domingo, 27 de novembro de 2011

O discurso ideológico da pesca

Por Tiago Mafra

Mais do mesmo: “Não de somente o peixe, ensina a pescar”. Creio que já passamos desta fase, principalmente quando se sabe que a questão não é propriamente o ensinar a pescar, mas a quem pertence a vara e os apetrechos para o desenvolvimento da pesca.

A desigualdade social presente em nossa sociedade é fruto do modo de vida e produção a que estamos submetidos. Esse sistema nos viola a todo dia, nos impede de sermos plenamente cidadão e de buscarmos coletivamente as respostas para as questões problemáticas e as situações críticas que enfrentamos.

Tendemos a colocar unicamente no indivíduo a culpa, como se este fosse o responsável por não conseguir pescar. Como afirma o sociólogo Zygmunt Bauman, “tendemos a culpabilizar o indivíduo em questões exteriores a ele, não geradas por ele, mas sofridas por ele. Somos impelidos a buscar soluções biográficas para questões sistêmicas”.

Assim, em tempos de crise, voltam os apelos para o “resgate do espírito empreendedor”, do “protagonismo”, da independência em relação ao Estado. Cabe salientar que independência em relação ao Estado, na atua conjuntura, nos leva a uma dependência do mercado, que não perdoa e explora das mais diversas formas o trabalhador e todos os seus espaços de vivencia.

Precisamos sim de protagonistas, mas daqueles que se reconhecem como componentes de algo maior, de um grupo que partilha das mesmas necessidades de classe e que pode a partir daí, construir conjuntamente o poder de forma reflexiva, crítica e legítima. Esse protagonismo reconhece primeiramente, que o problema não é o próprio indivíduo, mas a estrutura que o cerca, para então, poder propor algo novo.

A ONU alerta que juntamente com os demais países da América Latina, o Brasil compõe a área mais desigual do mundo. Ou seja: carece de distribuição de renda, terra e de controle das informações, para poder tomar em suas mãos os rumos de sua existêcia.
O geógrafo negro Milton Santos, certa vez escreveu que tempos de crise estrutural requerem remédios estruturais.

Não nos enganemos pelo discurso da culpabilização individual. O país carece de reforma agrária, distribuição de renda e a construção de espaços efetivamente democráticos, onde o povo seja capaz de aprender e de decidir sem intermediações. Talvez nesse dia, possamos falar em ensinar a pescar, pois os instrumentos da pesca serão de todos.

Tiago Barbosa Mafra, Professor de História e Geografia na rede municipal de ensino de Poços de Caldas e no pré-vestibular comunitário Educafro.

Música de Domigo – Heavy Meytal do Senhor (Zeca Baleiro)

quarta-feira, 23 de novembro de 2011

Europa desolada

Cenário político europeu é desolador, avalia professor


Ana Cláudia Barros, no Terra Magazine

Os primeiros seis meses de governo serão um duro teste para o conservador Mariano Rajoy, eleito primeiro-ministro da Espanha no último domingo (20) em meio a uma das maiores crises econômicas enfrentadas pelo País nos últimos anos. A análise é do especialista em relações internacionais Virgílio Arraes, da Universidade de Brasília (UnB). O Partido Popular (PP), liderado por Rajoy, impôs uma derrota histórica ao Partido Socialista Operário Espanhol, de José Luís Rodríguez Zapatero, que deixa o poder após dois mandatos à frente do Executivo. Mesmo com maioria absoluta no Congresso, o novo primeiro-ministro terá, entre os primeiros desafios, que convencer o Parlamento a adotar as medidas de efeito recessivo exigidas pela Alemanha, conforme destaca Arraes.


- A Alemanha espera que a Espanha se torne o exemplo da União Europeia no sentido de corrigir as chamadas "distorções" que ocorreram nos últimos anos e que fizeram com que a União Europeia não estivesse preparada para enfrentar a crise irradiada pelos Estados Unidos no final de 2008. Neste sentido, os conservadores na Espanha avisaram que, com a vitória, vão aplicar uma série de medidas de efeito recessivo. Vamos ver se o Parlamento vai aprovar os projetos de lei recomendados por Bruxelas, pela União Europeia. Pode haver ainda uma pressão do eleitorado no sentido de que essas medidas sejam amenizadas. A segunda fase, caso sejam aprovados os projetos, é ver se a situação no País vai de fato melhorar.

