terça-feira, 22 de setembro de 2009

Tegucigalpa e o Itamaraty

A direita tupiniquim está esbravejando perante o acinte, segundo eles, perpetrado pelo Itamaraty ao abrir as portas para o presidente constitucionalmente eleito de Honduras. Alguns vêem na atitude algo mais que um mero ato isolado, afinal de contas Lula discursará na abertura da Assembléia da ONU nesta quarta-feira, 23 de setembro. E o refugio, asilo, ou abrigo dado a Manuel Zelaya fortalece o Brasil no cenário mundial, ou na pior das hipóteses no continente latino-americano.

É chover no molhado dizer que Zelaya trata-se do governo constitucional de Honduras, no entanto nossa mídia emporcalhada e mazombeira já decretou que, embora seja legítimo o governo brasileiro condenar o golpe de estado perpetrado pela direita hondurenha, se intrometer em assuntos internos e dar abrigo ao presidente deposto é atitude inapropriada e que não condiz com nossa tradição diplomática.

Na verdade temos uma mídia canhestra e tucana. Canhestra por ser tão desajeitada, afinal se posicionou contra o golpe, mas cobra do Estado brasileiro que não tome partido. E tucana, porque tal qual os tucanos nos anos 80 e inicio dos 90 fugir de tomar posições mais duras. Bom mesmo é ficar em cima do muro e vestir a camisa do lado vencedor.

Vale lembrar que toda a comunidade internacional, até mesmo os EEUU – ainda que de maneira tíbia e dúbia, porém oficialmente – condenou o golpe de estado liderado pela caserna golpista e apoiada efusivamente pele elite local. Então o Brasil agiu de modo correto e em sintonia com a comunidade internacional, a Unasul, a OEA e a ONU e qualquer agressão que nossa embaixada venha a sofrer poderá ser motivo de represália por parte do Conselho de Segurança da ONU. E aqui cabe um adendo, nem os regimes mais ditatoriais, tirânicos e perversos do século passado ousaram macular embaixadas. Portanto, na realidade, não é de se esperar que o governo de “facto”, encabeçado pelo usurpador Roberto Micheletti caia na tentação de cometer tamanho achaque.

Desde o anátema de Zelaya, em 28 de julho, que os golpistas vêm levando a crise em “banho Maria”, como se diz cá nas Minas. Fazia parte da estratégia não aceitar o retorno de Zelaya e ao mesmo tempo manter o calendário eleitoral, que por sua vez prevê eleições para presidente em 29 de novembro próximo. Com Zelaya deposto, longe do país e a margem do processo, e com um novo presidente eleito por sufrágio universal, defensores do antigo mandatário, mundo afora, estariam numa situação no mínimo incômoda, pois o golpe continuaria vivo, mas deixaria a comunidade internacional entre resignada e constrangida diante do futuro governo, aparentemente legítimo. Agora com o retorno de Zelaya ao local da ação, a pressão internacional é reacendida, as manifestações pró governo constitucional voltam às ruas e ninguém sabe ainda ao certo como se dará o desfecho da crise desencadeada pela direita retrógrada e anti-democrática.

O que mais preocupa no momento é a postura dos golpistas frente o retorno de Zelaya, o presidente legitimo e único, e a população, principalmente na capital Tegucigalpa, francamente a favor do governo deposto.

4 comentários:

Anônimo disse...

Hudson

Está muito claro o seu artigo, sobre Honduras.
A lavagem cerebral que a nossa mídia e principalmente a Globo faz é muito competente. Estão agora, falando que o golpe dos militares em Honduras não foi golpe ! ! !
É incrível !
O Presidente Zelaya, se refugiar na Embaixada do Brasil, é uma forma de colocar em cheque os que são a favor de golpes militares (inclusive a dirieta brasileira).
Quero ver as posições dos EUA, na reunião da ONU e do Conselho de Segurança.
Parabéns ao Brasil que está dando um exemplo positivo ao mundo, suportando este momento, até que haja uma negociação e a volta de Zelaya, o legítimo Presidente de Honduras.

