domingo, 18 de outubro de 2009

10 + – 4ª Posição: Dark Side Of The Moon

Dark Side of the Moon (Pink Floyd – 1973)

Por Érico Ascenção
27 de julho de 2009


http://albunsdecabeceira.blogspot.com/2009/07/dark-side-of-moon-pink-floyd-obra-prima.html

Dark Side of the Moon (Pink Floyd) - A obra-prima do Rock

Antes de começar esta resenha, já vou pedindo desculpas pelo o que vou escrever nas próximas linhas. O primeiro motivo para as desculpas é que escrever sobre este álbum exige uma grande responsabilidade, principalmente considerando que um Floydiano fanático possa ler este artigo. O segundo motivo é que este álbum (ainda) não faz parte da minha cabeceira...

Antes de começar a escrever este artigo, tomei o cuidado de assistir o documentário comemorativo de 30 anos do álbum, que conta com entrevistas com os membros da banda - David Gilmour (guitarra e voz), Roger Waters (baixo), Richard Wright (piano, órgão e sintetizadores) e Nick Mason (bateria) - e outros participantes do processo de gravação do álbum. Recomendo este documentário a todos que curtem a banda ou que pelo menos têm curiosidade sobre este álbum.

Bem, lembro que meu primeiro contato com este álbum foi aos 15 anos, quando estava começando a curtir Rock n' Roll e estava formando meu gosto musical. Um colega meu (o Marcel "Dente") tinha escrito numa divisória de fichário uma letra de música que tinha vários versos iniciados com "All that you" (algo do tipo "tudo o que você", em tradução livre). Ele, fã do Pink Floyd, me disse que era a letra de Eclipse, que mais tarde vim a descobrir que era a música de encerramento do The Dark Side of the Moon. Lembro que meses depois pedi uma cópia do CD pra ele, e ele se recusou a copiar pra mim. E depois eu vim entender o motivo da recusa: todas as músicas do CD são ligadas, e a cópia do CD tiraria as emendas. Anos mais tarde, quando já estava na faculdade, peguei um jornalzinho de um dos centros acadêmicos e vi um review sobre este álbum. E foi este review que se tornou a semente para este blog - os reviews sobre o Moving Pictures e o Turbination foram publicados em outro jornal da minha faculdade.

Bem, deixando os adendos de lado, vamos ao lado escuro da lua...

Apesar de, segundo o baterista Nick Mason, o álbum The Dark Side of the Moon (1973) ter sido idealizado numa lanchonete, ele representou muita coisa para a história do Rock. A mais importante dela foi a popularizaçao do Rock Progressivo e dos álbuns conceituais. Os críticos musicais costumam rotular como conceitual um álbum que tenha um tema único, aparentando como se fosse uma obra única, sem divisões (e neste caso, não há sequer intervalos entre as músicas). No caso do Dark Side, o tema principal são as angústias humanas: a rotina massacrante do trabalho, a falta e o desperdício de tempo, o dinheiro e a ganância, a violência e a incompreensão da natureza individual. Outro aspecto importante foi a fusão de estilos como o Rock, o Jazz e o Blues de uma forma jamais feita anteriormente.

Em termos de sonoridade, as maiores contribuições que o Pink Floyd trouxe com este álbum foram os sintetizadores e sequenciadores. Para quem não sabe, sintetizador é como se fosse um teclado, porém ele tem recursos para a criação de qualquer som (quando digo qualquer, significa qualquer mesmo) a partir de elementos básicos de síntese sonora, como os osciladores, filtros e moduladores. Na época da gravação do álbum, um sintetizador poderia ocupar uma sala inteira, e hoje eles cabem numa carcaça do tamanho do teclado do seu computador. Os sequenciadores são módulos que operam junto com sitetizadores e são resposáveis por criar sequências de execução de notas previamente escolhidas. Escolhidas as notas, é possível escolher um padrão de sequência, a velocidade da execução, etc. Um clássico exemplo de sequenciador é a introdução da música Rádio Pirata, do RPM.

Além da obscuridade natural do álbum, corre uma lenda urbana que diz que o The Dark Side of the Moon seria uma trilha sonora alternativa para o filme O Mágico de Oz. Esta lenda tomou mais corpo quando uma rede de TV transmitiu o filme com o The Dark Side of the Moon de fundo (versão conhecida como The Dark Side of the Rainbow). Dizem que se você der o play no álbum ao terceiro rugido do leão da MGM, vários eventos do filme coincidem com partes das músicas do álbum :

- O início de On the Run coincide com a queda de Dorothy de uma mureta para dentro de um chiqueiro. E enquanto toca o som de helicóptero no final, Dorothy está olhando para o céu.