Para o professor, um outro aspecto a ser observado é o posicionamento adotado pelos socialistas, agora no papel de oposição.

- Seria uma incoerência não apoiarem as medidas de caráter recessivo que têm sido aplicadas por eles. Mas, ao mesmo tempo, como eles são oposição agora, provavelmente vão se colocar contrários. Isso desanima ainda mais o eleitor espanhol, que vê, no fundo, apenas um rodízio entre elites partidárias - afirma, explicando que a vitória esmagadora do PP, partido de centro-direita, não significou, necessariamente, um crescimento do eleitorado conservador.

Arraes enfatiza que na Espanha, a exemplo do que vem ocorrendo em outros países do continente, o índice de não comparecimento às urnas foi superior ao verificado nos últimos anos, revelando, segundo ele, um "desânimo em relação à política efetivada hoje pela União Europeia".

- As duas grandes correntes políticas comungam do mesmo posicionamento, independentemente do nome que a sigla sustente, como é o caso da Espanha. Foram socialistas que iniciaram medidas anti-sociais. Neste sentido, o eleitorado dos partidos conservadores na Europa não aumenta muito. Ele se situa mais ou menos no que era há alguns anos, mas a abstenção, somada à desilusão com os socialistas, fez com que proporcionalmente os conservadores tenham tido mais votos nestes últimos pleitos.

Na avaliação do especialista, a classe média, a mais afetada pela crise, não encontra representatividade nos partidos políticos.

- Há uma revolta da classe média, mas essa revolta não tem eco nos partidos políticos da Europa. Não há nenhum partido , com peso em seus respectivos países, que possa se contrapor às exigências que estão sendo feitas hoje pela Alemanha, basicamente. O descontentamento que existe na Grécia, Portugal, Irlanda, Itália é porque a população está sendo convocada, e não convidada, a pagar os custos de uma conta que vem do setor financeiro. Setor financeiro que não está sendo responsabilizado pela crise.

"Cenário desolador"

Na análise de Virgílio Arraes, o cenário hoje na política europeia é "desolador porque não há coerência no dia a dia dos partidos".

- A União Europeia se desloca em função dos interesses de sua própria burocracia e de grandes corporações existentes nela. Durante décadas, acreditou-se que o melhor para a Europa seria uma tecnocracia desnacionalizada, uma tecnocracia que não se deixasse influenciar pelas paixões locais, pelo ritmo eleitoral de cada um dos países e, de certa forma, enquanto no período da Guerra Fria a vida dos europeus melhorou, a população não prestava muita atenção no deslocamento de poder do seu país para uma união supranacional. Mas a partir dos anos 90, com o fim da União Soviética, isso tudo começa a ser desmontado. No século XXI, é ainda mais intensificado, porque os dirigentes, as grandes corporações começam a alegar que, caso os direitos sociais sejam mantidos na escala em que estão, a Europa não teria mais condições de competir com países da Ásia e da América do Sul.

Para o professor da Unb, esta ótica, alicerçada na competitividade e na produtividade, deve ser submetida a questionamentos.

- O importante é saber se vale a pena isso. Se é interessante que daqui a dez, 15 anos, um europeu tenha condições de vida próximas a de um trabalhador chinês, por exemplo. Se a China é o exemplo do futuro, então, esse sistema todo,construído durante mais de 100 anos, através das lutas sociais, perdeu o sentido.O preocupante é que, positivo ou negativo, a Europa e, depois da Segunda Guerra, os Estados Unidos, foram espelhos do ocidente. Se a classe média na Europa e nos Estados Unidos têm uma queda no seu nível de vida em nome de uma competitividade, isso, certamente vai ter impacto no resto do mundo.

De acordo com ele, esse é um momento-chave para a União Europeia.

