terça-feira, 11 de novembro de 2008

Debate na blogsfera

Um debate foi fortemente suscitado na blogsfera nos últimos dias. Um blog de esquerda deve atacar o governo Lula quando acha que esse está se entregando de corpo e alma as inclinações nada democráticas do PIG e dos setores mais reacionários de nossa sociedade? Ou deve simplesmente ser democrático, mostrar o contraditório do sistema, ir além da grande mídia, e mesmo assim por dor no coração e puro sentimentalismo, defender com unhas e dentes todas as atitudes tomadas por esse governo? Um governo de um partido, a princípio, forjado nas lutas populares e nos movimentos sociais, mas que governa com o apoio da direitona.

Quem se alinha com a segunda opção, não raro repete a frase proferida no Chiledos idos iniciais dos anos 70 “... Es un gobierno de mierda, pero es nuestro gobierno...” Classifico isso como fuga da realidade. Sartre dizia que a realidade humana se realiza sob a forma “emoção”. Sendo assim a emoção é uma desordem psicofisiológica. Nesse momento, alguns grupos vivem sua desordem psicofisiológica e teimam em negar a realidade.

Ataco sim o governo Lula e o PT quando acho necessário. Não sou e nem estou obrigado a concordar com tudo o que ele faz ou deixa de fazer. Mesmo assim tenho convicção que esse governo já fez mais pelo Brasil que muitos outros juntos. Cito como exemplo a política de ganho real do salário mínimo – o melhor caminho para atacar a péssima distribuição de renda, como provou o professor Márcio Pochman –, a política de valorização dos funcionários públicos – vale ressaltar que muitas categorias do funcionalismo passaram os oito sombrios anos de FFHH sem receber um centavo de reajuste –, a implantação dum programa de renda mínima – é disso que se trata o Bolsa Família –, a política externa mais independente em relação aos EEUU – não quer dizer que no plano do comércio internacional não estejamos ainda tão desalinhados dos interesse imperialistas, mas conseguimos alguns avanços. Outro ponto no qual o governo Lula tem avançado é na reparação às vítimas da Ditadura Militar, mesmo não sendo na velocidade e da forma como eu gostaria. Friso também a postura correta, e de estadista, tida por Lula para com a Bolívia, tanto quando do golpe popular contra Sánchez de Lozada, como quando da nacionalização das refinarias da Petrobras por Evo Morales – a direitona tupiniquim queria a invasão do país vizinho.

Quando da não prorrogação da CPMF, um dos poucos impostos que incidiam diretamente sobre o consumo e renda, portanto quem ganhava e consumia mais, pagava mais, apoiei o governo, e com as armas que a internet me dispõe lutei contra a oposição farisaica. Existem vários outros pontos de convergências, mas esses são os mais significativos.

Digo mais, votei em Lula nos dois turnos de 2002 e nos outros dois de 2006. Na verdade repeti o ato que já vinha fazendo desde 1994, a primeira vez que votei pra presidente. Num eventual segundo turno em 2010 entre um candidato petista e outro pela sacrossanta aliança PSDB/DEM/PPS, minha tendência é votar no petista. Ainda prefiro isto a anular meu voto.
No entanto a diferença substancial entre a oposição farisaica composta por demos-tucanos-liqüidacionistas e a oposição de esquerda – o PSOL pode se incluir aí, mesmo que em determinados momentos tenha tropeçado nos próprios pés – está no fato de a segunda, na impossibilidade conjuntural duma revolução, lutar pela reforma do Estado, enquanto os fariseus da direita lutam pela manutenção do status quo.

Nunca escrevi uma linha sobre a corrupção no governo Lula, e não que ela não exista, mas porque existem outros temas de relevância para serem discutidos e, na medida em que vierem à tona, a própria corrupção aparecerá como efeito do sistema. Trata-se de discutir a causa e não o efeito. Isso é impensável num governo tucano, demo ou noutro qualquer tipicamente de direita, por esse governo fazer parte intrínseca do próprio sistema. Nesses governos somos obrigados a combater primeiramente o efeito, uma vez que a causa jamais será atacada por ele. Portanto era de se esperar dum governo com base social, ataque aos problemas estruturais na sua raiz, e nunca a omissão diante de temas complexos.

