quarta-feira, 13 de outubro de 2010

Revista Época, julho de 2000: Eduardo Jorge, o vírus palaciano

Para quem não sabe Eduardo Jorge é atualmente vice-presidente do PSDB e um dos principais coordenadores da campanha de Serra


Revista Época

Edição 114 (24/07/2000)


Os efeitos de um vírus palaciano


O governo reage a investigações em empresas vinculadas a Eduardo Jorge, o ex-secretário de FH que se define como “uma doença”

O presidente Fernando Henrique Cardoso, nas duas últimas semanas, não divertiu nenhum interlocutor com o que ele próprio considera uma de suas maiores virtudes: transformar em piadas certos fatos que o incluem como protagonista ou coadjuvante indispensável. Abatido, tenso, apático, o presidente não tem respondido de pronto às indagações que ouve. Limita-se a fitar quem pergunta com olhar vago. As denúncias contra Eduardo Jorge Caldas Pereira – ex-secretário-geral da Presidência que multiplicou seus lucros na iniciativa privada graças ao tráfico de influência – explicam a mudança.

Desde a última segunda-feira, Eduardo Jorge recorre a tranqüilizantes para tentar manter a serenidade. Tem crises de choro. Passa horas trancado no escritório de casa, solitário, reunindo documentos e esboçando o texto de uma defesa judicial. No dia 6 de julho, telefonou para o gabinete de FH no Palácio do Planalto tentando explicar a entrevista concedida ao jornal Valor Econômico. Entre outras revelações, ele informara que o juiz foragido Nicolau dos Santos Neto ajudava o governo a selecionar candidatos a juiz classista para auxiliar o andamento do Plano Real. Foi a última conversa com o antigo chefe. Eles trabalharam juntos por 17 anos, desde que Eduardo Jorge ocupou a chefia de gabinete de Fernando Henrique no Senado. “Tornei-me um vírus. Pareço uma doença ambulante”, reclamou Eduardo Jorge com um amigo.


Irmãos beneficiados
A família Caldas Pereira participa do governo FH

  • Maria Delith Trabalhou no gabinete de Fernando Henrique no Senado até 1992. Foi secretária-executiva do Ministério da Cultura até o ano passado. Está no Sebrae

  • Tarcísio Jorge Almirante da reserva, desde 1995 era presidente da Casa da Moeda no Rio de Janeiro. É o mais próximo de Eduardo Jorge. Deixou o emprego neste mês

  • Na vida privada Marcos Jorge Caldas Pereira é um dos mais solicitados tributaristas de Brasília há 15 anos. Hoje, vem sendo acusado de se beneficiar do parentesco com Eduardo Jorge. O caçula da família, Fernando Jorge, é sociólogo e trabalha para o PSDB desde 1992. Em 1995 tornou-se chefe do escritório brasiliense da consultoria MCI


  • Ele e o advogado José Gerardo Grossi tentam explicar ao Ministério Público, ao Congresso Nacional e à imprensa que os negócios do ex-secretário-geral de FH não se misturaram com a dilapidação dos cofres públicos promovida pelo juiz Nicolau durante as obras de construção do novo fórum trabalhista de São Paulo. Elegeram Luiz Francisco de Souza, procurador da República, o maior adversário da defesa que elaboram. “Vou até onde precisar ir. Quebrarei todos os sigilos necessários”, ameaça Luiz Francisco.

    A família Caldas Pereira e os negócios do ex-secretário sofrem o contágio desencadeado pelo vírus. Na última quinta-feira, o gupo Meta obrigou Eduardo Jorge a desligar-se de seu conselho. Ele tinha 10% das ações da Metacor e Metaplan, empresas especializadas em corretagem de seguros para o governo. A Meta era apenas uma das companhias a que o ex-secretário presidencial se ligou ao trocar o governo pelo lobby. Em 1998 ele criou a EJP Consultores Associados, uma consultoria política. Também é sócio da LC Faria Consultores. No papel, tem apenas 1% das ações. O Ministério Público diz que a participação real é maior. Eduardo Jorge recusa-se a revelar o nome de seus clientes. Afirma que jamais usou a influência política adquirida nos quatro anos em que despachou na ante-sala do gabinete do presidente para intermediar negócios no governo. Várias denúncias sugerem o contrário. Ele participou de reuniões no Ministério dos Transportes para defender interesses da Transroll, empresa de transporte de cargas. Conseguiu que a legislação mantivesse uma reserva de mercado beneficiando seu cliente. Em 1998, grampo telefônico ilegal montado no Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES) flagrou conversas em que Eduardo Jorge cobrava de seu presidente, André Lara Resende, operação de socorro para o frigorífico Chapecó, de Santa Catarina. A empresa recebeu um aporte de R$ 54 milhões sem dar as garantias necessárias.