- Primeiro, foram países periféricos atingidos pela crise, agora, países médios, como a Itália. E o preocupante é que a França pode ser a próxima. Então, a questão é repensar se a forma como a União Europeia foi estruturada nos últimos anos está correta. Se até os países mais fortes estão entrando numa crise que se iniciou há três anos, então, é a hora de se repensar se é a União Europeia que não está adequada ao momento econômico, e não seus membros.

Arraes entende que todo o sacrifício imposto pelas medidas de contenção da crise, como aumento de impostos, redução de direitos trabalhistas, pode ser em vão.

- A hora é de rever a própria União Europeia. Não pensar o seu fim ou numa suspensão, como parte da elite inglesa acredita. Mas avaliar se uma União Europeia, moldada nos interesses de uma tecnocracia insensível que só se lastreia em números, resultados, e não nas pessoas, se esse modelo realmente teve êxito. Não é o momento de se questionar as políticas nacionais, mas sim, as regras da União Europeia. A crise não é de fato mundial. Ela não atingiu a Ásia nem a América Latina com a mesma intensidade com que está atingindo a União Europeia. É preciso pensar em reformar a União Europeia, e não de sacrificar, pouco a pouco, os próprios países membros.

segunda-feira, 21 de novembro de 2011

Michael Schlecht, deputado e economista alemão: "A democracia europeia afunda nos braços das finanças"


"A democracia está desaparecendo na Europa", diz líder da esquerda alemã


Cai o primeiro ministro-grego Yorgos Papandreu, substituído por um emissário do sistema bancário. Cai o presidente do Conselho Italiano, Silvio Berlusconi, substituído por outro tecnocrata interlocutor do sistema financeiro. A crise da dívida cobrou mais do que estas duas vítimas: na Espanha modificou a agenda eleitoral; em Portugal os partidos implementaram reformas ditadas pelo FMI (Fundo Monetário Internacional) e pelo BCE (Banco Central Europeu); na Irlanda o desastre conduziu ao mesmo beco sem saída. A democracia europeia se converteu em uma democracia de banqueiros. A vontade das maiorias foi substituída por dirigentes saídos do coração dos bancos e que jamais se expuseram ao voto nem conquistaram nunca um mandato eletivo. O medo das urnas, ou seja, que o eleitorado rejeite os ajustes e a guilhotina social, conduz a colocar marionetes dos bancos à frente do Estado. Nunca como agora a ditadura dos mercados havia forçado o destino dos povos. As agências de qualificação desfazem as maiorias eleitas e as substituem por representantes da racionalidade financeira, as contas sem déficits e artesãos da decapitação social.

A democracia europeia afunda nos braços das finanças. O continente da liberdade se transformou em continente “Wall Street”. Gestores das finanças e dos bancos, sem a menor legitimidade democrática, chegam ao poder com o pôquer dos ajustes. O deputado e economista alemão Michael Schlecht, responsável pelo bloco parlamentar do partido Die Linke (A Esquerda) analisa nesta entrevista o transtorno das democracias européias e denuncia o papel que desempenhou o capitalismo alemão nesta mega crise. Para Michael Schlecht, a democracia está se evaporando do Velho Continente.

A democracia Européia está sendo construída pelos bancos, não pelos eleitores que decidem por uma maioria? Para além do que pensemos deles, Papandreu e Berlusconi são as vítimas mais recentes desta nova doutrina?
A resposta é muito simples. A democracia está desaparecendo dia após dia na Europa. Por exemplo, quando no dia cinco de junho passado se organizaram as eleições em Portugal, a Troika (Fundo Monetário Internacional, Banco Central Europeu, União Européia) pediu aos dois partidos políticos portugueses que tinham chances de ganhar as eleições que assinassem um acordo diante do qual se comprometessem em implementar as condições impostas pela Troika. Agora isso aconteceu com a Grécia e é a vez da Itália. Por conseguinte, pode-se dizer que os portugueses não tiveram eleições verdadeiramente livres. Foi usada uma arma contra eles. Na realidade, com esta política européia, a Alemanha está defendendo com unhas e dentes os interesses financeiros, os interesses do mercado. O governo de Angela Merkel tem uma atitude muito agressiva neste ponto. É uma agressão sem tanques. Mas o resultado é o mesmo.