Os críticos daqueles espaços de esquerda na internet que têm sistematicamente atacado o governo nos últimos dias, muito por conta do desenrolar da Operação Satiagraha, chegam a dizer que estamos fazendo o trabalho para a direita. Esquecem-se que é o próprio Palácio do Planalto quem faz o melhor trabalho para a direita. Ou quem nomeou Carlos Alberto Direito para o Supremo Tribunal Federal e Nelson Jobim para o ministério da Defesa? O Ministro Direito tem claras ligações com segmentos reacionários da sociedade e uma doutrina religiosa arcaica. Quanto a Jobim, não passa dum tucano num pseudo-governo petista. Outra figura querida na Esplanada dos Ministérios é o presidente do Banco Central. Esse foi eleito deputado federal em 2002 por Goiás. Sabem por qual partido? Não outro senão o PSDB!!! Antes, fora chairman mundial daquela organização combatente da desigualdade e da pobreza no planeta, o “Banco de Boston”.

Falta mais. O governo escolheu para formar sua base no Congresso o PTB, ainda controlado por Roberto Jefferson, o PP de Paulo Maluf e o PRB, a legenda político-partidária da Igreja Universal do Reino de Deus. Uma das figuras proeminentes da base do governo na Câmara dos Deputados é Paulo Pereira da Silva, aquele mesmo líder do sindicalismo pelego e antigo aliado de FFHH. E quanto à aliança com o PMDB dos Sarney, Barbalho e Calheiros? Francamente.

E o que dizer então sobre certas declarações de Lula como: os usineiros são heróis para o Brasil? Ou então quando insinuou que chegar aos cinqüenta anos sendo de esquerda era coisa senil?

Com esse tipo de declarações, com as alianças e escolhas que tem feito, não precisaria dos blogueiros que ainda possuem uma identidade de esquerda e revolucionária, fazerem qualquer trabalho para a direita.

Foi a direita quem pôs o governo está na berlinda. No entanto ele mesmo se acua cada vez mais.

Bom, como o caro leitor percebe, não precisei sequer citar alguns dos vários pontos neoliberais do governo Lula. Todavia quem quiser saber de alguns, recomendo a leitura da Tréplica sobre “a esquerda em 2008”, aqui mesmo no Dissolvendo No Ar. Mesmo porque os fatos supramencionados já são, em minha opinião, o bastante para configurar motivos de independência frente ao governo Lula e para mostrar que não vivo no Mundo da Lua e nem que me mudei para Pasargáda.

3 comentários:

LUCAS RAFAEL CHIANELLO disse...

Mais uma vez realço o que aprendi recentemente numa palestra da faculdade: não adianta escolhermos os representantes políticos se não podemos escolher o modelo econômico. Os contras, neste artigo, já estão todos citados. Mas faltou citar alguns prós, como a crítica do Lula a crença cega de que a economia se autoregula, assim como o oferecimento de uma linha de crédito de R$ 1 bi para Cuba. Raul Castro está vindo ao Brasil em Dezembro. Saudações, Lucas Rafael Chianello.

Briguilino do Blog disse...

Tem de criticar sim e quanto maior e mais forte for...melhor.
O governo deve ouvir sempre mais as criticas que os falsos elogios é assim que corrigirá suas falhas.
Mas também devemos sempre levar em conta a realidade politica. Sabemos que nenhum governante faz o que quer e sim o que é possivel.

Blog do Morani disse...

Friburgo, 14/11/08

Sobre “Debate na Blogsfera”

Amigo Hudson:

Concordo com você ao citar que existem outros temas de relevância a serem discutidos e postos à mesa dos debates para que sejam esmiuçados dentro de um espírito de independência e de justiça; se inimigos eu tive, ou tenha, jamais deixei de lhes dar a mão à palmatória naquilo que eles tiveram ou têm de melhor. O debate pelo simples debate, as divergências gratuitas, com açodamentos inaceitáveis, isto tudo nada constrói. Uma grande lição nos deu meu falecido pai a nós homens da casa – éramos três – e principalmente para os dois mais velhos; um já oficial do exército, o segundo em vias de sê-lo, mas da Aeronáutica, como de fato aconteceu, e a mim, ainda em formação, contudo já ciente sobre as lutas partidárias (eu o acompanhava em suas lides políticas, e a muitas sessões da Câmara eu comparecia), ou de caráter hierárquico. Ele dizia em sua sisudez, ao enveredar por esses meandros:
“Por mais que um governo seja falho, e que nele se possa encontrar fatos que lhes venham envergonhar, jamais levantem a bandeira da oposição, mas procurem lobrigar, nessas destemperanças político-administrativas, as razões plausíveis aos escorregões para a vala da vergonha. Muitos erram por faltar-lhes amadurecimento; a esses perdoamos; outros erram por pura improbidade; a esses não condenamos, mas nos afastamos reclamando. Não nos somemos gratuitamente aos seus erros, já nos bastam os nossos”.
Tirei essas palavras acima de uma carta que ele fez questão de escrever àqueles dois filhos – Sergio e Luiz Carlos – após ter-nos dado verbalmente esse conselho. De meu ponto de vista, calcado na ingenuidade própria a um jovem em desenvolvimento, perguntei-lhe mais tarde: “Pai e se esse governante for do tipo do governador Varela (na época o governador do Rio Grande do Norte) devemos perdoar?”
“Esperneie como eu farei”. E ele fez!


Aconteceu ter feito o referido governador Varela um “deslize” (hoje corrupção) contra os cofres da Prefeitura de Natal. Não me vem à memória o cerne da questão, mas seria degradante se posta ao público pela imprensa contrária. Lembro, porque meu pai comentava veladamente a outros políticos que nos visitavam; e ele era da oposição!
Atualmente, vejo essas coisas: múltiplos atos de corrupção e dolo superlativo grassando na esfera federal, e muito próximo à figura do senhor Lula. Esse homem simples, vindo do nordeste que conheço bem, enveredou por caminhos antes jamais pisados por ele e por seu partido, o PT! O poder subiu à sua cabeça; anda inebriado pelas relações quase fraternas a outras figuras de projeção internacional; homens que ele jamais pensou um dia chegar ao menos perto. Lula se perdeu nesse emaranhado perigoso que é o Poder; esqueceu a sua origem e a origem de seu partido, a sua linha precípua no cenário político brasileiro. Acompanho, desde o começo, o nascimento do PT. Votei nele na primeira eleição em que ele foi sufragado nas urnas eletrônicas. Votei, acreditando no homem Lula. Na segunda oportunidade dei meu voto consciente a Heloisa Helena, pela sua combatividade no plenário do Senado, pela sua postura corajosa diante dos descalabros dos títeres petistas, também ébrios pelo Poder, e pela falência desse governo. Se ela era ou não a melhor solução, não a julguei senão pelo papel exercido enquanto senadora da República. Em 2010 se houver uma coligação Tucanos/Dem(onios!)/PPS, não darei o meu voto nem que o candidato venha ser Jesus Cristo! Também, por outro lado, não votarei em Dilma Roussef, ou qualquer outro da Estrela Vermelha. A Operação Satiagraha parece ter cedido lugar a outro tema relevante: o perdão das dívidas dessas organizações que se dizem “filantrópicas”. O valor R$ 2,5 bi deve estar pesando nos bolsos dos “amigões”. E o compadre Bush não pretende mais dividir a “bolada” de US $ 700 bi com os bancos ou com as montadoras. E agora? Para que Lula quer “injetar” alguns bilhões em bancos tupiniquins, que sempre tiveram astronômicos lucros? Ele que gosta de copiar os atos tresloucados dos alienígenas, vai ficar com que cara? Ira insistir ou desistir? Eis a questão. Perdoar ou não? Não! Por ser reincidente, por dolo, por consciência de que erra mais do que acerta e por sua insensibilidade às verdadeiras questões sociais, muito maiores que esses milhares de famílias que recebem a Bolsa! Não o perdôo, mas não o condeno. É um amador conduzindo um “barco” de grande calado por águas traiçoeiras.

OS – O Banco do Brasil teve um lucro de R$ 1,9 bi no trimestre!!!