    Negócios na esplanada
    Fora do governo desde abril de 1998, Eduardo Jorge procurou ministros em nome de empresas privadas. Colecionou insucessos|

  • José Carlos Dias Quando ministro da Justiça, recebeu pedido de audiência do ex-secretário. Eduardo Jorge queria ampliar contratos da Montreal Informática com o Departamento de Trânsito. A manobra gorou

  • Everardo Maciel O escritório de advocacia do irmão de Eduardo Jorge tentou, sem sucesso, reduzir a carga tributária sobre filiados à Organização das Cooperativas Brasileiras. Osecretário da Receita indeferiu os pedidos

  • Eliseu Padilha Eduardo Jorge procurou o ministro dos Transportes para tentar estabelecer novas regras no transporte internacional de carga. A mudança acabaria beneficiando a Transroll, empresa à qual servia

  • Andrea Matarazzo Ministro da Comunicação Institucional, foi um dos grandes amigos de Eduardo Jorge no Planalto. Costumava ouvir o ex-secretário sobre pesquisas encomendadas pelo governo. A relação esfriou


  • Todas as empresas que mantiveram vínculos com Eduardo Jorge, tendo-o como sócio ou consultor, serão investigadas pelo Ministério Público. Os procuradores querem rastrear as ligações do ex-secretário da Presidência com funcionários do governo. O escritório Caldas Pereira Advogados e Consultores Associados, que reúne dois irmãos e uma sobrinha do ex-secretário de FH, foi contratado pela Organização das Cooperativas Brasileiras em julho de 1997 para tentar reduzir a carga tributária imposta pela Receita Federal. Receberia R$ 5,04 milhões se tivesse sucesso. O trabalho foi malsucedido. Mesmo assim, os advogados receberam R$ 645 mil. A acusação incomodou Eduardo Jorge. Marcos Jorge Caldas Pereira, seu irmão e chefe da banca, atua como advogado tributarista há 15 anos e o escritório é um dos mais tradicionais de Brasília.

    Há outros integrantes da família Caldas Pereira que estão ou já foram bem posicionados na administração de Fernando Henrique. Maria Delith, uma das irmãs de Eduardo Jorge, é diretora-executiva do Serviço Brasileiro de Apoio às Micro e Pequenas Empresas (Sebrae). Ganha um salário de R$ 17,5 mil. O sociólogo Fernando Jorge Caldas Pereira chefia o escritório brasiliense da MCI, empresa contratada pelo Palácio do Planalto e pelo PSDB para realizar pesquisas de opinião pública. De 1996 até hoje a MCI recebeu R$ 9,5 milhões do governo. Outro irmão de Eduardo Jorge, o almirante da reserva Tarcísio Jorge, era presidente da Casa da Moeda. Foi demitido na primeira semana de julho. Recebia R$ 10,4 mil por mês.

    Assessores do Palácio do Planalto tentam isolar o vírus da crise. Alegam que todas as associações do ex-secretário-geral da Presidência com empresas privadas e suas tentativas de lobby ocorreram depois que ele saiu do governo. Em abril de 1998 Eduardo Jorge deixou a sala que ocupava no 3º andar do palácio, a 20 metros do gabinete presidencial, e assumiu a coordenação da campanha de reeleição. Não voltou mais para o governo. A amigos, Eduardo Jorge Caldas Pereira ressalta a admiração que ainda cultiva por Fernando Henrique. “Perguntam-me qual o limite da lealdade que tenho para com o presidente. Digo sempre que essa lealdade não tem limites”, define nos desabafos. O presidente Fernando Henrique delimitou a extensão do cordão sanitário que usará, a partir desta semana, para impedir que o governo siga contaminado pelas suspeitas que atingem Eduardo Jorge. Em agosto, quando o Congresso Nacional suspender o recesso, não trabalhará para evitar a convocação do ex-assessor. Mas usará toda a força parlamentar de que dispõe para barrar a tentativa da oposição que pretende instalar uma Comissão Parlamentar de Inquérito destinada a apurar o caso. “Uma CPI é desnecessária. Eduardo Jorge não é o governo”, desabafou FH com um de seus líderes. O presidente precisa convencer congressistas e promotores de que o ex-secretário tem mesmo o figurino que ele deseja que tenha.


    O destino do dinheiro roubado
    Parte das verbas que saíam do Orçamento da União para a obra do TRT está no Panamá e no Paraguai

    A Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) que investigou o Poder Judiciário contabilizou a emissão de 80 ordens bancárias no valor de R$ 232 milhões destinadas à Incal. O dinheiro era para a construção do Fórum Trabalhista de São Paulo. Dos R$ 232 milhões, foram desviados R$ 169 milhões. Destes, R$ 63,67 milhões acabaram depositados nas contas do Grupo OK, do ex-senador Luiz Estevão. Documentos recebidos por Luiz Francisco de Souza e Guilherme Schelb, procuradores da República em Brasília, dão conta do destino de R$ 158,8 milhões do total de verbas saqueadas. O dinheiro chegou a uma conta da Incal no Banco do Brasil. Depois, foi distribuído na seguinte ordem: os R$ 63,67 milhões para o Grupo OK, R$ 17 milhões para pessoas físicas, R$ 59,13 milhões para contas no Panamá e R$ 8,65 milhões para contas no Paraguai.

