do Cenimar.
A culpa será dos jornais? Estarão todos sob censura prévia criativa? Algum motivo deve haver para tanto celebrar o naufrágio do Titanic. Escolado, ocorre-me que a tragédia do embate embarcação contra pedra de gelo nada mais é do que uma preparação psicológica para os dias que vêm aí.
Os dias que vêm aí. Lá estava no jornal do dia 2 de janeiro em 2 sucintas colunas a notícia, supostamente especulativa, de que está em fase de estudo uma lei, já contando com uma boa maioria de parlamentares e autoridades, que tornaria os cidadãos britânicos e todos que nestas ilhas habitam sujeitos a uma sofisticadérrima vigilância na internet que tornaria este país mais rígido com seus cidadãos informatizados do que a China.
Sim, claro, há uma campanha por gente de bem que dá o sinal de alerta. Conheci muita gente de bem, nos brasileiros anos de chumbo, que caiu do helicóptero ou pelo gato foi comida. Prezo e temo por eles.
Aquilo que se propõe tornar lei é simples e direto como 200 volts nas partes pudendas ou pau-de-arara.
A principal agência de informações, a GCHQ (a central de comunicações do governo), teria, ou terá, o direito de monitorar todas as chamadas, todos os e-mails, textos, pesquisas e visitas a websites feitas por qualquer residente neste país.
As firmas que lidam com a internet poderiam, ou poderão, receber ordens ("Tejo preso!") no sentido de fornecer à agência de informações acesso em tempo real a toda e qualquer comunicação que lhe for ordenada.
Por Ivan Lessa via BBC Brasil
Diversos ministros insistem no fato de que é essencial para os serviços policiais e de segurança ter acesso aos dados enumerados acima afim de combater o terrorismo e proteger o público.
No momento, tudo isso pode ser obtido mediante mandado oficial, o que, pensam muitos, dá uma trabalheira danada e tempo para a subversão marchar para cima e para baixo com Deus e a Família pelo país inteiro espalhando a brasa viva e ardente da Tradição e da verdadeira Liberdade.
Com uma nova legislação mais rigorosa e ágil como Messi ou Cristiano Ronaldo disparando pelo miolo do campo adversário (esses terroristas...), as coisas se tornariam mais simples.
E a simplicidade – pergunte a qualquer chinês – é a alma do negócio dos pastéis.
segunda-feira, 9 de abril de 2012
Elio Gaspari -- O presidente Demóstenes em Nova York
Setembro de 2015: Eleito presidente da República em novembro do ano passado, Demóstenes Torres chegou ontem a Nova York para abrir a Assembleia Geral das Nações Unidas. Reuniu-se com o presidente Barack Obama, de quem cobrou uma política mais agressiva contra os governos de Bolívia, Equador e Venezuela, “controlados por aparelhos partidários que sonham em transformar a América Latina numa nova Cuba”.
Antes de embarcar, Demóstenes abriu uma crise diplomática com o Paraguai, anunciando sua intenção de rever o tratado da hidrelétrica de Itaipu.
O presidente brasileiro assumiu prometendo fazer “a faxina ética de que o país precisa”. Para isso, criou um ministério com superpoderes, entregue ao ex-presidente do Supremo Tribunal Federal Gilmar Mendes.
Numa reviravolta em relação a suas posições anteriores, o presidente apoiou um projeto que legaliza o jogo no país. Ele reestruturou o programa Bolsa Família, reduzindo-lhe as verbas e criando obstáculos para o acesso aos seus benefícios. Patrocinou projetos reduzindo a maioridade penal para 16 anos, e autorizando a internação compulsória de drogados. Determinou que uma comissão especial expurgue o catálogo de livros didáticos distribuídos pelo Ministério da Educação.
Atualmente, percorre o país pedindo a convocação de uma Assembleia Constituinte. A oposição do Partido dos Trabalhadores denuncia a existência de uma aliança entre o presidente e quase todos os grandes meios de comunicação do país.
Ao desembarcar no aeroporto Kennedy, Demóstenes ironizou as críticas à presença de uma jovem assessora na sua comitiva: “Lamentavelmente, ela não é minha amante, porque é linda”.
À noite, o presidente compareceu a um jantar no restaurante Four Seasons, organizado pelo empresário Claudio Abreu, que até março de 2012 dirigia um escritório regional de relações corporativas da empreiteira Delta. Abreu é o atual secretário-executivo da Comissão de Revisão dos Contratos de Grandes Obras, presidida pelo ex-procurador geral Roberto Gurgel.
Chamou atenção na comitiva do presidente o fato de alguns integrantes carregarem celulares habilitados numa loja da Rua 46. Eles são chamados de “Clube do Nextel”.