- Uma mulher aparece andando de bicicleta quando tocam os relógios de Time.

- No começo de The Great Gig in the Sky, no qual há falas de pessoas falando sobre a morte, uma grande ventania começa perto a casa de Dorothy. No momento que ela entra em casa, inicia a parte calma da mesma música.

- No momento em que Dorothy sai de sua casa e encontra o mundo colorido, começam as caixas registradoras de Money. E a segunda parte do solo coincide com a dança de vários anõezinhos.

- No começo de Us and Them (música que teve como origem cenas de violência de um filme) um anão aparece com um "certificado de morte". Mais tarde, no momento em que David canta "black" (preto), aparece a bruxa. E quando David canta "down" (para baixo), a bruxa se abaixa para tocar os pés de algum "ser".

- No começo de Any Colour You Like, Dorothy entra na estrada de trijolos amarelos.

- O início de Brain Damage, com o verso "The lunatic is on the grass" (o lunático está na grama), coincide com a dancinha retardada do Espantalho.

- Quando Dorothy coloca a mão no peito do Homem de Lata para sentir que ele não tem coração, na trilha sonora alternativa toca o coração do fim de Eclipse.

É, vamos ao álbum antes que você enlouqueça...

Nome do álbum: The Dark Side of the Moon
Ano de lançamento: 1973
Músicas:
1. Speak to Me/Breathe
2. On the Run
3. Time
4. The Great Gig in the Sky
5. Money
6. Us and Them
7. Any Colour You Like
8. Brain Damage
9. Eclipse

1. Speak to Me/Breathe

Esta música começa com uma sequência de sons diferentes: batidas de coração, caixas registradoras, vozes, etc. Vários desses sons são utilizados nas outras faixas do disco. As vozes são na verdade resutado de gravações de entrevistas feitas por Roger Waters com pessoas da equipe do Pink Floyd. Algumas histórias dizem que foi feita uma entrevista com Paul McCartney, porém o conteúdo de suas respostas foi tal que não seria responsável colocá-las nas faixas do álbum. A parte relativa a Speak to Me termina com o longo grito de uma mulher, e logo entra a parte relativa a Breathe. Breathe conta com um misto de influências, desde o Jazz no piano até a música havaiana no lap steel (um tipo de guitarra para tocar no colo, com um slide). A letra fala sobre a pressão que sofremos no dia-a-dia, principalmente em relação ao trabalho. O fim desta música se encontra, na verdade, no fim da música Time - este assunto já foi discutido na Nota Musical I. Outra curiosidade sobre esta faixa é a utilização de mais de uma faixa de vocais fazendo harmonias, como as duplas sertanejas brasileiras fazem. Este recurso foi inovador em gravações da época.

2. On the Run

On the Run é outro clássico exemplo do que sintetizadores e sequenciadores são capazes. O padrão principal deste instrumental é composto por 4 notas repetidas em grande velocidade. Além disso, são usados filtros e ruídos para dar uma idéia de movimento para o som. Isso sem contar com o som de pratos de bateria tratados com filtros e osciladores, guitarras com efeito de eco reverso, batidas de coração, passos, etc. E imagine que toda a mixagem destes sons era feita "no braço", rodando fitas e mais fitas (como o prório David Gilmour diz no domcumentário: "A mixagem, naquela época, era uma performance."), e sem o auxílio de computador como se faz hoje em dia. Se você não entendeu lhufas, tudo bem, isso já era esperado. Pelo menos você pode repetir isso para alguém ficar espantado assim como você.

3. Time

Essa é a dos famosos relógios sincronizados, coisa que deu um trabalhão pra mixar "no braço". A levada com cara de Reggae das estrofes contrasta de modo interessante com os refrões mais blueseiros com participação das backing vocals. Logo depois vem o solo de guitarra, uma mistura da melancolia do Blues com o "positivismo" da textura envolvente criada pelo eco. A letra fala de mais uma das conhecidas frustrações de Roger Waters, desta vez com relação à criação dada pela sua mãe, que prezava a educação do seu filho para a vida adulta. Na letra de Time, Roger fala sobre como se deu conta de que perdeu momentos preciosos da infância e da adolescência devido a esta educação que teve, e fala também sobre a angústia relacionada ao pasar do tempo e à proximidade do fim da vida.