Isso equivale dizer que a Alemanha é hoje a grande polícia financeira da Europa? A Alemanha, junto com a França, foi a vanguarda da substituição de poderes surgidos das urnas por tecnocratas teleguiados pelos bancos?

O que a Alemanha está fazendo é dando seu acordo ao que está ocorrendo. A Alemanha está preparando o terreno porque tem um excedente de exportações muito maior que suas importações. Nos últimos dez anos o excedente alemão alcançou um trilhão de euros. Por outro lado, este excedente gigantesco acarreta uma contrapartida da outra parte: faz com que a dívida cresça nos países importadores. Cerca de 50 ou 60% da dívida criada por esta política alemã aparece nas contas dos demais países da Europa. Todos falam da dívida na Europa, mas ninguém diz nada sobre o país que ganha muito com esta dívida. E este país é a Alemanha. A dívida dos países europeus é o resultado da política alemã no Velho Continente.

O núcleo desta política é o dumping dos salários. Nos últimos dez anos tivemos um dumping salarial que chega a 5%, e isso sem considerar a inflação. Nenhum outro país da Europa conhece uma situação semelhante derivada do dumping salarial. Esta política de dumping equivale a colocar uma metralhadora nas mãos dos capitalistas alemães. É uma arma muito destrutiva. No século passado, a Europa estava arrasada pelos tanques alemães. Agora está arrasada pela política de Angela Merkel.

A desaparição da democracia na Europa é um fato considerável. O Velho Continente é o berço da democracia. É um péssimo exemplo para o mundo. Por acaso não é o fim do poder e dos valores da Europa sobre o resto do planeta?

Veremos o que nos diz o futuro. Acho que, no próximo ano, os povos da Europa podem lutar e levantar-se em defesa dos interesses da democracia e contra os mercados financeiros. Aí teremos uma possibilidade de restabelecer a democracia na Europa. Esta é a luta da esquerda alemã neste momento.

Você acha realmente que haverá um povo mais forte disposto a encarar a luta? Por acaso não é tarde demais, por acaso a ideologia do consumo não adormeceu as consciências?

Acho que sob as condições que existem hoje podemos ver o surgimento de movimentos sociais fortes, como aconteceu na Grécia. A situação que encontramos na Alemanha incita a isso. A história está aberta para que os povos a escrevam.

O que aconteceu à social-democracia europeia? Embora seu inimigo ideológico, o ultraliberalismo, tenha cometido todos os erros possíveis e tenha afundado o planeta, o discurso da social-democracia não tem liga, não gera confiança. É uma crise da social-democracia ou uma crise do eleitorado?

As duas coisas. Estou convencido de que, dentro de um futuro imediato, teremos uma explosão na zona do euro. Teremos que escrever nos livros de história que os social-democratas alemães, junto ao partido verde, foram o poder político que gerou as medidas que conduzirão ao fim do euro. Os social-democratas e os verdes iniciaram o dumping salarial. Essa política é a responsável pelo que acontece hoje.

Reconheço o drama total que há neste momento na Europa por culpa desta situação. Durante muitos, muitos anos, foi necessário que, na Europa Central, houvesse guerras e morte. Depois de 1945 e pela primeira vez na história, tivemos 70 anos de paz, o que é totalmente anormal. A paz neste continente é uma anomalia.