Em 2012, a carreira do atual presidente foi ameaçada por uma investigação que o associava ao empresário Carlos Augusto Ramos, também conhecido como Carlinhos Cachoeira, marido da ex-mulher do atual senador Wilder Pedro de Morais, que era suplente de Demóstenes.
O trabalho da Polícia Federal foi desqualificado pela Justiça. O assunto foi esquecido quando surgiram as denúncias do BolaGate contra o governo da presidente Dilma Rousseff envolvendo contratos de serviços e engenharia de estádios para a Copa do Mundo cancelada em 2013.
A eleição de campeões da moralidade é um fenômeno comum no Brasil. Em 1959, Jânio Quadros elegeu-se montando uma vassoura. Em 1989, triunfou Fernando Collor de Mello.
O primeiro renunciou numa tentativa de golpe de Estado e terminou seus dias apoquentado por pressões familiares para que revelasse os números de suas contas bancárias no exterior.
O segundo deixou o poder acusado de corrupção e viveu por algum tempo em Miami, elegeu-se senador e apoiou a candidatura de Demóstenes. O tesoureiro de sua campanha foi assassinado.
Presente ao jantar do Four Seasons, o empresário Carlos Augusto Ramos não quis falar à imprensa. Ele hoje lidera o setor da indústria farmacêutica brasileira beneficiado pelos incentivos concedidos no governo anterior. Ramos chegou acompanhado pelo ministro dos Transportes, Marconi Perillo, que governou o estado do presidente e foi o principal articulador do apoio do PSDB à sua candidatura.
Uma dissidência do PT, liderada pelo deputado Rubens Otoni, também apoiou a candidatura de Demóstenes. O presidente anunciou que a BingoBrás será presidida por um ex-petista.
Abril de 2012: quem conhece o tamanho do conto do vigário moralista de Fernando Collor e Jânio Quadros sabe que tudo o que está escrito aí em cima poderia ter acontecido.”
domingo, 8 de abril de 2012
terça-feira, 3 de abril de 2012
Rede Brasil Atual -- Para Chauí, ditadura iniciou devastação física e pedagógica da escola pública
Chauí, que "fechou as portas para a mídia" e diz não conceder entrevistas desde 2003, falou com o editor da Revista do Brasil, Paulo Donizetti de Souza, após palestra feita no lançamento da escola 28 de de Agosto, iniciativa do Sindicato dos Bancários de São Paulo que elogiou por projetar cursos de administração que resgatem conteúdos críticos e humanistas dos quais o meio universitário contemporâneo hoje se ressente.
Quais foram os efeitos do regime autoritário e seus interesses ideológicos e econômicos sobre o processo educacional do Brasil?
Vou dividir minha resposta sobre o peso da ditadura na educação em três aspectos. Primeiro: a violência repressiva que se abateu sobre os educadores nos três níveis, fundamental, médio e superior. As perseguições, cassações, as expulsões, as prisões, as torturas, mortes, desaparecimentos e exílios. Enfim, a devastação feita no campo dos educadores. Todos os que tinham ideias de esquerda ou progressistas foram sacrificados de uma maneira extremamente violenta.
Em segundo lugar, a privatização do ensino, que culmina agora no ensino superior, começou no ensino fundamental e médio. As verbas não vinham mais para a escola pública, ela foi definhando e no seu lugar surgiram ou se desenvolveram as escolas privadas. Eu pertenço a uma geração que olhava com superioridade e desprezo para a escola particular, porque ela era para quem ia pagar e não aguentava o tranco da verdadeira escola. Durante a ditadura, houve um processo de privatização, que inverte isso e faz com que se considere que a escola particular é que tem um ensino melhor. A escola pública foi devastada, física e pedagogicamente, desconsiderada e desvalorizada.
E o terceiro aspecto?
A reforma universitária. A ditadura introduziu um programa conhecido como MEC-Usaid, pelo Departamento de Estado dos Estados Unidos, para a América Latina toda. Ele foi bloqueado durante o início dos anos 1960 por todos os movimentos de esquerda no continente, e depois a ditadura o implantou. Essa implantação consistiu em destruir a figura do curso com multiplicidade de disciplinas, que o estudante decidia fazer no ritmo dele, do modo que ele pudesse, segundo o critério estabelecido pela sua faculdade. Os cursos se tornaram sequenciais. Foi estabelecido o prazo mínimo para completar o curso. Houve a departamentalização, mas com a criação da figura do conselho de departamento, o que significava que um pequeno grupo de professores tinha o controle sobre a totalidade do departamento e sobre as decisões. Então você tem centralização. Foi dado ao curso superior uma característica de curso secundário, que hoje chamamos de ensino médio, que é a sequência das disciplinas e essa ideia violenta dos créditos. Além disso, eles inventaram a divisão entre matérias obrigatórias e matérias optativas. E, como não havia verba para contratação de novos professores, os professores tiveram de se multiplicar e dar vários cursos.