4. The Great Gig in the Sky

Esta música começa mais uma vez com um piano bem jazzístico. As falas que acompanham o lap steel são as respostas de uma das entrevistas, mas especificamente repostas para a pergunta: "Você tem medo de morrer?". Para esta canção, foi convidada a cantora Clare Torre para um improviso vocal. A única instrução que ela recebeu foi para pensar no horror e na morte na hora de gravar, e o resultado foi maravilhoso. Só para constar, o título da música, em tradução livre, significa "a grande apresentação no céu".

5. Money

Money foi um dos maiores hits deste álbum. Como parte de uma campanha de marketing para levar o Pink Floyd para os Estados Unidos, foi lançado um single com esta música. Os sons de caixa registradora na introdução viraram referência para trilhas sonoras de tudo quanto é coisa que você possa imaginar. Basicamente, a letra de Money trás uma reflexão sobre a ganância e sobre como se conduz uma vida quando se tem muito dinheiro. Esta reflexão fez parte da vida da banda, pois eles vinham atingindo um grande sucesso na época e tinham dificuldades em lidar com as consequências da fama e do dinheiro. Desta música vem um dos significados da capa do disco: a pirâmide é o símbolo da ganância - basta lembrar que grandes monumentos como as pirâmides do Egito e as dos Maias tinham este formato. A luz representa a própria luz da banda. Nesta música há a participação do saxofonista Dick Perry num solo de saxofone. Logo em seguida deste solo de sax, vem o solo de guitarra, num compaso cuja a fórmula (4/4) foi mudada em relação à fórmula do restante da música (7/4) simplesmente para facilitar a vida do David Gilmour.

6. Us and Them

A estrutura de Us and Them já havia sido criada antes em 1969, quando o Pink Floyd fez a trilha sonora do filme Zabriskie Point, do diretor Michelangelo Antonioni, que tem como tema central o movimento de contracultura nos Estados Unidos dos anos 70. A base de piano foi feita em cima de uma cena de violência, e mesmo com as críticas de Antonioni ("É lindo, mais é muito triste. Me faz pensar em igrejas."), acabou ficando na trilha do filme. Eu sinceramente não consegui tirar conclusões sobre a letra, então usarei as palavras de Roger Waters:

As letras são diretas e lineares. São questões fundamentais sobre se a raça humana é capaz de ser humana.

Entendeu? Eu também não. Coisas do Roger... A grande beleza desta música está nos espaços deixados pelos instrumentos. Não são partes silenciosas, e sim momentos em que os instrumentos são deixados soar. Além disso, outro detalhe que chama atenção são os belos vocais de David e Richard nos refrões.

7. Any Colour You Like

Any Colour You Like é mais um instrumental no qual os sintetizadores são explorados ao extremo. Alguns efeitos como o tremolo e o chorus também são utilizados na guitarra para aquele tipo de timbre "molhado". O final desta música é a preparação para Brain Damage.

8. Brain Damage

Brain Damage é uma música feita para gênios incompreendidos. Assim como Syd Barret, fundador do Pink Floyd que supostamente teria ficado louco devido às muitas viagens de LCD durante sessões de composição para a banda, muitos acreditam que o próprio Roger Waters é um louco em potencial devido às suas paranóias remoídas desde a infância. Todas essas paranóias de Roger o levaram a escrever um álbum inteiro sobre o assunto, o The Wall (1979).

9. Eclipse

Para fechar o álbum, Eclipse trás a idéia de que apesar de tudo parecer estar em harmonia, a lua pode tapar o sol trazendo a escuridão - ou seja, a harmonia sempre pode ser quebrada. O clima dos arranjos traduz bem a angústia pelo momento em que se consolida o eclipse, tanto que nas apresentações ao vivo é justamente a imagem de um eclipse solar que é transmitida no telão do palco.

Para acabar esta resenha, gostaria de citar duas frases. Uma delas é do David Gilmour, declaração esta que me faz ter uma certa pena dele:

Eu adoraria ser uma pessoa que coloca os fones e escuta o álbum pela primeira vez. Nunca tive tal experiência... mas seria ótimo.

A outra é a fala que encerra o álbum:

Não há um lado escuro na lua, de fato. Ela é toda escura.

Músicas:

1. Speak to Me/Breathe
2. On the Run
3. Time
4. The Great Gig in the Sky
5. Money
6. Us and Them
7. Any Colour You Like
8. Brain Damage
9. Eclipse

Pink Floyd:

David Gilmour (Vocias/Guitarras)
Nick Mason (Percussão)
Richard Wrigth (Teclados/Vocal)
Roger Waters (Baixo/Vocal)

Participaram também: Dick Parry (Sax), Clare Torry (Vocais) e Doris Troy, Leslie Duncan, Liza Strike, Barry St John (Backing Vocals)

Produção: Pink Floyd

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