Se olharmos a história da Europa notaremos que nunca antes tivemos 70 anos de paz seguidos. Agora, esta paz é o resultado dos intercâmbios de idéias e de mercadorias que se levou a cabo sob o abrigo da construção européia. Mas, se este abrigo se esfacela e cai sobre a cabeça dos povos, a situação se torna muito inquietante e perigosa. Talvez voltemos à mesma situação. Vamos tratar de melhorar o movimento de esquerda sob estas novas condições, vamos explicar melhor nossa política para ganhar a batalha.

domingo, 20 de novembro de 2011

Música de Domingo – Dirty Mac

The Dirty Mac foi uma criação de John Lennon. Formada por Lennon na guitarra base e vocal, Eric Clapton na Guitarra solo, Keith Richards no baixo (!!!) e, Mitch Mitchell na bateria.
Os músicos se juntaram especialmente, e exclusivamente, para tocar Yer Blues – composição de Lennon-McCartney e lançada pelos Beatles no White Album – durante o The Rolling Stones Rock and Roll Circus, um festival de Rock dentro de um circo. Ideia surgida da cabeça de Mick Jagger.



sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Tariq Ali: precisamos de novas formações políticas


Pescado na Fundação Lauro Campos


O historiador, novelista e ativista Tariq Ali, membro do Conselho Editorial de Sin Permiso, falou com Firas Khatib para a revista al-Akhbar sobre os desafios que enfrentam as Revoltas Árabes, o futuro da política dos EUA no Oriente Médio, depois da "retirada de tropas" do Iraque, e a importância da tomada de ruas e praças de cidades no mundo todo pelo atual movimento de dissenso.

As revoltas árabes

Firas Khatib: Você concorda com o argumento de que a mudança no mundo árabe foi incompleta?

Tariq Ali: Estou a favor dos levantes massivos no mundo árabe. Quando recém surgiram, os comparei com a Europa de 1848. [Então] houve imensos levantes que estabeleceram o quadro geral dos cem anos seguintes. Mas, quando ocorreram estes levantes na Europa, houve muitas derrotas e reveses, e penso que é o que provavelmente vamos presenciar e viver. Espero que não seja assim, mas, até agora, parece que as autoridades recuperarão a situação, prometendo umas poucas reformas por aqui e por ali, enquanto mantém em seu lugar o sistema. É o que está acontecendo na Tunísia e no Egito.

Líbia é outra história totalmente diferente, onde intervém o Ocidente, supostamente pelos direitos humanos e para evitar que Bengasi fosse tomada por Kadafi, e termina por combater na guerra, e a OTAN vem bombardeando este país durante mais de seis meses. E os resultados, a meu ver, serão uma bagunça. Argumentei que, quem quer que ganhe na Líbia, o povo líbio vai perder, em virtude do que está acontecendo. A Líbia é importante para eles não pela sua geografia, mas pela sua geologia: contém imensas reservas de petróleo e gás natural e não permitirão que lhes fuja do controle.

FK: Se passaram meses desde a explosão da "Primavera Árabe". Como avalia a reação de Obama?

TA: A reação inicial dos EUA foi de surpresa e medo. Surpresa porque isso havia acontecido e estava aumentando, e temor de que pudesse derrubar toda a fachada na região, com conseqüências imprevistas e imprevisíveis. Na Tunísia, os estadunidenses trataram tardiamente, através dos franceses, de manter Ben Ali no poder. O governo francês, Sarkozy e seu ministro de Defesa, ofereceram enviar soldados franceses para manter Ben Ali no poder, mas era tarde demais. Ben Ali já ia de avião à Arábia Saudita.

No Egito, trataram de controlar a situação, primeiro com a esperança de manter Mubarak no poder. Logo começaram numerosas negociações nos bastidores e, finalmente, notando que a situação podia ficar fora de controle e possivelmente levar a disputas no exército, os EUA aceitaram que Mubarak devia ir embora, portanto lhe colocaram uma camisa de força e o arrastaram, gritando e lutando, fora da cena política. E depois temos uma situação na qual sacrificaram Mubarak, mas querem ficar, persistir, como fazem no Paquistão, na Tunísia e em outros países onde as forças da morte e os ditadores foram removidos. E permitiram que se estabelecesse uma fachada civil, mas foi muito cuidadosamente negociada e coreografada. Não está dando muito bons resultados, porque o ataque de forças de segurança aos manifestantes cristãos na cidade do Cairo na semana passada mostra até que ponto a situação é frágil.

FK: Por que, depois de uma vitória similar para o povo do Egito, houve tantos reveses?