Nizar El-Khatib

Blog do Morani disse...

As noticias sabidas por mim são de que o senhor Zelaya, presidente eleito de Honduras, pretendia "mexer" na Carta Magna do país objetivando mais um mandato ( o terceiro, talvez?). Ora, a Constituição de uma nação, seja ela qual for, precisa ser preservada e respeitada. Se o fato acima narrado tem fundo de verdade, e não sendo possível uma terceira tomada do poder, então o asilo dado ao presidente deposto é condenável. O senhor Lula - salvo erro ou omissão -tem que se preocupar mais com a situação interna de seu país e deixar que Honduras, e mais quem queira, resolva entre a sua gente o destino que darão ao presidente deposto; porém, se não existe fundamento de que o senhor Zelaya não pretendia esse "golpe" contra a Constituição de seu país, então passa a ser obrigação de qualquer governo - uma vez solicitado o asilo - dar a garantia da proteção ao deposto e seus familiares, bem como a alguns membros de seu "staff". Não se falou por aqui que ele, Zelaya, tenha solicitado oficialmente o asilo, tendo chegado sub-repticiamente àquela nossa Embaixada na capital de Honduras - Tegucigalpa - onde lhe foi dada a guarida.
Se isso tem o acolhimento devido, pela verdade (?)dos fatos, então, como cidadão brasileiro, me coloco contra a medida tomada pelo nosso Chanceler com o apoio irrestrito do presidente Lula. Será péssimo para o Brasil se desse episódio surgir sério impasse diplomático com vestes políticas. Se tem razão o senhor Zelaya, o Judiciário hondurenho não pode e não deve ficar à margem dos fatos , sob pena de desmoralização perante as nações livres do mundo. E todas as nações do planeta já têm problemas demais a serem resolvidos para voltarem o foco de seus interesses a uma situação que diz respeito apenas à população daquele país. Recorra-se a um Tribunal Internacional e que ele dê a palavra final. O que não aceito são as veladas ameaças do senhor Lula a uma possível invasão à nossa Embaixada. Isso fomenta mais ainda a delicadeza da situação colocando o Brasil no papel de Magno Juiz, com retaliações nada pacíficas, pois o tom usado pelo senhor Lula foi também de ameaça. Temos um Corpo Diplomático ativo e firme, acredito. Resolva-se, pois, o caso dentro desse parâmetro.

Hudson Luiz Vilas Boas disse...

Amigo Morani
O que Zelaya propôs ou deixou de propor (no caso uma consulta popular sobre a possibilidade de reeleição, o presidente hondurenho estava no primeiro mandato) ficou no pretérito uma vez que o presidente foi deposto por golpe militar. Não só o Brasil, mas toda a comunidade internacional em coro, repudiou a ascensão ao poder dos gorilas hondurenhos mediante o golpe e passou a exigir o retorno de Zelaya, o presidente constitucional, legítimo e único. Portanto não pode ser visto como um problema interno de Honduras e nem podemos acusar o governo brasileiro de ingerência. Afinal o que não queremos é justamente o retorno de ditaduras que nos custaram vidas, sonhos e avanços democráticos.

Blog do Morani disse...

Meu caro Hudson:

Como eu relatei em meu comentário: se nada houver de verdadeiro contra o senhor Zelaya que se dê o asilo a ele e à sua familia, mas que ele possa, mediante salvo conduto, se abrigar em nossa pátria, que o receberá de braços abertos e com todos os direitos garantidos pelos Tratados Internacionais. Agora, ainda acho que a soberania do povo hondurenho terá que ser respeitada, e que eles possam resolver suas pendências políticas lá, no centro nervoso dos acontecimentos. Nem eu desejo ditaduras de quaisquer espécies nem golpes, venha de quem vier e de onde vier. Então, estamos acordados sobre essa questão que, confesso, não me aprofundei como deveria.