"Fazer uma universidade comprometida com o que se passa na realidade social e política se tornou uma tarefa muito árdua e difícil"
Houve um comprometimento da inteligência?
Exatamente. E os professores, como eram forçados a dar essas disciplinas, e os alunos, a cursá-las, para terem o número de créditos, elas eram chamadas de “optatórias e obrigativas”, porque não havia diferença entre elas. Depois houve a falta de verbas para laboratórios e bibliotecas, a devastação do patrimônio público, por uma política que visava exclusivamente a formação rápida de mão de obra dócil para o mercado. Aí, criaram a chamada licenciatura curta, ou seja, você fazia um curso de graduação de dois anos e meio e tinha uma licenciatura para lecionar. Além disso, criaram a disciplina de educação moral e cívica, para todos os graus do ensino. Na universidade, havia professores que eram escalados para dar essa matéria, em todos os cursos, nas ciências duras, biológicas e humanas. A universidade que nós conhecemos hoje ainda é a universidade que a ditadura produziu.
Essa transformação conceitual e curricular das universidade acabou sendo, nos anos 1960, em vários países, um dos combustíveis dos acontecimentos de 1968 em todo mundo.
Foi, no mundo inteiro. Esse é o momento também em que há uma ampliação muito grande da rede privada de universidades, porque o apoio ideológico para a ditadura era dado pela classe média. Ela, do ponto de vista econômico, não produz capital, e do ponto de vista política, não tem poder. Seu poder é ideológico. Então, a sustentação que ela deu fez com que o governo considerasse que precisava recompensá-la e mantê-la como apoiadora, e a recompensa foi garantir o diploma universitário para a classe média. Há esse barateamento do curso superior, para garantir o aumento do número de alunos da classe média para a obtenção do diploma. É a hora em que são introduzidas as empresas do vestibular, o vestibular unificado, que é um escândalo, e no qual surge a diferenciação entre a licenciatura e o bacharelato.
Foi uma coisa dramática, lutamos o que pudemos, fizemos a resistência máxima que era possível fazer, sob a censura e sob o terror do Estado, com o risco que se corria, porque nós éramos vigiados o tempo inteiro. Os jovens hoje não têm ideia do que era o terror que se abatia sobre nós. Você saía de casa para dar aula e não sabia se ia voltar, não sabia se ia ser preso, se ia ser morto, não sabia o que ia acontecer, nem você, nem os alunos, nem os outros colegas. Havia policiais dentro das salas de aula.
Houve uma corrente muito forte na década de 60, composta por professores como Aziz Ab'Saber, Florestan Fernandes, Antonio Candido, Maria Vitória Benevides, a senhora, entre outros, que queria uma universidade mais integrada às demandas da comunidade. A senhor tem esperança de que isso volte a acontecer um dia?
Foi simbólica a mudança da faculdade para o “pastus”, não é campus universitário, porque, naquela época, era longe de tudo: você ficava em um isolamento completo. A ideia era colocar a universidade fora da cidade e sem contato com ela. Fizeram isso em muitos lugares. Mas essa sua pergunta é muito complicada, porque tem de levar em consideração o que o neoliberalismo fez: a ideia de que a escola é uma formação rápida para a competição no mercado de trabalho. Então fazer uma universidade comprometida com o que se passa na realidade social e política se tornou uma tarefa muito árdua e difícil.
"Esse é o momento também em que há uma ampliação muito grande da rede privada de universidades, porque o apoio ideológico para a ditadura era dado pela classe média"
Não há tempo para um conceito humanista de formação?
É uma luta isolada de alguns, de estudantes e professores, mas não a tendência da universidade.
Hoje, a esperança da formação do cidadão crítico está mais para as possibilidades de ajustes curriculares no ensino fundamental e médio? Ou até nesses níveis a educação forma estará comprometida com a produção de cabeças e mãos para o mercado?
Na escola, isso, a formação do cidadão crítico, não vai acontecer. Você pode ter essa expectativa em outras formas de agrupamento, nos movimentos sociais, nos movimentos populares, nas ONGs, nos grupos que se formam com a rede de internet e nos partidos políticos. Na escola, em cima e em baixo, não. Você tem bolsões, mas não como uma tendência da escola.