TA: Os levantes de massas são absolutamente vitais para derrubar um ditador, mas o que se coloca depois no lugar se dá com verdadeiros meios políticos. E a respeito disso, é de grande importância o fato de que estes novos movimentos no mundo árabe não tenham produzido novas formações políticas. Nesse aspecto, o contraste com a América do Sul é muito visível. Na América do Sul, durante todos os anos noventa e no Século XXI, estamos diante de uma combinação de massivos movimentos sociais, que produzem novas formas de organizações políticas. Essas organizações participaram de eleições e chegaram ao poder democrática e eleitoralmente, e depois implementaram reformas estruturais, desafiando o controle do capitalismo neoliberal. Não ao capitalismo em seu conjunto, mas esta forma particular de capitalismo. Sem novas formas de organizações políticas, as estruturas políticas existentes como a Irmandade Muçulmana, especialmente no Egito, têm uma imensa vantagem.

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terça-feira, 15 de novembro de 2011

Música de Feriadão – Especial Oasis


Arrogantes, esnobes, infantis, mimados, ególatras, mauricinhos, plagiadores. Esses são os adjetivos frequentemente usados para definir os irmãos Gallagher. Além, claro, de idiotas pela chata insistência que os próprios Gallagher têm em se comparar aos Beatles. E mesmo quando a discussão vai para o que realmente deveria importar, a qualidade da musica que produzem, a conversa parece não mudar de rumo: “o que matava o Oasis é os Gallagher serem tão arrogantes, esnobes...”.

Será???

Num cenário musical tão pasteurizado onde o bom-mocismo e o politicamente correto se tornaram regra (vide Coldplay, U2 e congêneres), o Oasis fugia a regra e era um suspiro do que ainda podia existir do espirito transgressor e provocador do Rock. As constantes brigas entre Noel e Liam ¬– tanto fora quanto em cima dos palcos – e suas declarações polêmicas denotavam justamente tal espirito avesso às convenções.

E, ao contrário do que muitos imaginavam, os desentendimentos públicos entre os irmãos não se tratava, meramente, de quererem chamar a atenção para si numa estratégia de autopromoção. Prova disso são algumas passagens ocorridas em 1996 e que entraram para o repertorio de polêmicas da banda.

Pouco antes da gravação dum MTV Unplugged, Liam, já nos camarins, alegou não ter condições de se apresentar por conta de uma suposta irritação na garganta, deixando com Noel a responsabilidade pelos vocais. Não demorou muito para Noel divulgar que Liam assistira a apresentação se esbanjando na cerveja e nos charutos. Poucos dias depois Liam deixou novamente o Oasis na mão ao se recusar a acompanha-los numa turnê pelos EEUU. Dessa vez alegando precisar de tempo para arranjar uma nova casa. Quando Liam finalmente resolveu se unir a banda, Noel teve a oportunidade de dar o troco e voltou para a Europa. Acho que não preciso dizer como os fãs ficaram putos com esses fatos. Tudo isso, afinal, não me parece ser uma boa jogada de marketing!!!

Mas vamos à carreira musical. As letras não muito trabalhadas por um lado e de outro a capacidade de Noel em transpor para o terreno musical sentimentos e coisas do cotidiano se tornaram hinos na voz de plateias em todo o mundo e o Oasis rapidamente se tornou a queridinha do público britânico. Uma estreia de arrebentar e milhões de álbuns vendidos depois fizeram o Oasis assumir a invejável posição de principal banda de Rock após a morte de Kurt Cobain.

Os três primeiros álbuns Definitely Maybe (1994) – que ostentou durante doze anos o posto de álbum de estreia mais vendido da história do Reino Unido –, (What's the Story) Morning Glory? (1995) – mais de 23 milhões de cópias vendidas em todo o mundo – e Be Here Now (1997) foram responsáveis por colocar o britpop no topo das paradas dos dois lados do Atlântico criando uma áurea mágica em torno da banda e elevando merecidamente Noel, o mais velho dos Gallagher, a condição de gênio.

