domingo, 6 de novembro de 2011

Poços de Caldas, 139 anos de exclusão popular



Uma cidade comemorar 139 anos de História num país jovem como o Brasil poderia ser motivo apenas de júbilo. Ainda mais levando em conta as belezas naturais e arquitetônicas existentes em Poços de Caldas, a cidade em questão. Inegavelmente Poços faz jus à fama nacional que tem: a de ser uma das cidades mais belas do Sudeste. Constatei bem essa fama no período em que a trabalho viajei por boa parte do Brasil e muitas pessoas me indagavam sobre as belezas da cidade. Também ouvi relatos de pessoas, muitas por sinal, que já estiveram em Poços e haviam adorado o lugar.

No entanto nem tudo são flores na "cidade das rosas". A formação da cidade como extensa propriedade particular duma única família, os Junqueira, associada posteriormente, já na segunda metade do século XX, a suspensão formal dos cidadãos poços-caldenses do direito de eleger seus governantes, contribuiu para o amálgama necessário a fim de tornar o patrimonialismo, o coronelismo e a locupletação nos fatores agregadores das elites dominantes e ao mesmo tempo mantenedores do status quo operante duma política de segregação social e popular, gerando a força capaz de cooptar setores insatisfeitos e apaziguar as fissuras existentes dentro das elites.

Se em Poços um lado da moeda é, como mencionei antes, as belezas naturais e arquitetônicas, o outro lado da moeda – devidamente escondido dos turistas e das campanhas publicitárias – é o descaso com a saúde pública, com as condições mínimas de moradia, com a educação de qualidade, com as condições de trabalho, com as manifestações culturais, com a prática da atividade esportiva enquanto agente de socialização, além do autoritarismo e personalismo imposto a população e que a faz desconhecer qualquer diálogo com o poder público.

Poços de Caldas presencia – ou seria melhor afirmar, sempre presenciou – a síntese da exclusão social e da castração da cidadania em todos os seus níveis, tornando-se hoje a exigência de políticas sociais que coloquem o excluído no centro da discussão uma luta quase inglória. Pois acabamos por nos deparar com a lógica persistente na politica local, a da preocupação das elites e seu séquito em locupletar o Estado para que este haja como financiador, facilitador ou sócio em novas empreitadas que tragam lucros para eles próprios.

Por esta História e pelo o que a própria população sente na pele no seu cotidiano é que cada vez mais fica patente a urgência de se romper com o estado de coisas onde a cidade é tratada como feudo em benefício duns poucos, enquanto a população é vista como serva de um poder maior que lhe é alheio. Todavia isso só será possível através da construção de uma alternativa capaz de colocar em pauta os verdadeiros anseios da população, além de enxergar a cidade, a sociedade, a comunidade e as políticas públicas como um todo onde haja a percepção de trazer o povo para centro do debate. Uma alternativa capaz de suplantar o coronelismo, o patrimonialismo e o autoritarismo. Uma alternativa onde a participação popular faça-se fio condutor da implantação de políticas públicas, seja essa participação realizada nos moldes de mecanismos de participação popular direta ou do aumento do grau de representatividade da sociedade (sendo que ambos os casos se complementam).

Não obstante essa alternativa se contrapõe ao antigo, viciado e esclerosado modo de fazer política vivenciado em Poços. Democratizar a politica local parece ser o primeiro passo para a construção dessa alternativa e essa democratização só poderá vir se surgir da conscientização dos próprios cidadãos. Portanto, se não sairmos do conforto de nosso sofá para expressar o que desejamos, deixaremos que outras pessoas – e serão as mesmas de sempre – tomem decisões em nosso lugar. E a História de Poços mostra que essas decisões não levam em conta quase nada, para não dizer nada, daquilo que desejamos.

6 comentários:

Anônimo disse...

Muito boa Hudson...
Eloisio

Lucas Rafael Chianello disse...

Irretocável! Parabéns!

morani disse...

Senhor Eduardo:

Foi por termos governos (?) como os de Lula, FHC, Sarney e Collor (excluo o do senhor Itamar Franco por ter sido um mandato tampão)é que o nosso país ainda não conseguiu tirar os pés da "lama" da incompetência e da corrupção desenfreada. O Poder inebria fazendo com os que o usam esquecerem suas metas, a principio excelentes. Não concordo a uma novo "remendo" à nossa Constituição de 1988, pois a cada "mexida" só pioram as injustiças, os desleixos e as corrupções. A dos Estados Unidos é uma só há mais de cento e tantos anos, e funciona. Ou acabamos com as corrupções ou nem uma só "nova" Carta Magna será obedecida por nossos "dignos" parlamentares e governantes. Dilma não está sendo feliz nos seus primeiros meses de governo. Ela deve desligar-se umbilicalmente de seu "protetor" para, só assim, oxalá, sair do Poder com a aprovação do povo brasileiro.

Professor Marcelo Fonseca disse...

Ótimo texto!

Diney Lenon disse...

Hudson, acredito que quando postamos textos e o divulgamos esperamos o diálogo, pois bem... a partir de um recorte de sua fala, gostaria de pontuar algo essencial:

"Uma alternativa onde a participação popular faça-se fio condutor da implantação de políticas públicas, seja essa participação realizada nos moldes de mecanismos de participação popular direta ou do aumento do grau de representatividade da sociedade"

A participação popular a que você se refere está intimamente ligada ao exercício da cidadania. Políticas públicas de cidadania correspondem a uma boa gestão do sistema democrático (leia-se sistema democrático burguês). Eis o erro de leitura.
Considerando a teoria marxista, é impossível fazer a leitura da realidade de Poços de Caldas sem passar pela sociedade de classes. Não haverá um caminho traçado de forma coerente para o socialismo pelo exercício da cidadania burguesa. É um erro de leitura pequeno-burguesa crer na cidadania como avanço ao socialismo.
Essa visão etapista, nacional-desenvolvimentista já está superada, vivemos o que Lenin classificou como "fase superior do capitalismo" e somente a luta de classes pode superar essa realidade. quem manda em Poços de Caldas são as multinacionais, os grandes empresários, ou seja, o capital... o que muitos criticam são apenas os gerentes do sistema, gerentes da mais baixa patente.
Bom, daria pra falar muito mais... gostei do seu texto, abre um leque de possibilidades de discussão, mas não abro mão da leitura marxista.
abraço

Hudson Luiz Vilas Boas disse...

Diney

O conceito de cidadania que conhecemos hoje em dia é, como você bem disse, o conceito burguês, no entanto não dá pra pensar em revolução ou em transformação do mundo se a sociedade for composta apenas por alienados. Se para sair dessa alienação for preciso passar pela cidadania burguesa, não haverá contradição nisso.
Infelizmente Poços reflete aquilo que vivemos no Brasil e no texto chamei de "síntese da exclusão social e da castração da cidadania em todos os seus níveis", porque é justamente isso que ocorre no Brasil, e essa é uma leitura de cunho marxista, embora possa também ter algo de weberiana se analisarmos a questão cultural, e o patrimonialismo se encaixa aí.
No mais, é sempre bom discutir com alguém que eleva o debate.
Inté