segunda-feira, 1 de fevereiro de 2010

Eleições 2010 em MG – Parte I, a disputa pelo Senado

Dizer que a eleição para presidente da República deste ano passará por Minas Gerais é redundância, chega quase a ser um pleonasmo. Ou para usar uma frase bem popular aqui em Minas, “é chover no molhado”. Só o fato de Minas possuir o segundo maior colégio eleitoral do país, com cerca de 13,2 milhões de eleitores, o que por sua vez corresponde a aproximadamente 10,5% do eleitorado nacional, já é o suficiente para se fazer tal afirmação. No entanto nesse ano de 2010, em particular, Minas Gerais será decisiva para as pretensões tanto do atual grupo político que governa o Brasil quanto para o bloco de oposição conservadora. Por isso a necessidade de ficar atento a todos os lances dum intricado xadrez que precede a homologação das candidaturas ao governo estadual e ao Senado por Minas.

Caso Aécio ceda a pressão do bloco de oposição conservadora e aceite o papel de coadjuvante na chapa protagonizada por José Serra, os tucanos sairão de Minas com uma votação expressiva que somada a votação que supostamente terão – e hoje essa é uma suposição bem fundamentada e bastante verossímil – no estado de São Paulo pode lhes garantir o retorno ao Palácio do Planalto.

Por outro lado, se Aécio não se vergar diante dos demais cardeais tucanos e demos, se preocupando basicamente em empossar alguém de sua extrema confiança na cadeira que hoje é sua e se dedicar a uma vitória certa, tranqüila e sem maiores sobressaltos ao Senado Federal, então o caminho estará aberto, ainda que com algumas dificuldades, para que o presidente Lula, do alto da popularidade que detém em Minas, transfira votos para sua candidata Dilma Rousseff.

Como disse acima, se Aécio mantiver o que vem dizendo até agora e realmente se candidatar ao Senado terá uma vitória certa, tranqüila e sem maiores sobressaltos. Restaria ainda uma segunda vaga. Tilden Santiago que foi candidato ao mesmo cargo pelo PT em 2002 e por pouco não logrou êxito, agora é um neo-aécista, migrou para o PSB e já está em campanha, embora não oficial por enquanto, pelo estado. Tilden parece se fiar num suposto acordo com Aécio. Penso que Tilden confia mais do que deveria no governador mineiro. Ademais, Tilden que dificilmente terá o apoio entusiasmado de Aécio e sem a máquina petista que lhe garantiu milhões de votos há 8 anos atrás não terá condições de repetir o desempenho daquele ano quando disputou voto a voto com Hélio Costa a segunda vaga mineira – a primeira foi ocupada por Eduardo Azeredo. Aliás, Hélio Costa é devedor ao PT mineiro, pois não fosse a aliança branda entre PT e PMDB com os petistas descarregando o segundo voto para Senador em Costa, ele jamais seria eleito e a segunda vaga certamente ficaria com Tilden.

Pelo lado do Partido dos Trabalhadores a coisa anda um tanto complicada. Até o momento o partido possui dois pré-candidatos ao Palácio da Liberdade, o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel e o ministro do Desenvolvimento Social Patrus Ananias. Existe ainda uma chance bastante razoável de nenhum deles ser candidato a governador. Estou falando da possibilidade real, e um temor tanto da maioria dos filiados quanto da militância, de o PT nacional intervir em Minas por um acordo com o atual ministro das Organizações Globo, perdão, das Comunicações Hélio Costa, o candidato do PMDB.

Trabalhando com o cenário de Fernando Pimentel ser o candidato, pois é o favorito nas prévias internas --Pimentel tem hoje a maioria no Diretório Estadual e no recentemente reeleito presidente estadual do PT, deputado federal Reginaldo Lopes, o principal cabo eleitoral ¬--Patrus seria o nome natural ao Senado. Com certeza Patrus largaria bem, tendo o apoio dos mais diversos movimentos sociais, inclusive da parte progressista da Igreja Católica. O ministro do DS também já foi prefeito de BH e permanece na lembrança do eleitorado da capital como excelente governante. Patrus contaria também com a força do PT na região metropolitana. Portanto, um candidato nada desprezível a segunda vaga ao Senado.

Porém, na última semana o vice-presidente José Alencar manifestou a intenção de continuar a carreira de homem público e o desejo de retornar ao Senado. Alencar foi eleito Senador em 1998, deixando o cargo em janeiro de 2003 para assumir a vice-presidência da República. Enquanto Alencar manifestava seu desejo, Lula declarava em alto e bom som, se Alencar de fato quiser retornar ao Senado o PT o apoiará. Alencar, peça nova nesse xadrez, conta com imensa popularidade no estado e além de tudo acaba de sair de um drama pessoal, uma luta árdua contra o câncer. O público em geral se comove com histórias como esta, o que acaba refletindo na hora do voto. Coligando-se com Alencar o PT dificilmente terá outro nome de expressão disputando o Senado.

Igualmente durante a última semana, para a surpresa dos mais desavisados, Itamar Franco se lançou candidato ao Senado pelo liqüidacionista PPS. Aécio Neves é o guia político da vez de Itamar. Antes já foram seus guias o avô de Aécio, Tancredo, seguido por Collor, FHC e Lula.