Em 1998, apenas quatro anos após seu debute, o Oasis já lançava uma coletânea com 14 faixas só de b-sides, The Mastreplan, e logo essa coletânea se tornaria uma das mais cultuadas de todos os tempos.

Os anos 2000 e os álbuns seguintes não deram ao Oasis o mesmo sucesso da década e álbuns anteriores, contudo ainda continuaram como referência, os shows ainda atraiam multidões e em cima do palco a presença e energia da banda era a mesma – Familiar to Millions, gravado em Wembley em 2000, é dos meus discos ao vivo preferidos – e mesmo com álbuns abaixo daquilo que haviam mostrado antes, conseguiam trazer no mínimo três ou quatro hits.

Pena que a disputa de egos levou o Oasis ao fim após quase vinte anos de uma relação conturbada, porém, a de maior sucesso da música pop pós Nrivana.

Atualmente Liam e o que restou da última formação da banda formaram o Beady Eye e estão em turnê de divulgação do primeiro álbum do grupo Different Gear, Still Speeding, lançado em fevereiro desse ano, enquanto Noel acaba de lançar no Reino Unido Noel Gallagher`s High Flying Birds, seu primeiro trabalho solo.

Quem sabe, para o bem da música e deleite dos fãs, Noel e Liam deem um tempo em seus projetos em separado (e brigas via imprensa) e voltem a subir juntos no mesmo palco. Nem que seja apenas para comemorar os vinte anos de Definitely Maybe. O mundo da música agradeceria.

Discografia:

Álbuns de Estúdio

Definitely Maybe (1994)
(What's the Story) Morning Glory? (1995)
Be Here Now (1997)
Standing on the Shoulder of Giants (2000)
Heathen Chemistry (2002)
Don't Believe the Truth (2005)
Dig Out Your Soul (2008)

Ao vivo

Familiar to Millions (2000)

Coletâneas
The Masterplan (1998)
Stop the Clocks (2006)
Time Flies... 1994-2009 (2010)

Última formação

Liam Gallagher - Voz
Noel Gallagher - Guitarra e Voz
Gem Archer - Guitarra
Andy Bell - Baixo
Chris Sharrock – Bateria

Antigos integrantes

Tony McCarroll - Bateria (1991-1994)
Paul Arthurs - Guitarra (1991-1999)
Paul McGuigan - Baixo (1991-1999)
Alan White - Bateria (1995-2004)
Zak Starkey - Bateria (2004-2008)

















segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Grécia, Itália e os sagazes sarcasmos de Marx sobre os “governos técnicos”

Por Marcello Musto, via Carta Maior

Se retornasse ao debate jornalístico no mundo de hoje, analisando o caráter cíclico e estrutural das crises capitalistas, Marx poderia ser lido com particular interesse hoje na Grécia e na Itália por um motivo especial: a reaparição do “governo técnico”. Na qualidade de articulista do New York Daily Tribune, um dos diários de maior circulação de seu tempo, Marx observou os acontecimentos político-institucionais que levaram ao nascimento de um dos primeiros “governos técnicos” da história, em 1852, na Inglaterra: o gabinete Aberdeen (dezembro de 1852/janeiro de 1855).


A análise de Marx é notável por sua sagacidade e sarcasmo. Enquanto o Times celebrava o acontecimento como um sinal de ingresso “no milênio político, em uma época na qual o espírito de partido está destinado a desaparecer e no qual somente o gênio, a experiência, o trabalho e o patriotismo darão direito a acesso aos cargos públicos”, e pedia para esse governo o apoio dos “homens de todas as tendências”, porque “seus princípios exigem o consenso e o apoio universais”; enquanto os editorialistas do jornal diziam isso, Marx ridicularizava a situação inglesa no artigo “Um governo decrépito. Perspectivas do gabinete de coalizão”, publicado em janeiro de 1853.


O que o Times considerava tão moderno e bem articulado, era apresentado por Marx como uma farsa. Quando a imprensa de Londres anunciou “um ministério composto por homens novos”, Marx declarou que “o mundo ficará um tanto estupefato ao saber que a nova era da história está a ponto de ser inaugurada por cansados e decrépitos octogenários (...), burocratas que participaram de praticamente todos os governos desde o final do século passado, frequentadores assíduos de gabinetes duplamente mortos, por idade e por usura, e só mantidos vivos por artifício”.