    As remessas para o Panamá tinham sido identificadas pela CPI a partir de investigações do Ministério Público Federal em São Paulo. O Tribunal de Contas da União (TCU) detectou que as quantias eram enviadas desde 1992, em depósitos numa empresa chamada Investment Real State. Um relatório da Interpol advertiu os procuradores da inexistência da Investment Real State. A empresa é apontada como um central de legalização de dinheiro desviado por corrupção. Um documento entregue a Luiz Francisco e Schelb cita uma empresa panamenha, Valeo Térmico, como destino final do dinheiro do TRT.

    Ainda não se sabe onde aportaram as verbas remetidas ao Paraguai, mas o Ministério Público suspeita que o dinheiro chegava ao país a partir de depósitos efetuados em Foz do Iguaçu, na fronteira paraguaia, por meio de uma conta do Banco Cidade aberta em nome do Grupo Monteiro de Barros, dono da Construtora Incal. A Incal era encarregada da obra. A denúncia entregue aos procuradores identifica uma casa de câmbio e dois bancos paraguaios na ponta dessa parte do desvio de verbas do TRT.

    Os procuradores em Brasília reclamam da má vontade do Banco Central em levantar onde estão os R$ 169 milhões roubados dos cofres públicos que tinham por destino as obras do TRT. O prosseguimento das investigações sobre o dinheiro desviado das obras do tribunal paulista depende do rastreamento das ordens bancárias. Das 80 registradas, o BC só apresentou informações de 42. O procurador da República em São Paulo, José Ricardo Meirelles, esteve em Brasília na semana passada para pressionar o governo. Reclamou dos relatórios do Banco Central, dizendo que faltavam informações básicas como o nome dos beneficiários. “Precisamos saber para onde o dinheiro foi depois de chegar ao primeiro desses beneficiários”, argumenta Meirelles. “O Banco Central tem de acatar plenamente a quebra de sigilo bancário requisitada pela Justiça Federal.”

    4 comentários:

    Blog do Morani disse...

    Pois é Hudson:

    Nesse "imbroglio" todo, sobre o tal Eduardo Jorge, o que foi feito ao pobre do Procurador dsa República Luiz Francisco de Souza? Calaram-no para sempre, pois que não dá mais entrevistas, não toca mais no assunto dessa pouca vergonha que emporcalhou todo o governo (?) Fernando Henrique - mais um patife que só fez perseguir os pobres, os aposentados chamando-os de vagabundos e tantos o outros mais.
    Ele, o Vampiro, chegou a reclamar que os idosos aposentados estavam vivendo muito! E ele, o canalha? Não estava na hora de "bater as botas?"
    Pois bem: mostrem-me um só governo - desses todos no período de 40 anos - que tenha pautado seu comportamento orientado pela bússola da ética. Não há um só sem uma sujidade, por menor que seja. E ainda que seja insignificante, face a outros mais sujos, ainda assim se torna imperdoável. A mim, meu caro amigo, não há um só político(a)que seja íntegro(a). Será que antes de eu morrer terei a felicidade de ter um cidadão apenas preocupado em governar com o povo e para o povo? Um país é de um povo em geral, não de uma súcia de homens de momento, de quadrilheiros, de mentirosos e mal intencionados. E é isso que sempre tivemos desde priscas Eras, desde quando se instalou a Primeira República. Congratulo-me pelo dia em que eu me afastar definitivamente deste mundo que parece mais um lupanar de consciências fétidas e mal formadas, salvo erro ou omissão.
    Abraços.

    José Evaristo disse...

    Recordar é viver. Todo mundo rouba e diz que faz. Quero saber o que foi feito com o dinheiro ROUBADO pelo grupo TERRORISTA da Dilma.
    Agora o Hudson foi no ano 2000 buscar assunto. Proponho que ele pesquise também sobre o escândalo do Dom Pedro I, que marcava pangarés como se fossem cavalos "imperiais"... Se fuçar vai descobrir que o Serra tem ligação com o imperador... rsrsrs.

    Hudson Luiz Vilas Boas disse...

    J Evaristo

    Você me deu uma ideia. Com certeza os tucanos andam aprontando desde os tempos de D. Pedro. Ou mlhor, desde o dia em que Cabral pôs os pés aqui.

    Falando sério. O caso do EJ é didático, afinal ele hoje é o vice-presidente do partido da ética, moral e bons costumes.

    Anônimo disse...

    Entendo, mas se seguir esse ideia chegamos fácil a conclusão de que esse povo do PSDB é muito bom de relações enquanto os do PT caem como moscas a qualquer denúncia. Veja que são opositores e nao creio que o PT e os que integram a rede de aparelhamento sejam tão incapazes de encanar ao menos um rival.
    Abç.
    JE