quarta-feira, 22 de julho de 2009

Os resquícios de um inferno

Por Tiago Barbosa Mafra

Em 20 de Julho de 1944 o Coronel Conde Claus von Stauffenberg, oficial do exército alemão em guerra, malogrou na mais famosa entre tantas tentativas de assassinato a Hitler. Era o sinal de que nem todo o povo alemão estava de acordo com as atrocidades colocadas em prática antes e durante o conflito. Pouco menos de um ano depois estava acabada a guerra na Europa e Hitler suicidou-se. Mas morreu com ele o nazismo?

Infelizmente é perceptível que não. Com a fuga dos políticos e militares sobreviventes, ou mesmo através de obras escritas propagadas indevida e ilegalmente pelo mundo, tem-se uma continuidade das idéias racistas, discriminatórias e intolerantes em relação a tudo considerado diferente do padrão “branco alemão”, o ariano puro.

Até mesmo no Brasil, nos meios de comunicação virtual atuais, milhares e milhares de portais virtuais e blogs difundem idéias que se esperava estivessem esquecidas. E pasmem leitores: aqui mesmo em nossa cidade, Poços de Caldas, vivenciei esta semana a facilidade com que esses verdadeiros crimes se mantêm em andamento.

Ao buscar algumas obras de interesses para minhas pesquisas, me deparei com dois exemplares do livro Holocausto: judeu ou alemão?, de Siegfried Ellwager Castan, conhecido e repudiado no meio acadêmico como S. E. Castan. Desde 1986, Castan é denunciado pelos Movimentos Populares Anti-Racismo do Rio Grande do Sul, sendo que em 1991 o Ministério Público determinou a busca e apreensão de todos os títulos publicados pela Editora Revisão (da qual Castan é proprietário), incluindo o livro acima citado.

O que não consigo compreender é como essas obras ilegais e revisionistas, de cunho nazista, continuam à disposição da população e principalmente e mais preocupante, ao alcance da juventude, em uma das maiores bibliotecas do município, a Biblioteca Centenário, locada no prédio da Urca.

Encaminhei um pedido de retirada dos livros para a administração das bibliotecas e creio que as devidas medidas estejam sendo tomadas. O que mais me assusta, como cidadão e educador, é saber que em tempos de crises e dificuldades, propostas de soluções rápidas e eficazes sempre fascinam a juventude. E o que nós menos precisamos agora é dotar o povo, já massificado pelos meios de comunicação e obrigados a pensar mais rápido e não a pensar melhor, com posicionamentos intolerantes, de aversão a tudo que não é considerado superior.

Todo cuidado é pouco. O chefe da propaganda nazista dizia: “uma mentira repetida mil vezes se torna verdade”. Foi assim que eles procederam. E é contra essas mentiras que devemos lutar.

Tiago Barbosa Mafra é professor de Geografia na Rede Municipal de Ensino e no curso pré-vestibular comunitário Educafro.
tiago.fidel@yahoo.com.br

3 comentários:

cappacete disse...

de toda forma esse nazistas falam a uma minoria, o Brasil é um país mestiço e os tais "brancos puros" não chegam a vinte por cento, e mesmo entre essa minoria os nazistóides teriam dificuldade em proliferar, como se diz na quebrada, não passam de meio dúzia de cuzão...

Blog do Morani disse...

Cappacete, não é assim tão fácil. A Alemanha - pré-Hitler - de 1914/1918, estava arrasada e sob o rígido contrôle de um Tratado de Versalhes, imposto pelos aliados vitoriosos.
Fruto de um governo fraco na Alemanha pós-guerra, Adolf Hitler surgia para o mundo político através de um golpe inteligente dentro de uma cervejaria da Bavaria. Os nacionais-socialistas conseguiram impor aquele austríaco como Ministro e, posteriormente, Primeiro Ministro. Ele se cercou de um homens fiéis e prontos a agirem como lhes ordenava o homem do bigodinho famoso. Um deles se chamava Himmler - seu diretor de propaganda à implantação do nazismo no governo de Hitler. O Brasil anda de tal modo capenga com escândalos semanais, patifarias, locupletação de ganhos extraordinários, sub-emprego e desemprego, falta de moradia e com um PAC mal administrado, com mentiras e máscaras blindáveis àqueles escândalos, que cheiram muito mal, que pode se tornar presa de um grupo de jovens sonhadores como o são esses neo-nazistas. Himmler não era homem de bela estatura, não impressionava por sua beleza ariana nem por sua verve tímida, mas fez o que fez de um pesadêlo um grande sonho de uma Alemanha dominando o mundo por 1000 anos. Seria a raça ariana a única a sobreviver por aquele período. No dia em que esses jovens sonhadores neo-nazistas tocarem na ferida do povo brasileiro, milhares e milhões se denominarão "brancos puros"ou "elite privilegiada" exigindo mudanças e engrossando esse sonho que poderá se tornar pesadêlo, mas, pesadêlo por pesadêlo, nós já vivemos há muito pesadêlos sem termo. Eis o coquetel para a implantação de uma filosofia de "cara nova", que começa entre os jovens e se espalha pelos infelizes sem quaisquer esperanças a uma vida digna.

RLocatelli Digital disse...

Considero o seguinte: o nazismo tal qual ele existiu na Alemanha nunca voltará a ser uma ideologia de massas. Nisso o Capaccete tem razão.

Porém o Morani alertou para um ponto importante: as condições de crise, desemprego, etc, podem resultar em ideologias de extrema-direita. Veja-se o caso dos sudestinos, principalmente paulistas, votando nos demotucanos com fidelidade canina, ano após ano. É um fenômeno que, a meu ver, lembra os primórdios do nazismo.