Para além do juízo pessoal estava em questão, é claro, o de natureza política. Marx se pergunta: “quando nos promete a desaparição total das lutas entre os partidos, inclusive o desaparecimento dos próprios partidos, o que o Times quer dizer?” A interrogação é, infelizmente, de estrita atualidade no mundo de hoje, no qual o domínio do capital sobre o trabalho voltou a tornar-se tão selvagem como era em meados do século XIX.


A separação entre o “econômico” e o “político”, que diferencia o capitalismo de modos de produção que o precederam, chegou hoje ao seu ápice. A economia não só domina a política, fixando agendas e decisões, como retirou competências e atribuições que eram próprias desta, privando-a do controle democrático a tal ponto que uma mudança de governo já não altera as diretrizes da política econômica e social.


Nos últimos 30 anos, inexoravelmente, o poder de decisão foi sendo transferido da esfera política para a econômica, transformando possíveis decisões políticas em incontestáveis imperativos econômicos que, sob a máscara ideológica do “apolítico”, dissimulam, ao contrário, uma orientação claramente política e de conteúdo absolutamente reacionário. O deslocamento de uma parte da esfera política para a economia, como âmbito separável e inalterável, a passagem do poder dos parlamentos (já suficientemente esvaziados de valor representativo pelos sistemas eleitorais e majoritários e pela revisão autoritária da relação entre Poder Executivo e Poder Legislativo) para os mercados e suas instituições e oligarquias constitui, em nossa época, o maior e mais grave obstáculo interposto no caminho da democracia. As avaliações de Standard & Poor’s, os sinais vindos de Wall Street – esses enormes fetiches da sociedade contemporânea – valem muito mais do que a vontade popular.


No melhor dos casos, o poder político pode intervir na economia (as classes dominantes precisam disso, inclusive, para mitigar as destruições geradas pela anarquia do capitalismo e a violência de suas crises), mas sem que seja possível discutir as regras dessa intervenção e muito menos as opções de fundo.


Exemplos deslumbrantes disso são os acontecimentos dos últimos dias na Grécia e na Itália. Por trás da impostura da noção de um “governo técnico” – ou, como se dizia nos tempos de Marx, do “governo de todos os talentos” – esconde-se a suspensão da política (referendo e eleições estão excluídos), que deve ceder em tudo para a economia. No artigo “Operações de governo” (abril de 1853), Marx afirmou que “o mínimo que se pode dizer do governo de coalizão (“técnico”) é que ele representa a impotência do poder (político) em um momento de transição”. Os governos já não discutem as diretrizes econômicas, mas, ao contrário, as diretrizes econômicas é que são as parteiras dos governos.


No caso da Itália, a lista de seus pontos programáticos ficou clara em uma carta (que deveria ter sido secreta) dirigida pelo Banco Central europeu ao governo Berlusconi. Para “recuperar a confiança” dos mercados, é preciso avançar pela via das “reformas estruturais” – expressão que se tornou sinônimo de dano social – ou seja, redução de salários, revisão de direitos trabalhistas em matéria de contratações e demissões, aumento da idade de aposentadoria e privatizações em grande escala. Os novos “governos técnicos” encabeçados por homens crescidos sob o teto de algumas das principais instituições responsáveis pela crise (veja-se os currículos de Papademos e de Monti) seguirão esse caminho. Nem é preciso dizer, pelo “bem do país” e pelo “futuro das gerações vindouras”, é claro. Para o paredão com qualquer voz dissonante desse coro.


Mas se a esquerda não quer desaparecer tem que voltar a saber interpretar as verdadeiras causas da crise em curso e ter a coragem de propor e experimentar as respostas radicais exigidas para a sua superação.


Marcello Musto é professor de Ciência Política na Universidade York, de Toronto.


Fonte:
http://www.sinpermiso.info/textos/index.php?id=4558

Tradução: Katarina Peixoto