O nome de Itamar vinha sendo ventilado para ocupar o posto de vice-presidente na chapa de José Serra caso Aécio realmente refute o papel. Com certeza tratava-se de uma piada, pois não acredito que ninguém em sã consciência possa querer nosso Forrest Gump tupiniquim para ser vice de qualquer coisa. Itamar depois de passar a faixa presidencial para seu ex-primeiro-ministro FHC esperando que este lhe retribuísse o gesto dali quatro anos, sentiu-se traído pelo golpe branco da reeleição dado por FHC. No mais FHC pode até ter vendido o Brasil – aqui vender é força de expressão – mas não seria tão irresponsável a ponto de levar a sério as pretensões de nosso Forrest Gump. Por fim, mas pouco conformado de não retornar ao Palácio do Planalto, candidatou e sagrou-se governador de Minas Gerais em 1998 fazendo um governo – governo aqui é outra força de expressão – entre o pífio e o desastroso, o catastrófico e o anedótico.

Pode-se afirmar com certeza que sem o apoio de Aécio, Itamar seria nome mediocre para o Senado. Todavia Aécio além de ótimo marqueteiro, amordaçador de imprensa, inimigo dos movimentos sociais, yuppie- playboy e chegado a obras faraônicas que pouco ou nada representam para o conjunto da sociedade (vide a Cidade Administrativa), também tem se notabilizado pela capacidade de ressuscitar múmias políticas. Em 2006 elegeu Eliseu Rezende, então com 77 anos e há muito num diletante ostracismo que não fazia mal a ninguém, Senador da República. A campanha na TV parecia quadro de programa humorístico. Eliseu sentado sem dizer nada, apenas sorrindo, e Aécio em pé ao seu lado, vendendo-o qual um produto que recomendasse.

Sendo assim Itamar e o PPS – partido que não possui vontade própria e vive a reboque de PSDB e DEMO – não se aventurariam a lançar candidatura ao Senado sem o aval de Aécio, e aí pode estar um recado para José Serra. Levemos a sério as sondagens em torno de Itamar para vice de Serra, tirando Forrest Gump da cena nacional Aécio pode estar sinalizando que ainda há a possibilidade de se ter uma chapa tucana puro sangue.

A única coisa que parece mais ou menos delineada nessa refrega ao Senado por Minas é a vontade de Itamar e Tilden por falta de melhor opção para ambos. Pois o futuro de Aécio pode ser, como escrevi antes, a campanha a vice-presidência ou ao Senado. O candidato do PT depende de se resolver primeiro quem será o candidato a governador do partido e se o partido terá um candidato a governador. Caso o partido coligue com Hélio Costa deverá ter a premissa de indicar o candidato mais forte ao Senado e é bem provável nesse quadro que Patrus seja o escolhido. Pimentel é no momento um dos principais coordenadores da pré-campanha de Dilma e deverá, numa eventual desistência da disputa mineira conjugada a terceira presidência petista, ocupar um cargo de destaque, quiçá até o Ministério da Fazenda.

Já José Alencar pode ter colocado seu nome no jogo apenas a pedido de Lula. O nome de Alencar tem o poder de enturvecer o futuro do PSDB, mais precisamente o de José Serra. Mas isso veremos no próximo artigo.

3 comentários:

Blog do Morani disse...

Hudson: De todo o seu comentário sobre as eleições de 2010 em Minas Gerais, muito me agradou à alusão sobre o "Ministro" das Organizações Globo, que é realmente o papel primordial do senhor Helio Costa para depois assumir postura de Ministro das Comunicações. Não possuo conhecimento profundo sobre os canditados de Minas ao Senado, mas Patrua Ananias, que já esteve cotado à possível candidatura à Presidência da República, em lugar de Dilma Roussef - que Deus nos livre! - tem toda chance a qualquer cargo eletivo. Influências do Planalto... Se mineiro eu fosse, nem um só deles seria o meu candidato. Sobre Alencar, concordo com tudo o que diz. O brasileiro age com o emocional, nunca com o racional, mas não é um candidato ruím. Aécio não nos servirá nem como Senador, justamente por ser contrário aos movimentos sociais, que soem acontecer em um país em que o "social" jamais foi levado a sério, e sempre o menos lembrado pelos politiqueiros de última hora. O que e o que era Aécio antes do surgimento em caráter nacional de Tacredo Neves? Que apito tocava? Surgiu graças ao mal que se abateu sobre o nobre mineiro, seu parente. Uma simbiose se processou durante à sua proximidade ao candidato à Presid~encia, Tancredo Neves, caso contrário continuaria o "play-boy" das noites belo-horizontinas.
Esse jogo de interesses policos é que tem se tornado o cancro de nossa política: as coligações, entre cidadãos antes "azedos" uns aos outros. Tornam-se práticos dos "tapinhas carinhosos e fingidos" às costas, como nos costumamos ver e nos enojar. Lula ensinou o que é "não fazer política", e parece que arregimentou adeptos a granel. Repito o que já disse anteriormente e já há algum tempo atrás: "enquanto não se mudar a consciência do brasileiro - eleitor ou não - como cidadão, simplesmente, não teremos no Brasil um só governante, ou um só político honorável". O cancro se enraizou nesse meio onde pululam ignorantes, boçais, interessados só em seus ganhos e em acumular bens, e o povo que se lixe!

Prof. Yuri Almeida Gonçalves disse...

E o Nilton Cardoso, o PT esqueceu dele?
Nem coloca essa história no blog se não nossos amigos da Guanabara vão querer entender como aquilo acontecera!

João Alexandre Moura Oliveira disse...

saudades do Newton Porcão